09 maio, 2008

"Um Monumento de Palavras" - Urbano Tavares Rodrigues

POETA DA PALAVRA VIDA

O que define um grande escritor, o que o torna singular, é a capacidade prospectiva de inscrever no imaginário dos seus contemporâneos, atmosferas de conteúdos metafóricos que os designa, irmana e identifica colectivamente. Urbano Tavares Rodrigues, como Saussure, ao abordar o sistema de signos que orientam as sociedades modernas, rejeitando os estereótipos, sabe ser possível enquadrar a denúncia dos universos conceptuais da burguesia, em valores abrangentes e perenes. Urbano, ao incluir, ao longo da sua já vasta e poliédrica obra, a denúncia do sistema capitalista - fazendo-o através dos mecanismos desconstrutores e críticos do marxismo - na estrutura da intriga, percorrendo as narrativas, com engenhoso processo distanciador, o fundo dos relacionamentos humanos, seus êxtases e declínios, atinge, pela subtil lucidez da sua arte de contar, um claro e contextualizado discurso clássico e universalista.
Urbano, nunca perdeu, ao longo de mais de cinco décadas de escrita, a trajectória interventiva, o olhar sereno e atento ao real, eivado de uma visualidade poética que a sua obra inscreve, na verosimilhança dos sintagmas que ampliam a subjectividade prosódica, na acepção que Todorov definiu em "Poétique de la Prose".
Com uma obra que na ficção atinge, com Os Cadernos Secretos do Prior do Crato, 42 títulos (caso raro na nossa actual literatura), Urbano ainda consegue o prodígio de nos surpreender, de nos manter suspensos da tessitura ínfima com que encena e modela a arquitectura romanesca, presos à essência de uma fala que percorre o nosso mais íntimo estremecimento, nos deslumbra e seduz mesmo quando traça os contornos da farsa, das máscaras e da cupidez, que atravessam muitos dos seus textos.
Quando em 1952 João Gaspar Simões se referiu ao livro A Porta dos Limites, de Urbano Tavares Rodrigues, então um jovem escritor a estrear-se, invadindo de pleno direito um espaço dominado pela inquestionável influência do neo-realismo, fê-lo detectando já, nesse livro inicial, alguns dos premonitórios sinais que fariam o universo central das preocupações estéticas e sociais do autor de Estrada de Morrer.
Embora a análise à novela A Porta dos Limites denuncie, por parte de Gaspar Simões, alguma ligeireza analítica na descodificação dos signos que a influência do existencialismo nela imprimira e dos esboços diegéticos do nouveau roman, tal como foi incapaz de apreender a complexidade metafórica que esse texto já anunciava, não deixou, no entanto, de apontar a esse livro de estreia o "relevo, a nitidez, com pormenor e força, que se reflectiam nos contos e novelas de Urbano Tavares Rodrigues as figuras, os casos, as circunstâncias, as paisagens que a fina superfície do seu espelho interior recolheu.
Com um geral panorama editorial que se aproxima a passos largos do desnorte e do bacoco, com a escrita de supermercado a invadir um território onde deveria existir alguma lisura, justo é salientar a corajosa iniciativa da editora D. Quixote ao propor-se, em dez volumes, publicar a obra ficcional de Urbano Tavares Rodrigues. As Obras Completas, iniciada com a publicação dos seus escritos franceses (A Porta dos Limites, Vida Perigosa e A Noite Roxa), incluirá, no último volume previsto 1 texto ainda inédito mas cuja publicação se anuncia para breve: A Última Colina.
As short stories de A Porta dos Limites, atravessam as peculiares premissas do universo ficcional de Urbano. Adivinhamos-lhe já o verbo rasante, a clareza discursiva, os ritmos, o instinto e a capacidade efabulatória, uma durée bergsoniana, na exposição do psíquico e do social, que atravessará toda a sua obra posterior. Há nestas estórias breves uma técnica discursiva próxima da clivagem morfo-sintáctica que encontramos, por exemplo, em Michel Butor.
Urbano analisa esse esquivo "céu da burguesia", de que fala Barthes, para nos revelar o lodo da estruturante ideológica que o sustém, vocacionada para a alienação e para a usura. Concomitantemente, o autor vai definindo os mecanismos que criam as dependências e vão subvertendo o tecido social das sociedades contemporâneas, sem panegíricos morais nem redundâncias espúrias. Urbano caminha, com alguns dos seus personagens, "de mãos dadas com o perigo", como escreveu Sophia, inscrevendo texto a texto, com a lâmina na boca, a coerência de um percurso, a afirmação sem mácula de um ideário generoso e solidário: dialéctico e brechtiano apelo à razão e à justiça. Os três títulos iniciais deste singular percurso enunciam já a obra maior, esse espólio canonizador que se concretiza com Bastardos do Sol, Imitação da Felicidade, A Vaga de Calor e Nunca Diremos Quem Sois.
Os três primeiros volumes de uma obra que se estende pela segunda metade do século XX e entra pujante de criatividade e inventiva, com o mesmo fulgor iniciático, pelos primeiros anos deste século, detectamos já, como bem o assinalou Eugénio Lisboa no prefácio que acompanha o 1º. Volume das Obras Completas, "uma ficção de cariz realista, mas de um realismo singular, rico, complexo, às vezes ameaçador, que intersecta o mítico, o simbólico, o metafórico, e não ilude os aspectos mais violentamente sórdidos da condição humana."
Incluído na novela Escombros que abre Noite Roxa, um poema de Rilke transporta o sensível, o lírico e o subtil erudito que subjaz a obra ficcional de Urbano:

Tudo será de novo grande e majestoso,
as terras serão simples e as águas murmurantes,
pequenas as barreiras e as árvores gigantes;
múltiplo e forte, viverá nos vales
um povo de pastores e camponeses.
E não mais as igrejas guardarão
Deus Nosso Senhor como um fugitivo,
chorando como um ser ferido à traição.
E aos desconhecidos que baterem às portas
abrir-se-ão casas acolhedoras,
e todos nós e os nossos actos respiraremos a oferenda.

Encontramos este olhar atento e crítico, contido e rememorativo, com laivos de deslumbre, em alguns dos poemas que Urbano escreveu para Rostos da Índia, obra por onde o autor espraia essa entrega fugaz e clamorosa dos fulgores do olhar, inscrevendo com subtileza as sensações que a paisagem, as gentes e a vida nele denunciam: Urbano é aqui, desassombradamente, o poeta dos quotidianos sofridos, o poeta solidário a quem a vida, o seu lado injusto, sórdido e cinzento, profundamente dói.
Há, paradoxalmente, no desencanto mordaz (tínhamos um país sombrio e de tempo suspenso) que atravessa algumas novelas de Vida Perigosa e A Noite Roxa, um substantivo optimismo, uma certeza chã no património moral da humanidade; a busca de um justo sentido para a vida.
Pela pele e osso destes textos anda a nossa história recente e muito do nosso imaginário colectivo; na serena lucidez da fala que diz os dias amargos, desoculta os signos; nos íntimos rumores das paisagens que nos habitam e indicam os caminhos matriciais da nossa luta e identidade. O autor dá-se inteiro, arrisca a pele, por isso a sua escrita é respirável, fecunda, ao rés da vida, prenhe de angústias nossas, das nossas mais substantivas perplexidades, a construir-se em permanente labor sobre os apetrechos do real, da memória e do vivido.
A escrita de Urbano Tavares Rodrigues patente nestes três primeiros títulos é, assim, espelho poliédrico que nos reflecte, reflectindo igualmente as paisagens e as vivências que interiormente recolheu, de Paris a Florença, de Lisboa à Praia das Maçãs, de Marselha, à Índia, com paragem demorada pelas planuras dos afectos do seu berço alentejano, constituindo um monumento de palavras, para citar um belo e profético verso de David Mourão-Ferreira, que perante a espessura plural desta escrita, que percorre as texturas territoriais do poético, ganha pleno sentido. Como referiu José Manuel Mendes, a obra de Urbano, que ao longo de meio século se afirma, na sua variedade temática, genealógica e formal, é um momento peculiar da literatura portuguesa.

