01 maio, 2008

Dois Pormenores


Dois pormenores da pintura de Marta Jacinto, cuja exposição inaugurou a III Bienal de Poesia e que se encontra patente no átrio da Biblioteca Municipal de Silves

30 abril, 2008

poema poeta poesia

enquanto três tópicos são estes os três lugares que nos convidam a habitar.
primeiro lugar: o espaço interior do poeta, a sua solidão – a sua primeira casa. para que escreva, o poeta precisa de um recolhimento, uma aproximação à paz, de um vazio que é aceite em silêncio. um vazio necessário para a reconstrução do escuro e do mais belo.
a casa do poeta não é uma casa inteiramente vazia. é uma casa com numerosos espaços a habitar. espaços que se vão preenchendo devagar, devagarinho consoante as mulheres que chegam e os objectos que trazem, conforme os que se ausentam e os objectos que esquecem, e há o amor e a morte entre as coisas, o desalinho das mãos que também abraçam. porque a morada do poeta é uma casa de solidão e amor, porque amar é ainda saber-se só, é saber existente uma solidão anterior à sua e saber recebê-la e reconhecê-la vigilante. é grandíssimo o amor do poeta, a sua casa é imensa e tem vários andares; andares construídos de lenha, lenha húmida, de sol, pedra e cigarros mal apagados, de terra e pedaços de vasos nos corredores. há mesas e toalhas de plástico, algum pó na margem dos espelhos. uma casa com muitos andares, frascos sem rótulos nas prateleiras e pela casa há mulheres sentadas, pacientemente, a aumentar os dias aos meses, presilhas de ferro e cartas escritas a lápis dentro de caixas transparentes, rectângulos desenhados no centro das portas e nomes sublinhados a giz nas paredes. todos os dias é construído um novo piso na casa do poeta e há gente que entra e que gosta e que quer ficar lá para sempre e que não quer esquecer. porque o poeta escreve também para não esquecer escrevo para não esquecer, para não esquecer a dimensão da casa, o tempo exacto onde tudo acaba por ser esquecido. o poeta quer dizer a sua solidão, arrisca defendê-la, salvá-la com palavras, comprometendo-se a dizer o que está por detrás delas, recuperar o silêncio que fica na casa depois de as ter tocado. uma presença invisível - o ar todo que entra e se mistura com as divisões da casa, os nomes multiplicados na parede, o abrir, o descobrir das janelas todas, para depois poder fechá-las, tranquilamente.
o poema é a casa que o poeta eleva para as palavras. o poema é o lugar onde as palavras se encontram. algumas conversam entre si, procuram o fim das ruas e vêem os rios do outro lado dos muros. outras conhecem os muros mais altos da cidade e admiram-se de serem as escolhidas para as primeiras linhas de um caderno. o caderno é a possibilidade do poeta se encontrar e também a primeira oportunidade de as palavras não se perderem umas das outras. elas conhecem a comunhão, sabem quando a terra estremece e o instante em que o poeta as chama. requintadas, algumas, não gostam que as evoquem, aparecem de repente, imersas de luz: quase incabíveis no mundo.
o poema é um lugar delicado para habitar e parece que todas as palavras sabem disso: as palavras que apontam incêndios, as que lembram as pedras mais duras, as que esperam a forma mais lisa dos pássaros, todas elas sabem que o poema é um lugar altíssimo, uma reza dita baixinho. o poeta dá-se vida e dá vida. é lhe difícil definir um só nome para cada um dos lugares que encontra, para todas as figuras que o habitam, revive a dimensão de uma centena de barcos e é-lhe frágil a claridade – nasce assim a poesia: um lugar de mar, uma casa sem portas, uma casa de horizonte. um sítio de coragem, porque um poema nunca existe completamente e o poeta sabe isso; as palavras são pequenas bolas de ar, pequenos sopros que moldam o espaço do coração. a poesia não salva, redime-nos da passagem do tempo, cuida do envelhecimento da casa. cuida do pequeno intervalo que existe entre nós e as coisas, da pouca distância que vai das minhas mãos até ao copo deixado em cima desta mesa.

texto lido por Aida Monteiro na III Bienal de Poesia, em Silves.