DENÚCIA E ABJECÇÃO EM "NUNCA DIREMOS QUEM SOIS" E "O ETERNO EFÉMERO"

Após o fulgor inicial a escrita de Urbano sofreu um natural despojamento formal, outra capacidade expressiva, uma fundura lexical que derivam do fascínio que o autor sempre teve pelas palavras e que atravessa a sua escrita de uma capacidade de renovação contínua, impregnada de rarefacção lírica transversal, de tocante sensualidade, imbuída desse poder envolve e rítmico das palavras, que só encontra referentes em alguns poemas de Eugénio de Andrade ou de Mourão-Ferreira. Nenhum dos nossos escritores contemporâneos escreve o corpo feminino, partindo deslumbrado como um adolescente em busca das suas mais secretas vibrações, com desenvoltura e sensibilidade, como Urbano o faz. Mesmo quando narra o sórdido, como acontece quando Mayer-Ferreira, personagem central de Nunca Diremos Quem Sois, macula o corpo de Liriana, o autor permanece fascinado por esse corpo em processo de devassa, olhando-o com subtil arrebatamento, descrevendo-o belo e sedutor mesmo quando ultrajado. Ou seja, ao contrário de Mayer-Ferreira que entende a mulher como efemina, apenas objecto submisso do prazer, Urbano ama as mulheres e porque as ama extasia-se perante a beleza de Liriana e de Carla, humanizando-as. Raramente a exaltação do corpo feminino foi tão apaixonadamente assumida, tão sensitiva e transparente, como nos textos de Urbano, exibindo um corpus discursivo onde coabitam a plasticidade serena de uma Vénus de Giorgione com a exuberância dos nus de Matisse.
Se o seu livro de estreia já inscrevia os paradigmas de uma obra que se ampliaria e tornaria respeitada e influente, Nunca Diremos Quem Sois, constitui-se síntese feliz dessa obra, inscrevendo as cambiantes matriciais que percorrem a sua ficção. Uma escrita mais plana, de uma certeira crueldade, sem contemplações nem maniqueísmos, a um tempo envolvente e dúctil, a ungir-se sóbria de processos sincréticos, de uma causticidade inesperada, um onirismo de desenho subtil a servir a análise crítica de uma realidade sinistra e abjecta, as mãos a penetrarem, desprotegidas, a lama dos dias. Talvez de forma mais clara do que em títulos próximos deste Nunca Diremos, Urbano se sinta, pela avassaladora urgência da denúncia dos constrangimentos que informam os processos sociais, um autor criticamente comprometido com o pulsar do seu tempo, entendendo a premência da solidariedade com as lutas de quantos se vêem acossados pelas complexas derivas que o habitam e expresse o estupor com uma mordacidade só raramente detectável em textos anteriores.
Nunca Diremos Quem Sois é uma parábola do nosso tempo. Das inquietudes, dos medos, das incertezas, mas igualmente dos ténues sinais que vão fragmentando a esperança pelas esquinas deste nosso conturbado mundo. Se este romance nos fala de um universo concentracionário, espaço-limite de uma cidadela murada e vigiada, uma estância de desbragado luxo, num Algarve quase inacessível, onde passam férias os ricos e poderosos, tal não será impeditivo que os excluídos de todas as Alvuras da terra, os feios, porcos e maus que enxameiam os monturos e cercam as fortalezas milionárias, lhe tomem as ameias e lhe corroam os alicerces. Já Camus nos alertara para a impossibilidade da fuga: a realidade, em sua permanente transmutação, é sempre mais poderosa do que os muros que supostamente protegem todos quantos dela se pretendam isolar.
Em A Peste, de Camus, o padre Paneloux evoca o bispo Belzunce durante a peste de Marselha. Lembra que o bispo se encerrou na sua casa, que mandou murar. Mas o povo cercou-lha de cadáveres para o infectar e até lhe atiraram corpos por cima dos muros, para o fazer morrer com mais certeza. Assim o bispo, (...) tinha julgado isolar-se do mundo da morte e os mortos caíam-lhe do céu sobre a cabeça. (1)
O Algarve que este romance denuncia, deixou de ser o Algarve rural, o branco do casario e das amendoeiras em flor com a moldura do vermelho da terra fossilizada das arribas, com um mar sereno e azul ao fundo, que Urbano desvendara em percurso sensitivo e cúmplice pela obra de Manuel Teixeira Gomes.
A Cidadela de Alvura, é o istmo murado de um paraíso algarvio a perder-se entre o mar, a usura e uma desolada paisagem de cimento, microcosmos de um capitalismo que exorbita e onde tudo cabe: o medo e o prazer, o luxo e o desbragamento, a abjecção e os pesadelos - dos traficantes de droga aos especuladores bolsistas; das máfias de leste aos broncos e violentos milionários americanos, dos sabujos absolutos aos oportunistas que espreitam o cadinho de céu que lhes permita alcançar o patamar dos eleitos mesmo que para tanto tenham de vender a alma, o corpo e os farrapos de uma dissoluta dignidade, sabendo que a dignidade não é, em si, valor mensurável. Alvura é, assim, prolífera exibição do caos.
É neste espaço-limite, nesta atmosfera de degenerescência, de dissolução de valores tão cara a Urbano, nesta antecâmara de todos os sobressaltos civilizacionais contemporâneos, que Liriana irá, por 36 horas, deixar que o seu corpo seja devassado pelo frio e calculista Mayer-Ferreira, caricatura do lado mais sórdido da selva neoliberal; que Artur permite e promove o ultraje supremo por um prato de lentilhas; que Carla se deixará arrastar de humilhação em humilhação tentando em desespero suspender, num incerto futuro, refém da miríade de uma boutique de luxo que lhe permita ascender ao mundo virtual que lhe acenam as revistas que não prestam, como dizia o Almada; onde os títeres menores se pavoneiam, como a Condessa Margarida de Lorena, exibindo o tédio, a angústia e a decadência pelas estâncias da fama e da fortuna; e as personagens que Urbano trata com inquestionável simpatia: o padre Benito, paradoxalmente a personagem mais sedutora deste romance, lúcido na sua equidistante relação com deus, perdido nos labirintos ambíguos do desejo ambivalente, contudo honesto no assumir os apelos da carne, que é fraca como sabemos, e Gonçalo, o empregado de hotel, apegado às suas convicções adolescentes, um marxista experimentando as angústias de um universo de onde as referencias físico/ideológicas que o sustentavam caíram com o muro de Berlim, vivendo no centro do caos e da opulência, no covil do inimigo, mas sabendo, lucidamente, que Os miseráveis da terra já não podem suplicar: ninguém os ouve. Terão de conquistar pela força o direito a serem homens. (2)
As personagens não existem fora da linguagem, e esta não será alheia à ideologia que a suporta, e de alguns dos estereótipos que Urbano caracteriza com profunda acuidade. As personagens de Nunca Diremos Quem Sois agem e assumem o seu hibridismo enquanto criação literária que tem funções determinadas e determinantes no evoluir da narrativa. São seres de papel, como designou José Martins Garcia, mas ultrapassando pela dinâmica da metáfora política essa redutora condição. As personagens agem servindo uma ideia geral: a da renegação do caos e dos perigos do neoliberalismo - toda a narrativa, lucidamente, se organiza em torno dessa denúncia central. Assim, a caracterização de algumas personagens de Nunca Diremos Quem Sois evolui do estereótipo até à densidade psicológica, cumulativamente com a estrutura evolutiva na consolidação orgânica que determina a narrativa. É assim que em Gonçalo se detecta, a partir de um discurso que balança entre a dúvida, a angústia sartreana e uma visão dialéctica e crítica do real, o autodiegético desta fala - ou seja, através de Gonçalo, Urbano projecta-se na ficção enquanto autor que politicamente se pensa e procura agir utilizando os intrínsecos mecanismos ficcionais. O autor esconde-se e revela-se através dos seus personagens, como acontecia, embora de forma mais impressiva, em As Máscaras Finais, disseminando-se em cúmulo diegético ao longo das ficções que constrói num permanente jogo de cabra cega. O realismo poético de Urbano, credibiliza e permite esta explanação transfigurada pelas máscaras e sua contínua revelação.
Nunca Diremos Quem Sois, consolida a viragem na obra de Urbano Tavares Rodrigues, que A Vaga de Calor e Filipa Nesse Dia já anunciavam. Nele o autor entreabre ao fantástico, com os pesadelos povoados de misticismos, sapos gigantes que esventram os super-protegidos veraneantes de Alvura; ao policial, com crimes, roubos de jóias, estranhos incêndios - ameaça avançar pelo óbvio, tecer o fio mais elementar da efabulação, mas trai-nos as expectativas e segue por caminhos mais fecundos tolhendo os nossos mais incontroláveis ímpetos voyeristas, recomeçando a narrativa como se a areia lançada à engrenagem ficcional não perturbasse o seu natural percurso.
Os assassínios em série aparecem já em O Supremo Interdito, o seu livro anterior, no qual o serial killer utiliza o mesmo processo de esventramento das vítimas. Só que em Nunca Diremos Quem Sois, Urbano apenas enuncia essas mortes, que surgem como elementos perturbadores, ferindo a aparente inexpugnabilidade de Alvura, espalhando o medo e a desordem junto de um punhado de eleitos que se julgam inatingíveis e imunes por detrás dos muros da Cidadela. São os mitos e os medos do nosso tempo a desabarem fantasmagóricos sobre a face mais desumana dos pilares (aqui reduzidos à premência, ao osso dos estereótipos) do neoliberalismo. Há perigos que espreitam os paraísos do outro lado dos muros - tal como os cadáveres que o povo de Marselha atirou sobre as muralhas do bispo Belzunce, ou os garotos negros e famintos, transpondo o arame farpado para dilacerarem, na voragem da fome, o corpo branco do rico e belo Sebastian de Bruscamente No Verão Passado, de Tennessee Williams. Os pobres já deixaram de ter medo e estão cansados de tanta submissão e ultraje, até porque, como descobre Artur na incursão que faz ao monturo que cerca a Cidadela: o deus da misericórdia que consolava os avós destes homens morreu de vez. (3) E é esse desamparo, a descoberta do homem só perante os seus medos e fantasmas existenciais, desapossado de transcendência religiosa, que conduzirá à inevitável revolta que abrirá novos rumos de justiça e de esperança. Nietzsche revisto e actualizado sob a paleta crítica do marxismo.
Multiplicando os efeitos do real, Urbano fala-nos neste romance da degenerescência que tomou de assalto este nosso tempo, das existências que circundam a densidade do humano, que não se consubstancia num determinismo à Laplace, do caos que se inculca nas relações económicas, denunciando o lado mais abjecto da globalização capitalista, não apenas nas perversões especulativas, mas enquanto gerador de seres hediondos, sevandijas, manipuladores de almas e de corpos; Faustos hodiernos, protagonistas de uma absurda e dissoluta regressão civilizacional que o capitalismo, em seu estágio actual, tende a representar. Nunca Diremos Quem Sois, encena, de forma poderosa e arrebatada, o lado mais obscuro e perturbador dessa nova barbárie a instalar-se, indolor, nos fundamentos comportamentais da modernidade.
Urbano Tavares Rodrigues é um exímio contador de estórias, um autor em que o gozo pelo narrar, pela efabulação é evidente e tocante. Daí a sua escrita ser torrencial, ágil, poderosa de ressonâncias semânticas, vibrátil e inquestionavelmente do território do poético, espaço onde a vida age como afirmação e identidade colectiva. Se a inscrevemos nos alvores do nouveau roman, se nessa referência iniciática radicou a vitalidade dos seus pressupostos orgânicos, há muito que esta escrita se emancipou, ganhou estatuto, matricialidade, dos temas e objectos que percorrem o seu corpus e a tornam única, indissociável do seu autor, sabendo nós, com Herberto Hélder, que o autor reside no estilo - que esta fala exibe imperecível impressão digital. Que esse verbo é, por vezes, excessivo, todos o sabemos, mas a literatura ou se faz sem rede, com a coragem da inventiva permanente, da experiência vertida febril em cada página, sobre o risco, ou se transforma num produto híbrido, inócuo, de laboratório e feito para durar o tempo breve das modas de passagem. A literatura ou é um salto sem corda sobre um vale de abutres ou dorme no sofá a morte antecipada.
Com Urbano, e outros autores seus contemporâneos como Abelaira, Cardoso Pires, Carlos de Oliveira, David Mourão-Ferreira, Natália Correia, habituamo-nos a repensar o país, a sabê-lo possível de esperança, com outras coordenadas que não a estreiteza lúgubre das discursatas salazarentas, o cinzento dos dias vigiados, a fome nos campos do Alentejo, o destino de uma guerra em África ou o exílio forçado em terras de França; perscrutámos o outro lado do espelho, aprendemos, sobretudo, a descodificar os mecanismos do cerco e a resistir: a estabelecer, através do olhar atento do escritor, uma relação existencial, no sentido sartreano, com o mundo, com os afectos e com a literatura.
Sem a torrente ficcional de Urbano, que atravessa, sem cedências, o mais obscuro e persecutório período do fascismo luso, a nossa capacidade de resistir (e sobretudo, de compreender, porque ninguém resiste ao absurdo se lhe não entender os mecanismos) estaria, certamente, mais fragilizada e sem os apetrechos necessários para a permanência nas trincheiras - mesmo que essas trincheiras tenham sido urdidas com a frágil e volátil argamassa dos sonhos, das utopias e das palavras sussurradas à mesa dos cafés.
Hoje, 34 anos volvidos sobre a madrugada que sonhámos, quando aparentemente somos um país europeu, embora pouco entusiasmados com a evidência dos nossos limites geográficos e sentindo no corpo os lanhos de sistemática subalternização cultural (e a Europa aceita-nos como um imponderável, como tia velha e gaiteira que é preciso manter a recato, em redil vigiado, não vá dar-lhe outra vez na tonta das farras revolucionárias e espalhar a peste e o desassossego pelas suas já desarrumadas noites) os senhores que se vão revezando nas cadeiras do poder, têm vindo meticulosa e paulatinamente a criar novas formas de cerco e de opressão, indolores é certo e, por enquanto, apenas sugeridas, mas já evidentes em alguns preocupantes sinais, muito mais eficazes do que as usadas pelos aprendizes de feiticeiro seus antepassados. As novas tecnologias, se servem para libertar o homem, para lhe facilitar as tarefas quotidianas, para o ligar ao mundo, servem, igualmente, para o vigiar, para o controlar, para o submeter. As novas regras, a nova sujeição planetária, está ao alcance de uma simples ligação à Internet. Esse novo e pouco admirável mundo, que Orewell já adivinhava, está agora disponível e à mão de todos os tiranos, tiranetes e sucedâneos, estejam eles no Pentágono, em Bruxelas, ou nos alcatifados bunkers modernos da banca e das multinacionais.
É deste universo subterrâneo, deste húmus, desta tentacular estratégia de opressão, (qual cibernético e global ovo de serpente, despojado da subtileza metafórica bergmaniana) que Urbano Tavares Rodrigues nos fala, desde Deriva, passando por esse grito de revolta e indignação, certeiro e corajoso de denúncia que é God Bless América?, pungente denúncia que o sarcasmo do título amplia e clarifica.
Urbano não é apenas um escultor da língua. O seu verbo, se estua ao rés da fala percepcionável da burguesia e da intelectualidade citadina, ou na dolência redonda e cantável do seu Alentejo natal, transmuda a palavra para os recônditos universos do belo e do poético criando a essencialidade dos sintagmas que o percorre. É, igualmente, um descritor do corpo feminino, da sedução, do amor e dos afectos, dos encontros e desencontros dos amantes. No romance O Eterno Efémero, Urbano atinge a plenitude dessa escrita; o verbo maduro, impressivo, penetrando a essência da língua - uma identidade rara e sem mácula a construir-se na mais sedutora arte de urdir as palavras.
O erotismo, segundo George Bataille, é tudo quanto na consciência dos homens os leva a pôr o seu ser e o mundo em questão: logo, o libertino tende à subversão, a questionar os dogmas que condicionam a sua relação com o corpo e pretendem limitar o pleno exercício da sua sexualidade. Assim, o libertino atentará, no limite, contra a própria estrutura política e moral das sociedades burguesas.