Escapada

Três dias no Algarve, por causa da Bienal de Poesia de Silves. Oportunidade para reencontrar amigos, conhecer gente nova, descobrir vocações. Um tempo magnífico (a imagem foi obtida a partir da varanda do meu quarto, às 10 da manhã de ontem), a hospitalidade generosa de Maria Gabriela Rocha Gouveia e de todo o staff da autarquia, as magníficas instalações da nova Biblioteca Municipal, onde decorreram as sessões, o ambiente descontraído dos almoços e jantares, tudo contribuiu para um fim-de-semana diferente. O manuel a. domingos também andou por lá. Houve de tudo: cantares à desgarrada (nanja eu), egos inflacionados, gossip político (o PS tem um peso-pesado para apresentar em Silves nas próximas autárquicas), poemas ao vivo, provas de vinho, cavaqueio sobre Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu com Denise Ferraz, uma simpática scholar brasileira, um pianista cego com voz de barítono, um episódio boliviano que envolveu Maria Estela Guedes, a força da natureza que é Luís Carlos de Abreu, etc. Também houve uma homenagem a Urbano Tavares Rodrigues, marcada para o fim da tarde de hoje, a que já não pude assistir, com grande pena, mas tinha outro compromisso em Lisboa. Do muito que ouvi, retive com particular agrado a comunicação de Marco Alexandre Rebelo, um jovem mestre em estudos portugueses e teoria da literatura da Universidade Nova de Lisboa, bem como os poemas de Aida Monteiro e manuel a. domingos. Ontem à noite, num serão informal, o romancista Domingos Lobo, cuja poesia não conhecia, surpreendeu toda a gente com a leitura de um (magnífico) poema de homenagem a Luiz Pacheco. Valeu a pena. Está explicado o motivo porque hoje não pus em linha o habitual Ler os Outros.
Eduardo Pitta, in Da Literatura [clique]

POEM'ARTE - III Bienal de Poesia de Silves


O regresso depois de vários dias no Algarve, devido à III Bienal de Poesia de Silves. Oportunidade única para reencontrar amigos, conhecer gente nova, poesias outras, descobrir vocações e novos sentimentos. Um tempo extraordinário e a hospitalidade generosa de Maria Gabriela Rocha Martins e de todo o staff da autarquia, com especial realce para a querida Hélia Coelho, não só "pau para toda a obra", como foi conjuntamente com Silvestre Raposo responsável pelo Design da antologia e naturalmente do "poem´arte". Para além disso, as magníficas instalações da nova Biblioteca Municipal, onde decorreram as sessões, a maravilhosa actuação do grupo Experiment´arte, o ambiente descontraído dos almoços e jantares, tudo contribuiu para um fim-de-semana diferente, onde a poesia e os sentimentos estiveram à flor da pele.
Para além da justa homenagem a Urbano Tavares Rodrigues, que foi assinalada na tarde de domingo, três mesas redondas muitíssimo interessantes. Do muito que ouvi, retive com particular agrado a comunicação da Teresa Tudela, bem como os poemas de Aida Monteiro, manuel a. domingos, Maria Estela Guedes, Porfírio Al Brandão e Eduardo Pitta. O Eduardo, embora não concordando com alguns dos seus apontamentos, conseguiu agitar o diálogo com os presentes, que era logicamente o que as mesas tinham por objectivo. No sábado à noite, durante o lançamento da antologia, o romancista Domingos Lobo, cuja poesia não conhecia, surpreendeu toda a gente com a leitura de um magnífico poema de homenagem ao grande Luiz Pacheco.

Da Maria Gabriela, só para realçar o tremendo esforço, dedicação e perseverança em conseguir mais uma vez projectar esta Bienal de Poesia de Silves. Quero ainda chamar a atenção para um dos mais belos blogs que últimamente descobri, o blog da poeta Gabriela R. Martins: canto.chão (http://cantochao.blogspot.com/).

Da Hélia Coelho, apenas para realçar o facto de também escrever, e bem(e fotografar), e por isso, um texto seu que simboliza todo o ambiente que se viveu na III Bienal de Poesia de Silves. A expectativa do chegar, a alegria do estar e a tristeza (profunda) do partir. Retirado do seu blog: (http://sonhoasul.blogspot.com/)
.

ecoa o silêncio
no ondular das vagas
.

ir e voltar?
.

o caminho de retorno
é vário
suspende-se
no respirar
profundo
de uma nova
.
brisa .