O libertino, pelo simples facto de o ser, encerra em si a capacidade rara de poder ajudar o homem comum a compreender-se melhor, a entender os mecanismos que amiúde o conduzem ao desespero e ao temor sexuais: ajuda-o a libertar-se dos seus fantasmas e medos ocultos, a realizar-se com o Outro, em função do Outro, a abrir-se, a expor-se - liberdade e auto-punição que só a prática sexual permite e amplia - daí o perigo.
O Eterno Efémero é um policial alheio aos códigos do género. O próprio inspector confessa que "afinal se preocupa menos em descobrir quem matou" do que em compreender psicologicamente as quatro mulheres que se encontram sob suspeita. As suas introspecções funcionam como espelho rememorativo do leitor: somos, assim, convocados a um permanente "pôr em causa" à medida que o inquérito/interrogatório se nos vai revelando - estamos no sofá do psiquiatra, frente ao nosso espelho.
O Eterno Efémero organiza-se em torno de um crime: a morte de um libertino dos nossos dias. Um libertino que utiliza a Internet para estabelecer os seus encontros, as suas cumplicidades, o seu domínio. Este texto de Urbano, é um longo interrogatório, durante o qual o inspector Moura Prata vai descobrindo/revelando as personalidades e as motivações das quatro mulheres que amaram e se relacionaram sexualmente com Miguel Ruiz Fernandes e com o qual partilharam excessos, experiências, descidas aos infernos. Os seus depoimentos definem o perfil de Miguel, os seus gostos sexuais, a luxúria, os rituais de sedução. Há algo de perturbador nesta personalidade que nos é revelada: trata-se de um sevandija, uma nova estirpe de opressão que por dentro, a nível dos comportamentos dissolutos e da sedução que os seus protagonistas exercem uns sobre os outros (o sexo é uma forma de poder), vai corroendo, corrompendo os frágeis linimentos sociais que sustentam as democracias ocidentais. Miguel Ruiz é, assim, um personagem que o autor, com detectável mordacidade, vai construindo/desconstruindo ao longo do romance, numa estratégia de jogo cúmplice com o leitor, jogo que apenas se desfaz (?) com a revelação do seu auto-retrato, que o computador, máquina de inscrever todas as ficções e as verdades indizíveis, registou em sua larga e disponível memória virtual.
Quem era afinal Miguel Ruiz? Um utilizador de sofismas, um provocador, um frio e metódico estratega da submissão e do ultraje, um libertino hedonista no sentido assumido por Roger Vailland ?
Há, na obra de Urbano, uma matriz circular: o corpo, o social, o declinar das paixões, os afectos. Não existe, na nossa actual literatura, outra fala assim sagaz, mas sempre modulada, sensitiva e sedutora, capaz de nos dizer o delírio dos corpos num lírico que extrai das palavras o suco dos prodígios, e a impor, sem receios, a mais intransigente denúncia. Urbano é um mestre do erotismo, a inscrever, numa língua pouco moldável à sensualidade, a poética dos corpos, os arrebatamentos, as paixões loucas; mestre desse sussurro subterrâneo e visceral que vai destruindo/ diluindo as relações dos amantes até ao definhamento, como se a morte fosse o destino iniludível, não no sentido moral e aristotélico da tragédia, mas como corolário lógico dos excessos libertinos, como se os amantes soubessem, antecipadamente, que não há retorno desse chão de lava.
Há neste contar como que um retraimento, um imenso pudor mais do que despojamento - a tragédia (como neste O Eterno Efémero) a existir, estrangula os gritos, derrama-se por dentro. A escrita de Urbano radica num profundo conhecimento do real, das gentes, das ruas, dos lugares - do viver quotidiano de uma burguesia que chegou ao limite, que desce à abjecção, percorrendo confusa e perigosamente os labirintos da sua perplexidade. O autor dá-nos a ver, sem a ganga dos moralismos politicamente correctos, a angústia de uma civilização erigida pelo dinheiro e por excessos de representação - é o vazio existencial a tocar o fundo; uma classe que deixou de sonhar as utopias e tem o sexo como vertigem, fronteira última, e perversa, do humano. Uma tribo a esgotar-se nos delírios do corpo, a não conseguir encontrar os trilhos de um regresso, sem mácula, aos referentes míticos e morais, de assumpção judaico/cristã, que a edifica. As máquinas, por mais sofisticadas, não são deuses e o homem estará irremediavelmente condenado à solidão - eis a suprema angústia do nosso tempo.
Como Sade em Os Cento e Vinte Dias de Sodoma, Urbano desenvolve em O Eterno Efémero os fundos apelos do Eros e da volúpia primordial e sabe, como Bataille, que "não existe proibição que não possa ser transgredida" - os frémitos da paixão são momentos únicos e irrepetíveis a esgotar até ao sufoco, quiçá, até à morte. Vivê-los e senti-los, nessa irracional plenitude suicidária, no descascar da pele até ao osso, não merece punição.
A grande literatura tenta a ambição suprema de organizar o caos, mesmo quando, por vocação suicidária, lhe introduz os substantivos mecanismos da subversão: daí Urbano ter passado pela crítica teatral, nessa tentativa vã de manipular as sombras ou de eternizar o efémero.
Embora alguns dos seus textos enfermem do "excessivo literário", como denota Luís Carmelo, esse excesso é sempre de um lírico puríssimo a invadir a prosa, tomando-a por dentro, em seu lavrado chão, tornando-a luminosa, eivada de cambiantes sonoridades metafóricas como é perceptível na novela "Os Cadernos Secretos do Prior do Crato", que Urbano escreveu com nítido prazer cumplicitário, como quem parte à descoberta de um herói com o qual comunga afectos e referências - o sentido de "pátria", p. ex..
Neste texto breve, a língua do autor de Uma Pedrada no Charco deixa-se seduzir pelo poético, invadindo a prosa de um nítido fulgor, de um lírico descomplexadamente excessivo: Amina, mais nua do que a água sob o luar. Amina, como é negro o teu cabelo, onde a luz faz ninho. E, noutra passagem: As mãos que mo estendem são trigueiras e são rudes, mas a rapariga é toda ritmo e traz uma ave de seda amarrada ao pescoço. Mesmo ao narrar a fuga e o desastre, Urbano não deixa de insinuar o poético: Até o sol envelhecera com a evidência da nossa derrota. Mas é no terreno da descrição erótica que esta escrita ganha asas e se excede sem rebuços: Briana Pereira, tão bela e opulenta de carnes. Um verdadeiro manjar erótico.
Urbano afasta-se do neo-realismo (a que esteticamente nunca pertenceu), pela negação da positividade heróica, pela abjecção que define os seus personagens tentaculares, pelo experimentalismo formal e pela ausência de um sentido moral para a acção. O literário, em Urbano, sobreleva o factual geracional, o sentido de pertença a um modo de dizer e de pensar o real, a um universo onde os heróis são propriedade e substância da ideologia. Os seus heróis são frágeis, líricos, remotos ou exilados: Prior do Crato, Manuel Teixeira Gomes; e a heroicidade, a existir, só a espaços brevíssimos percorre o âmago da sua escrita. Daí "Os Cadernos Secretos do Prior do Crato" estar pejado de reflexões meta narrativas, num exercício claro de experimentação de signos que se inscreve na modernidade, como de resto a define Óscar Lopes: "A ficção contemporânea (…) está a seguir os mesmos trilhos da semântica formal linguística, que já deixou para trás a lógica da asserção simples temporalizada indiciada a uma multiplicidade de atitudes proporcionais".
Urbano Tavares Rodrigues é autor de uma extensa galeria de personagens, incontornáveis na história da literatura portuguesa contemporânea. Esse legado, que preenche grande parte dos nossos imaginários, foi concebido com uma azáfama de escriba sem cansaço ao longo de mais de 50 anos. Um espelho que nos reflecte sem embaciamentos detectáveis como por certo João Gaspar Simões, ao analisar o primeiro texto do então jovem autor, supôs, demiurgo, que acontecesse.
Uma obra que parte da vida, na sua mais premente fruição, mas conhecendo-lhe o precário, a lava e a abjecção, percorrendo seus lanhos, medos, êxtases, revoltas, para desconstruir o real e o inscrever nas urgências de uma escrita que não se alheia, que toma partido, que se assume instrumento da nossa consciência colectiva. Igualmente o amor, o sexo, o corpo e o desejo, caminham nestas páginas num fulgor de excessos e deslumbramento. Urbano é um poeta inscrevendo os signos da vida em sagaz e rememorativo cortejo lírico.

Bibliografia: de Urbano Tavares Rodrigues - A Porta dos Limites, Vida Perigosa, A Noite Roxa, Nunca Diremos Quem Sois, O Eterno Efémero, Rostos da Índia, Os Cadernos Secretos do Prior do Crato
- Óscar Lopes - Cifras do Tempo (ed. Caminho)
- 120 Dias de Sodoma - Marquês de Sade - Antígona
- O Pénis e a Desmoralização do Ocidente - Jean-Paul Aron e Roger Kempf - Vega
- Roland Barthes - Mitologias
- Camus - A Peste (Livros do Brasil)
- Todorov - Poétique de La Prose

DOMINGOS LOBO

Porque motivo continuam os homens a escrever Poesia?



1.A assistência.
Na primeira fila, o cineasta António Castanheira a focar as imagens na máquina. À sua esquerda, a mulher, Joana. À dirieta, Aura Simões.
Na fila atrás, da esquerda para a direita, os poetas Maria Estela Guedes, Rita Grácio [a caçula Ritinha], Porfírio Al Brandão e Graça Magalhães.
Visitem também - triplov [clique]
fotografias do jardineiro/filósofo [e muito mais] Augusto Mota.

08 maio, 2008

Nas margens da poesia

Pela poesia viva,a Maria Gabriela Rocha Martins, a toda equipa do extraordinário evento, a todos os poetas, eu deixo o meu abraço «nos caminhos da poesia »

cantam os pássaros
hinos às folhas
a sua madurez paciente
- ouve: e logo não colhas
os pássaros vivem no vento
num travo uno e quente
calam o calor do voo
não arrefecem mudos
nas casas abertas ou nas árvores fechadas
não permanecem cativos
amanhecem com frutos levados
no vento:
são a natureza viva
não derramada no tempo
nunca pintada nos quadros

José Ribeiro Marto

"Cartas Poéticas entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira"

O Presidente da Câmara Municipal de Faro e a Editora Labirinto têm a honra de convidar V. Excia para a sessão de lançamento da obra "Cartas Poéticas entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira", que será apresentada pelo Dr. Varela Pires.
O evento terá lugar no Auditório Municipal António Ramos Rosa, no próximo dia 21 de Maio, pelas 21h30.
Contamos com a sua presença!