Ailéh
João Rasteiro in "No Centro do Arco" [clique]

29 abril, 2008

disseste
bailarinas pó de arroz
dançam candeeiros de amêndoa
habitam-me os olhos na voz
ciclos de memórias
desenrolam
melancias vermelhas
estranguladas
por vírgulas pretas
pontos cerebrais
enfeitados por palavras
delicadamente propositadas

disseste a ternura dos jornais
em rosto de acordeão
um sol de farinha nos olhos
o ponto final nos ombros demorados
silêncio nos dedos de seda

a estremecer
uma voz
sólida
de fogo na noite

Graça Magalhães
Este poema é dedicado a todos aqueles que animaram as palavras nesta III Bienal de Poesia: Marta Vargas e Grupo Experimentarte.

Democratização da Poesia ou Banalização da Palavra?

A expressão acima é algo equívoca; desde logo porque os dois sintagmas que a integram o são. Assim: tem sentido falar-se de democratização da poesia ou deveria antes falar-se de democratização do acesso à poesia? Se for este o caso, então, deveremos encará-lo como um problema que tem a ver, por um lado com o nível cultural dos potenciais leitores e por outro lado com o compromisso que todo o escritor deve assumir para que o grau de polissemia seja controlado e não desapareça totalmente a objectividade ( que permite alguma comunicação com o leitor ). Se o número de significados se aproximasse de infinito, então, nesse caso, tender-se-ia também para uma entropia máxima com sacrifício da compreensão do texto poético, tender-se-ia, pois, para um discurso completamente aleatório, numa palavra para o caos. ( ver a este propósito A Obra Aberta de Umberto Eco ).
No caso da acessibilidade ligada ao nível cultural dos leitores, o problema é especialmente espinhoso para nós, portugueses, sendo certo que uma parte significativa da nossa população tem dificuldade em descodificar um simples trecho em prosa, quanto mais um texto poético!
Que devem fazer os escritores nessa circunstância? Baixar a qualidade do texto com sacrifício da originalidade a que têm direito ( não esquecer que esse trabalho corresponde ao da investigação científica, que é, por norma, apenas acessível a iniciados )? Estamos perante mais um equívoco. Devemos contribuir todos para que a população se torne mais culta e isso não se faz fazendo maus programas de televisão, ainda que de compreensão imediata, escrever livros de poesia imitando a poesia popular, dar uma total primazia à imagem em detrimento da palavra escrita. O sucesso da imagem televisiva resulta da sua fácil digestão e serve os interesses da demgogia a que os diferentes governos vêm dando guarida sistemática.
Se um livro agrada a toda a gente é razão para desconfiar da sua qualidade, juízo já emitido por vários escritores e que eu subscrevo interiramente, embora admitindo as óbvias excessões que sempre existem ( felizmente).
Quanto à expressão banalização da palavra merece-me alguns comentários. Ou a expressão é para ser tomada à letra e nesse caso tenho a dizer que não há palavras banais, todas são susceptíveis de ser incluídas num poema ( ver Pessoa ) ou a expressão tem carácter metonímico e então o que se pretende referir é a banalização das palavras articuladas, das expressões ( frases ou versos ) usadas no quotidiano mas com que frequentemente nos deparamos em textos pretensamente poéticos. Aí há, obviamente, uma banalização, sim, mas do texto que não da palavra.
Há pouco tempo, Nélida Piñon em entrevista à Rádio Clássica dizia que aos 14 ou 15 anos descobriu verdadeiramente o que fazia a diferença entre um escritor e alguém que escreve não importa o quê, ao escrever, ela própria, a expressão uma ladeira íngreme. Ora isso, qualquer pessoa diz, é uma expressão vulgar, além de possuir um carácter quase pleonástico. Ela percebeu nesse momento que nada tinha acrescentado ao significado da palavra ladeira.