Porfírio Al Brandão
[tradução de poesia surrealista francesa]
:
:
Eu rumo
Onde rumais vós
A parte nenhuma
Eu também
Então
Benjamin Péret
Le passager du transatlantique, 1921
Photobucket

Canto A Minha Mãe


Sento-me. Canto a minha mãe, viúva na progressão do vento
numa híbrida pancada.
Na voz inicial do grito, neste sol que desce,
se todo o pranto me contivesse
ó doce mãe, ó rosa que medita…
No que é antigo
tu vieste nomear o trigo!

mariagomes
maio.2008



AS VINDIMAS DA NOITE


As ancas, os ombros, as falésias flutuariam,
na noite onde se despenham as ravinas,
o corpo insidioso arrastando o mar, a boca,
os joelhos sonâmbulos,
os barcos que se cobrem de limos, grãos de areia,
esquecimento.

As harpas do horizonte ergueram-se já,
como árvores frondosas.
Nas colmeias de sangue, fervilha a rosa,
a corola verde, o tumultuoso nome,
o timbre infinito.

As ancas, os ombros, as falésias flutuariam,
na noite,
no vazio errante de um coração silábico
que se abre, suspenso,
por dentro das estrelas, à deriva.

No vazio leve das miragens, esconde-se,
nas vindimas da noite,
o corpo dormente da eternidade que rebenta,
silenciosa,
nos punhais ébrios de salsa, cinza,
aspergindo, na névoa minuciosa,
o ruir das telhas, entre ervas, dedos,

acariciados lentamente.


Maria do Sameiro Barroso ( Poema que dá título ao livro )

Poesia, Poeta, Poema - Marco Alexandre Rebelo

POESIA POEMA POETA


Poesia

Do grego ποιέω (poïesis), que traduzido significa fazer, criar alguma coisa, a poesia começa por ser a arte da criação de ritmos sonoros encantatórios através das palavras. O ponto de partida de toda a criação poética era a tensão entre o elemento dionisíaco e o elemento apolíneo. O elemento dionisíaco exprimia-se através da dor e do conflito surgidos do extasiante processo de esquecimento de si mesmo e consequente desaparecimento do subjectivo, procura a união com o Uno primordial para o reproduzir em música, já o elemento apolíneo, devido ao seu efeito de sono, trazia a esta música uma imagem onírica simbólica.

Homero, criador de poesia épica, é um poeta mais apolíneo, enquanto que Arquíloco, criador de poesia lírica, é um poeta mais dionisíaco. É essa a dualidade que os separa. A questão objectividade-subjectividade que, em função do épico e do lírico, pretende classificar Homero como poeta objectivo e Arquíloco como poeta subjectivo, é uma falsa questão porque se o outro ou os outros e as suas acções são o objecto do sujeito épico, na lírica grega, o eu é objecto do sujeito lírico, com os seus pensamentos, sentimentos e acções. A poesia é sempre objectiva. Criar alguma coisa, fazer, tornar algo em poesia obriga sempre à libertação do eu, à superação do eu. O sujeito épico supera-se a si mesmo realizando uma viagem pelo universal expressa de forma a criar intimidade. Já a auto-superação do sujeito lírico é feita numa viagem ao mais íntimo de si mesmo expressa de forma a que o mais íntimo seja também o mais universal.

Do atrito apolíneo-dionisíaco, presente ainda em Horácio (para quem a arte poética era deleite, comoção e fingimento), a poesia vai evoluir para uma forma de conhecimento do mundo, do homem e do homem perante o mundo — a poesia torna-se potência reveladora deste mundo e criadora de um outro. Mas ela é também um jogo, um trabalho ou, noutros casos, uma actividade ascética onde, junto com a alegria, tédio, desespero e angústia aparecem como alimento e combustível. Por isso se diz e se pode de facto dizer que a poesia «é filha do acaso, fruto do cálculo» e que isola, une, salva, abandona, nega a história, faz a história.

Poema

Nem o verso, nem as leis da métrica ou do ritmo conseguem definir o poema. Semanticamente, poema é das palavras mais instáveis do dicionário. Muitos tratados latinos são escritos em verso e obedecem às leis da métrica, apesar disso seria preciso muita ignorância ou atrevimento para considerar cada um deles como um poema. Prova de muito menos atrevimento e ignorância seria, apesar de escrito em prosa e sem seguir regularmente qualquer lei métrica, chamar poema ao Satyricon de Petrónio, pois prosa não se opõe nem a poesia, nem a poema. A oposição é entre verso, que etimologicamente significa volta, curva, mudança de linha e prosa, que, por sua vez, significa “em linha recta”. O “Poema em linha recta” de Pessoa é escrito em verso mas, nele, linha recta é uma metonímia de prosa. Prosa entendida à luz da época contemporânea que viu a consagração do romance como forma literária, ou seja, prosa entendida como o lugar onde se trata dos temas da porrada, da vileza, da cobardia, das criadas de hotel, das vergonhas financeiras e por aí fora, sempre em linha recta, por oposição à poesia que passou a ser quase como um lugar reservado aos temas do ideal, do divino, dos actos nobres e elevados, dos semi-deuses e dos príncipes. Isto quando basta uma leve leitura para ver que os temas da porrada, da vileza, da cobardia não eram alheios aos poemas de Homero. Sempre que há um movimento literário, metaliterário ou extraliterário que ameaça fixar o poema na lei de um género ou de uma forma que o defina, há também um poeta a mostrar que o poema só pode ser indefinido pois, na sua indefinição, o poema é por essência o lugar de encontro da poesia com o poeta. Lugar onde toda e qualquer forma, aparentemente fixa e uniforme, é constantemente deformada, reformada, transformada.

Poeta

Transformador, reformador, deformador e, por isso, um fingidor… que finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Definindo e afirmando o poeta como fingidor, Pessoa objectiva algo presente, por exemplo, em Arquíloco, Horácio, Catulo, Virgílio, Shakespeare e Hölderlin — a arte de fingere no sentido que foi usado por Horácio na Arte Poética, sentido que vai desde formar e representar até modelar, esculpir, criar, compor, imaginar, forjar e fingir… De uma ou de outra forma, todos os que são poetas fingem por completo. Fingidores de si, fingidores do outro e fingidores do mundo. Fingidores do humano e fingidores do divino. E é ao fingirem que mais se aproximam dos atributos conotados aos deuses. Mas os poetas não são divinos, muito menos são humanos. Nem humanos, nem divinos. Por isso, nada pior quando um poeta tenta ou ser humano ou assumir-se como divino.