Naturalmente, sou contra tal banalização. O texto poético não é um discurso do quotidiano. É claro que os poetas têm palavras pelas quais têm uma estima especial e que empregam com maior frequência, constituem o seu láxico. Sobre elas diz João Cabral de Melo Neto:
Vivo com certas palavras
-abelhas domésticas
*
Com este arrazoado quero eu dizer que fico sempre desconfiado quando ouço falar de democratização da poesia. Se esta não precisasse de esforço para ser minimamente compreendida, então, obviamente, é por que era de má qualidade. Já o dizia T. S. Elliot deste modo: when I see a play and understand it the first time, then I know it can't be much good. Isto não significa que eu faça a apologia de uma poesia hermética, esotérica. É importante que cada escritor encontre o seu modo de fazer poesia, de tal modo que essa poesia não seja leitura apenas para ele, mas sim para um conjunto de pessoas que foi, ao longo do tempo, educando o seu gosto no contacto com a poesia e no estudo da história da cultura.
Quando se fala de democratização pensa-se sempre em política e bem: um regime democrático opõe-se a um regime autocrático e estas são formas muito diferentes de gerir o poder político.
Mas devemos reconhecer que se escreveu boa poesia em ambos os tipos de regimes ainda que os poetas se tenham batido sempre pela liberdade de expressão do pensamento. A publicação esteve muitas vezes proibida a certas vozes incómodas mas o pensamento não pode ser coarctado senão pela morte.
Lembremo-nos de Dante que teve de fugir de Florença sob a ameaça de pena de morte por ter tomado partido pelos guelfos brancos contra o papa Bonifácio VIII, exilando-se, viajando de umas terras para outras, até ficar sob a protecção de Guido Novello da Polenta na corte de Ravena, cidade onde morre em 13/14 de Setembro de 1321. Lembremo-nos de André Chénier que pagou com a vida o seu amor à liberdade e que ficou imortalizado na ópera homónima de Giordano e dos que fugiram à ditadura nazi emigrando para outros países ( Nelly Sachs, Thomas Mann, etc., etc. ). Essas situações ignominiosas não foram capazes de impedir o gesto criativo para empregar parte de um verso de Sophia de Mello.
E, à guisa de provocação, deixo estas duas anotações: se não tivesse havido a guerra civil espanhola não teríamos o quadro Guernica do catalão Pablo Picasso e se não tivessem ocorrido os fusilamentos de 3 de Maio de 1808 não teríamos o quadro Os fusilados de Goya. Uma coisa justifica a outra?
Em resumo: eu acho que devemos lutar para que todos tenham acesso à cultura e possam beneficiar do prazer que a arte, em geral, e a poesia, em particular, podem dar não esquecendo, todavia, que esse acesso exige trabalho, exige esforço.
Não se é poeta pela graça de nenhum deus. É uma conquista do homem, resulta da sua vontade alicerçada no seu gosto e, naturalmente, nalguma propensão ou talento. Nem todos podem ser poetas como nem todos podem ser pintores ou músicos e não tem sentido falar aqui de falta de democratização.
_______________________
*Melo Neto, J.C., Poemas Escolhidos, Portugália Editora, 1963, p. 24
Comunicação de Luís Serrano.

28 abril, 2008

a poesia implica

Fotografia e composição de Augusto Mota

Democratização por Palavras


A poesia é uma categoria literária muito ampla, que permite democratizar e fechar em torres de marfim, cantar amores e satirizar, louvar os heróis pátrios e protestar contra as tiranias. Pode a poesia recorrer ao discurso corrente a ponto de parecer banal, pode elevar-se à mais hermética das erudições. Pode reclamar por justiça e liberdade, pode apresentar-se a ela mesma como essa liberdade e essa justiça, ou pelo contrário. Então, no tema “Democratização da poesia ou banalização da palavra” vou tratar apenas de um assunto e pouco mais, entre os muitos e contraditórios que se poderiam oferecer ao exercício do teclado: a abundância de poemas e a facilidade de acesso à publicação, nos nossos tempos.