Do mesmo modo, o maior atentado contemporâneo à poesia é querer torná-la humana, ou seja, querer torná-la numa forma de comunicação, forma que encontra uma das melhores definições na célebre fórmula: «Não podemos não comunicar». Mas esta fórmula, como todas as fórmulas e todas as formas, só vale para o que é humano, estritamente humano, por isso não pode valer para a arte literária que, como todas as artes, participa do divino. Outra maneira (mais subtil) de atentar contra a poesia, é pretender torná-la somente divina, ao afastá-la da Terra e colar-lhe o rótulo de coisa incompreendida. A poesia poderá quando muito ser incompreensível, já que exige uma predisposição para sair do caminho horizontal de compreensão e entrar num caminho de compreensão vertical. O caminho horizontal de compreensão é próprio da comunicação, actividade humana que pode ser vista como um movimento pragmático da linguagem e que, assim, exige um nivelamento de forma a pôr em comum ideias e conceitos. Já o caminho vertical de compreensão é uma exigência da expressão, que, opondo-se à comunicação, busca através da linguagem um movimento de ascensão e de permanente desnivelamento que cria ideias, estéticas e conceitos novos. Subindo por este caminho, é possível que nunca se chegue à compreensão da poesia, pois talvez a poesia seja mesmo coisa incompreensível. Mas decretar incompreendida uma obra poética é nunca abandonar o caminho horizontal, é nunca aventurar-se no caminho vertical.

Na poesia que procura exprimir e não comunicar, enquanto as palavras participam do humano, o silêncio participa do divino. A obra de um poeta, o poema contínuo, constrói-se na tensão entre as palavras que organizam o discurso e o silêncio que o provoca e prolonga. O que é próprio dos poetas, o que os afasta do que é humano, não é a forma de dominar as palavras, mas sim o meio de retirar o indizível ao seu silêncio. Os poetas aproximam-se e afastam-se entre si pela forma que têm de procurar, dominar e revelar esteticamente o silêncio que lhes é próprio. Cada silêncio revelado por um poeta traz consigo um novo silêncio por revelar. Sem esta renovação constante do silêncio, a arte literária deixaria de ser possível.

Alheia isto, a crítica literária, salvo raras excepções, tem tido como uma das maiores preocupações convencer o público da divindade dos poetas, talvez com o intuito de ver as suas obras serem cultivadas tal como se cultivava a suposta palavra de Deus nos templos e igrejas. Foi assim durante séculos. Mas, ultimamente, com a transformação do público leitor em público consumidor, a tendência é convencer o público de que os poetas são tão humanos quanto ele. E querem-se poetas humanos ao ponto de abdicarem da procura do silêncio para poderem satisfazer os gostos de quem se habituou a não exigir mais do que aquilo que lhe é oferecido pela comunicação e por todos os seus meios. Cultivam-se as palavras sem silêncio destes “poetas” tal como se cultivam as palavras sonoras dos grandes magnatas e políticos que «subiram a pulso na vida», entenda-se aqui “vida” apenas como o lugar onde se dá a circulação de bens e mercadorias do mercado capital. E para o bem-estar da “vida”, quer dizer, para a boa circulação de bens e mercadorias, é conveniente que os livros se apresentem como obras completas, comunicativas e de compreensão totalmente horizontal. Depois cabe à indústria publicitária aliciar consumidores com os habituais slogans do “inovador”, do “revolucionário”, do “marcante”, do “clássico contemporâneo”, do “absolutamente original”. Em todos os meios de comunicação, durante certo tempo, um desses livros será “incontornável”. Talvez o difícil seja explicar e perceber como é que ainda nenhuma organização de consumidores se lembrou de exigir que estes livros “incontornáveis” passem a vir acompanhados de um prazo de validade. Prazo que deveria corresponder ao tempo que leva o incompletar dessas obras escritas por quem silencia o silêncio embelezando aqui e ali a língua. A verdade é que, nascendo já completos, esses livros “incontornáveis” são obras que normalmente se completam ao fim de um ou dois anos, por vezes vinte ou trinta, conforme o tempo que demoram a calar-se as vozes humanas. Quando se calam estas vozes, percebe-se que o silêncio não se renovou com essas obras, mas sim com a obra dos poetas que procuraram e conseguiram escrever sem silenciar totalmente o silêncio. Poetas cuja obra vai ficando a cada dia mais incompleta, pois está constantemente a ser renovada por aqueles que se aventuram no caminho vertical da apreensão estética.

Possivelmente a pensar nestes poetas, Fernando Pessoa, ao construir o silêncio de Ricardo Reis através de um apontamento de Álvaro de Campos, recorda a hipótese intrigante de que talvez não possa haver poetas neste mundo fora do silêncio dos seus corações. Aceitando a hipótese, surgem outras duas hipóteses: uma é afirmar que ser integralmente poeta obriga a um compromisso total com o silêncio; a outra é perceber o que impede os poetas de existir fora do silêncio — perceber que o maior obstáculo à poesia é aquilo que silencia o silêncio poético: as palavras. As mesmas palavras que dão corpo ao grande veículo de comunicação quotidiana e instrumento lógico e ideológico da ordem social: a língua. Talvez a língua não permita que neste mundo haja poetas fora do silêncio dos seus corações, já que obedecer às normas e mecanismos que a regem é permanecer num horizonte lógico. Horizonte onde a arte literária é entendida apenas como um embelezamento da língua que não põe em causa a sua função pragmática. Acontece que este entendimento nega à arte aquilo que deveria ser a sua mais forte razão de existir: a expressão de um conhecimento estético que, pela sua raiz sensível, se opõe claramente ao conhecimento lógico, de raiz conceptual. Por isso, a viagem cujo horizonte não é lógico, mas sim estético, implica o desejo de destruição daquilo que sustenta o conhecimento conceptual, ou seja, implica querer destruir toda e qualquer função pragmática da língua. Despragmatizar totalmente a língua significa chegar ao silêncio, limiar de todo e qualquer horizonte estético. Assim, a poesia esteticamente emancipada procura encontrar e defender uma forma em que o silêncio fale apesar do ruído das palavras. Porque a vida não é, não poder ser, não pode passar a vir a ser a circulação de bens e mercadorias que a todo o momento o mercado quer impingir. Estão cá os poetas, os poemas e a poesia para recordar que viver é criar e defender uma forma própria.

Mas porquê e para quê defender uma forma própria? Porque só é poeta aquele que sabe que há algo mais importante do que ser conhecido ou ser reconhecido. Porque os poetas não são aqueles que vivem para ser conhecidos pelo público ou reconhecidos pelos seus pares, ou ambos. Porque mais importante que ser conhecido ou reconhecido é conhecer. Os poetas são aqueles que vivem para conhecer. Defender uma forma própria para conhecer e conhecer-se. Por isso, continuam vivos os poetas que, desde Homero, tiveram e têm ainda a coragem de conhecer o mundo encontrando e depois defendendo uma forma própria. Andam mortos os “poetas” que, desde os cafés aos parlamentos passando pelas universidades e outros meios de formação e informação de massas, apoiam, cultivam e alimentam a forma dos que controlam os mercados da comunicação com as suas “criações”, a sua escrita criativa, a sua produção fictícia, as suas traduções e críticas literárias humanas, demasiado humanas.

É lembrando e traduzindo os versos nem humanos nem divinos de um sempre vivo poeta francês que vou terminar:

Que ton vers soit la bonne aventure
Eparse au vent crispé du matin
Qui va fleurant la menthe et le thym...
Et tout le reste est littérature.

Que o teu verso seja a grande aventura
Solto ao vento fresco da manhã
Que vá florindo menta e hortelã…
E tudo o resto é literatura.