Recordo-me de ter tido uma grande surpresa, quando, no final dos anos 80, ao entrar para os corpos directivos da Associação Portuguesa de Escritores, deparei com um ficheiro de milhares de escritores, na maior parte, poetas. Pelos meus cálculos, seríamos então uns dois mil, o que, somado às ideias que todos trazemos da História da Literatura, me levou a concluir que Portugal se caracterizava, em termos culturais, pelo facto de todos sermos poetas, e pela boa qualidade geral da nossa lírica.

Hoje, continuo a dizer que a lírica portuguesa é em geral de muito bom nível, mas já não caracterizaria o país por ter muitos poetas, como outros fazem, comparando com a Alemanha, por exemplo, que é considerada um país de filósofos. A abundância de poetas é geral no mundo, debato-me com ela quase diariamente, no TriploV. Dá ideia de que versejar é comunicar numa extensão natural da língua materna, apenas situada essa comunicação num plano ritualístico e não de uso corrente, utilitário. Mas é um segundo uso, tão comum como as práticas religiosas, que têm isto de particular: o ritual é uma repetição, que não podemos acusar de banalidade. A poesia, sendo prática individual, oriunda de uma personalidade discreta, gera textos originais que, não obstante a sua diferença, podem às vezes ser ou parecer banais. A superabundância pode ter esse efeito, é verdade. Porém, a menos que se cite, parafraseie, ou adopte comportamentos típicos dos poetas mais conhecidos, a poesia de cada um de nós é sempre original. O que é banal é o hábito dos heterónimos, por exemplo, pois basta um Fernando Pessoa para logo outro que assuma idênticas posturas se tornar um imitador.

A maior parte das colaborações que me enviam para o TriploV são poemas. Eles chegam do Brasil, do Chile, de Espanha, do México, da Argentina, de Portugal, da Venezuela, e um pouco de toda a parte do mundo, o que me leva a pensar que a poesia é a mais universal de todas as artes. Desde os versos de sabor popular aos hiper-eruditos, tudo aparece, a querer um lugar no ciberespaço ao lado de homólogos estrangeiros.

Hoje não há motivo para ninguém entrar em depressão por não conseguir publicar os seus textos. Nada mais fácil do que publicar em papel, basta pagar as edições. É uma vantagem entre desvantagens muitas da crise económica e da falência com que se debatem editoras convencionais. Não há nada de errado com as edições de autor; muitos grandes autores do passado a conheceram, não existia outro procedimento; se alguns recorreram ao mecenato, quer isso apenas dizer que não tinham os meios económicos para arcarem pessoalmente com as despesas.

No meio da diversidade de edições em papel quero mencionar uma editora, por estar ligada a ela, que nem é convencional nem pratica a edição de autor camuflada, antes resolveu com originalidade os problemas económicos: é a Apenas Livros. Publica sob a forma de livros de cordel, em tiragens mínimas, facilmente restauráveis em segunda e terceira edição. Há um limite de páginas que define o aspecto de opúsculo dos livros, e isso permite vender barato. Os livrinhos raramente custam mais de quatro euros.

A edição no ciberespaço é ainda mais democrática nos custos, pois, tratando-se de um blog, por exemplo, pode ser gratuita, e é democrática sobretudo na dimensão da audiência: publicar no TriploV equivale a chegar a quase todos os cantos do planeta. Não digo todos por inexistência de democratização do bem-estar em todos os países: em alguns, caso dos africanos, o acesso à instrução e às novas tecnologias é reduzido. Quase não existe audiência nos países africanos a que estamos ainda tão ligados, por falta de implantação de redes de comunicação avançada. Não existindo tecnologia de comunicação em dados países, o seu grau de democratização também é baixo, por isso mesmo, por falta de veículos da palavra, acrescida a outras razões.

Publicar em livro e publicar no ciberespaço implica diversos modos de estar na cultura. Chamo agora a atenção unicamente para o facto de que quem publica na Internet, num site de grande audiência, não está a ser lido pelo estreito círculo dos familiares e amigos do bairro, sim por uma comunidade que nos seus limites mais amplos é estrangeira. Nota-se tendência dos poetas para se comportarem como se os fosse ler só a família. Têm de começar a comportar-se como quem está a apresentar-se ao desconhecido, e isso exige menos atitude antidemocrática, isto é, menos narcisismo.

Não podemos falar de democratização da palavra como se a democracia fosse absoluta e geral. O facto de a rede gerar uma audiência à escala global não significa democratização global. Não só existem países que não têm acesso a esses meios, como o acesso a eles, nos países que os têm, está reservado a uma elite com dinheiro. Nessa elite, usam computadores certas faixas etárias, e outras, não. Nem todos os poetas usam os meios de comunicação de que hoje dispomos, e alguns nem sequer chegaram a passar pela máquina de escrever.

De outra parte, a democracia não é um valor absoluto. Na sua vertente mais importante para os escritores, vemos que a liberdade de expressão é um direito que não corresponde às nossas utopias nem às nossas necessidades. Mesmo na vida corrente dos noticiários, a cada passo deparamos com queixas acerca dos limites impostos na política à manifestação da palavra. Portanto o direito à liberdade de expressão tem limites, é pouco para o que desejamos; acontece entretanto que o maior dos nossos censores não é a opinião pública nem as limitações políticas, sim o nosso dispositivo autocrítico. É o critério de selecção que nos impede de tudo dizermos e de qualquer maneira. Sem pretender entrar no labirinto e nos precipícios da alma, cujas razões são obscuras e passionais, basta pensarmos que o ritmo, a medida, a extensão, a metáfora, são dispositivos a que recorremos normalmente para dizer isto e assim, por exclusão do dizer aquilo e assado. A palavra implica um dispositivo de selecção e combinação interno, e esse dispositivo, ao incluir e excluir, já por si é uma censura, e por conseguinte é antidemocrático, ou em nada se relaciona com o âmbito político e social do termo “democracia”.

E terminaria com os dispositivos de exclusão social ou cultural tão caros a alguns de nós, e que por vezes sinto na pele. Assumem várias máscaras, pois nunca se apresentam em cru como dispositivos de exclusão de pessoas. A mais comum é o apelo à qualidade, que não passa em geral de pretexto para exercício de lideranças, permitido pela criação de grupos. O que mais faz sofrer, no TriploV, não é a quantidade de versos com que me bombardeiam poetas de toda a parte do mundo, sim as pressões que alguns exercem para que exclua este e aquele, ou até para que me auto-exclua de certos círculos.

Nesta Bienal que a nossa amiga e poeta Gabriela Rocha Martins faz sempre coincidir em tema e em data com o 25 de Abril, deixo em remate esta consideração: nem nas torres de cristal da poesia são sempre democráticos os nossos comportamentos cívicos.
Comunicação de Maria Estela Guedes.

Grupo Experiment'arte na III Bienal de Poesia de Silves*


*postado por Maria Estela Guedes em Triplov [clique]

Polifonia Afónica

à gabriela rocha martins

a - cor - dado*
um vale mal dormido
um colchão aspirando uma coluna
a prestações
é muito cedo para aprender
a dobrar lençóis
já que um capitel luminescente
se atreveu a explicar
a branca inconstância da noite
os pés no chão: jogar
ao jogo das vespas
de ninho codificado
até ao tic tac do puxador
as mãos adivinham o vidro
na translacção louca dos olhos
um pé e o outro na varanda

ah! a chinfrineira matutina
de aves em desatino
organizada por palmeiras plantadas
em homenagem a pitágoras

mais de perto
caramanchões de pardais acrobatas
pilotos de barriga amarela
a ensinarem matemática democrática
ao lento voo das gaivotas
que saúdam-me
fazendo-me cócegas no nariz
inspiro expiro espirro
vejo por fim
a nebulosa contricção dos prédios em maresia
que convoca a vulva explosiva
de mar quente
e no regresso me é dado
um beijo de testa no estendal
que é a bizarria de olho cego
*poema de Porfírio Al Brandão ou a sua manifesta resposta ao repto - "Democratização da Poesia ou Banalização da Palavra?"

No Rescaldo da Bienal // As Comunicações

Democratização da Poesia ou Banalização da Palavra?*

Peço desculpa por tudo aquilo que vou dizer, por tudo aquilo que vão ouvir. Encarem as minhas palavras como reflexo da juventude, da falta de experiência, da falta de amadurecimento. Tudo aquilo que vou dizer são clichés, frases feitas, ideias que não são minhas compostas por palavras que são de outros. Peço desculpa se não tratar a poesia e a palavra poética com delicadeza, mas como Homem que sou fui talhado à pedoa. Peço desculpa se não ouvirem aquilo que querem ouvir, mas com o tempo uma pessoa habitua-se.

Não acredito que exista uma democratização da poesia, nem tão pouco o desrespeito pela palavra poética. E não acredito por dois motivos.

Primeiro: a poesia sempre foi democrática. Foram os poetas que impuseram à poesia regras, como se tal fosse possível. Depois, vieram outros poetas e disseram que aquelas regras não serviam os propósitos da poesia. Desta maneira, nasceram as escolas, as tendências e tudo o resto que chegou até nós. A poesia viu-se enjaulada, reduzida a compêndios, a manuais, a regras de métrica e de rima, a versos soltos ou brancos, a sonetos, tercetos, oitavas, decassílabos. Digo que é democrática pela simples razão de estar ao alcance de todos. Há até quem diga que está em todo o lado menos nos livros de poesia. Eu concordo, embora não vá agora dar exemplos. A poesia não se encontra confinada a nada. A poesia é. Tudo é poesia. Haverá algo mais democrático que isto?

Segundo: não há desrespeito pela palavra poética pelo simples facto de não haver nem boa nem má poesia. Há apenas, e somente, poesia. Repito: a poesia é. O deve ser foi inventado pelos mesmos homens que referi anteriormente. Tudo aquilo que é existe por si só, não precisa de nada nem de ninguém para ser. Não concordo que à palavra poética seja necessário algo mais que a simples representação da realidade. A necessidade de um halo metafísico na palavra poética não é, quanto a mim, assim tão necessário. Às vezes é impedimento para o fruir da poesia. Charles Bukowski escreveu: «a mais velha ideia ainda em voga é/que se não consegues entender um poema é/quase certo que é/um bom poema.». Socorri-me destes versos do poeta norte-americano para exemplificar uma ideia que ainda hoje perdura entre nós. Tal ideia, muitas vezes, degenera em preconceito – algo que é muito feio em poesia, pois a poesia é tudo menos preconceituosa. Não me revejo na ideia de que a palavra poética deva cortar com a representação da realidade, procurando, dessa maneira, transgredir; como não me revejo na ideia de que só a realidade pode ser transgressão. E não me revejo na ideia de que a representação da realidade é sinónimo de segurança, tranquilidade, certeza. Haverá algo mais inseguro, intranquilo e incerto que a realidade?

Neste momento (e assim espero) alguns dos presentes estão a questionar-se: afinal todos podem ser poetas? Eu respondo: sim. E pergunto: há alguma entidade reguladora que nos diga quem é ou quem não é poeta? Não nos podemos esquecer que seja qual for o resultado poético, ele será sempre a soma das várias diferenças. Será sempre um espaço aberto de possibilidades.

Creio na poesia, seja ela trágica, contemplativa ou metafísica. Seja ela subversiva, transgressora, contestatária ou ameaçadora da ordem estabelecida. O importante é a poesia. Pois só a poesia tem a capacidade de realmente ser. Pois só a poesia é.



*texto lido na III Bienal de Poesia de Silves, por manuel a domingos [clique].

24 abril, 2008

A partir de hoje...

...e durante três dias, a POESIA serve.se ao vivo,
em Silves
venha experimentar os vários sabores
[de Urbano Tavares Rodrigues a Marta Jacinto
temperados pelos Experiment'arte]
fotografia de Dias dos Reis.

23 abril, 2008

O que vai chegando........

[ o meu OBRIGADA! sincero! ]
esta doce doce dulce gota de água
desce ilesa de sal de mal e de torpor.
.
esta.
doce doce.
dulce dulce.
gota de água.
nome que tem é bem se dito
do sal ileso do torpor. do mal.
esta língua doce livre do sal de sal
tem nome de água
chama-se lágrima.
.
desce ao amar.

.
maria toscano, após ver «nas margens da poesia»
Coimbra. 22 Abril 2008

Postais da III Bienal de Silves




São 13 os postais que compõem esta colecção

22 abril, 2008

Postais da III Bienal de Silves








E a sequência de postais continua...