Bonne não é grande, Eparse não é Solto, crispé não é fresco, thym não é hortelã... mas, de resto, respeita totalmente a métrica e há somente uma diferença na acentuação de um dos versos. Parece “fácil” vendo apenas a conclusão e é “fácil” que tem de parecer. Mas nesse fácil está o trabalho todo que é tentar transformar para outra língua aqueles versos franceses de forma a ficarem o menos diminuídos possível com a transformação. Fácil seria fazer em linha recta onde o thym ficasse tomilho, o crispé ficasse crispado, o eparse ficasse esparso e o bonne ficasse boa. Mas boa não ficaria a tradução porque só transformando o boa em grande, o esparço em solto, o crispado em fresco e o tomilho em hortelã é que se começa la bonne aventure que é a Arte Poética.

Marco Alexandre Rebelo

Porque motivo continuam os homens a escrever Poesia? - 2ª Mesa Redonda

1. Paulo Penisga dando início aos trabalhos da segunda mesa. À direita, Maria Toscano e Graça Magalhães.

2. Eduardo Pitta no uso da palavra. À sua direita, Teresa Tudela.

3. Maria Toscano apresentando a sua comunicação. Graça Magalhães olha-a.

4. Maria Toscano à esquerda. Graça Magalhães à direita.

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No sábado, dia 26 de Abril, os Poetas, Eduardo Pitta, Graça Magalhães, José Ribeiro Marto, Maria Toscano, Rui Mendes e Teresa Tudela, moderados por Paulo Penisga, tentaram
responder ao repto lançado por Octávio Paz - "A Poesia está em toda a manifestação artística, transmite o sentimento de plenitude, e o poema pode ser apenas produto de um versejar".
fotografias do jardineiro/filósofo [e muito mais] Augusto Mota.

07 maio, 2008

Leo puxa Leo; Ferré puxa Ferré: «la Poésie est une fureur»

abraço! maria toscano

amo o coração (fragmento)

amo o coração que se sustém
contendo cosmos
inspira verbos longos
decassí
labios
intensa, intensa pulsação
impulso ou matriz. respirados.
amo o coração que se sustém
até que nos respira
cada lábio.
.
.
maria toscano, junho/2006

"As Vindimas da Noite", de Maria do Sameiro Barroso

O Director do Museu Nacional de Arqueologia e a Editora Labirinto têm a honra de convidar V. Excia para a sessão de lançamento da obra "As Vindimas da Noite" de Maria do Sameiro Barroso, no próximo dia 11 de maio, pelas 17h30, na Sala Oca do Museu.
A obra será apresentada pelo escritor e crítico literário Luís Filipe Pereira, autor do posfácio, culminando a sessão com a leitura de poemas pela actriz Isabel Wolmar.

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Nota de Imprensa
As Vindimas da Noite, a mais recente criação poética de Maria do Sameiro Barroso, que será lançada no dia 11 de Maio no Museu Nacional de Arqueologia com a chancela da Editora Labirinto, contando com apresentação de Luís Filipe Pereira (que fez o posfácio à obra), é um excelente livro de poesia que, eminentemente, fascina pelo seu sabor e pela sua magnífica poética, pelo seu maduro mosto e pela sua diagonal imagística semeada de socalcos nos recessos da noite que se faz manhã e se faz poesia nos raios e nas bagas de brisa percorrendo as musicais galerias dos versos. Trata-se de uma viagem poética pelos Meandros Translúcidos (título da autora, também com a chancela da Labirinto) da noite, como lugar mágico a que acede o corpo para que sobreviva o mistério, perdurando nas ânforas de estrofes abertas a variegados palimpsestos, da metamorfose do espaço e do tempo habituais. Trepanando a cartilagem dos poemas até à subterrânea arquitectura da claridade, frequentam As Vindimas da Noite os campos pludireccionais da memória. Esta é âncora e alavanca da voz polifónica de Maria do Sameiro Barroso, configurando, fundamente, a possibilidade da criação: o possível ébrio dos alquímicos instantes da obscura germinação dos primordiais vinhedos do mundo, em cuja sombra apetece pernoitar e cujas bagas - de brilho e de neblina, de sol semeado e de sol suspenso, de fogo e de cinza - apetece saborear no fluxo de uma leitura que transportará, no essencial, para um vislumbre de olorosas florações e de rumorosas figurações.
sentas-te onde chove
viajas pela
terrível frequência
das curvas

quem manda na casa
nas trepadeiras
a lembrarem nenúfares
noctívagos
estende-te um segredo
sobre
o estômago de um girassol

Graça Magalhães

A Palavra e o Tempo

“ Toute aube est mortelle. Je reviens
du noir pays au delà des songres. ”
Robert Bréchon.


“A poesia, em sentido geral, pode ser definida como «a expressão da imaginação» e é congénita do homem”, disse Shelley .
É possível que a poesia seja tão antiga como o homem. Chegaram até nós instrumentos musicais, flautas, trompas e instrumentos e percussão do Neolítico. Já foi mesmo levada a cabo uma reconstituição da música da Idade do Bronze (c. 1100-1300 a. C) por investigadores do Museu de Pré e Proto- História de Berlim, na qual foram tocadas trompas, utilizadas em cerimónias rituais . Trata-se de música de caça.
Do Período anterior, no Paleolítico, chegaram-nos imagens magníficas de pinturas rupestres.
A arte é congénita. Diríamos com Shelley. Sabemos que nessas grutas, as pinturas eram cenário de cerimónias religiosas, destinadas a propiciar a boa sorte na caça. O actor central era o sacerdote, o xamã.
O homem vivia numa simbiose mágica com o mundo e os seres superiores cuja protecção procurava invocar. Ele era o intérprete entre os deuses e os homens entre os deuses e os homens. É possível que as suas palavras mágicas fossem já poesia. É possível que os primeiros sacerdotes, que eram também curandeiros, fossem também os primeiros poetas.
Os primeiros registos escritos surgiram na Suméria. Nas tabuinhas de argila. Nelas foram gravadas os primeiros poemas que falam do nascimento do mundo e dos deuses, do casamento sagrado, simbólico da casamento entre o céu e a terra, a vida e a morte, e da união dos deuses e dos homens, em hinos que evocam a fertilidade:

«Campos férteis, campos divinos,
Os campos de Athiratu e Rhahmayyu,» .

O casamento de Dumuzi e a deusa Inana são cantados:

«Inana, com a ajuda de sua mãe,
banhou-se na água, ungiu-se com óleo doce,
decidida a colocar sobre si
o grande vestido real;
agarrou também os amuletos humanos e de animais,
enquanto colocava as pedras de lápis-lazuli
no pescoço
e segurava o seu cilindro na mão.
A jovem ficou à espera, —
Dumuzi abriu a porta,
e como uma centelha de luar ela acercou-se dele
para fora de casa.
Ele olhou-a, alegrou-se,
Tomou-a nos braços [e beijou-a] .
As placas fixam os ensinamentos dos deuses, inaugurando o progresso que trazem à humanidade. Na epopeia de Gilgamesh, este procura a planta da imortalidade:

«Gilgamesh, para onde corres?
A vida que persegues jamais encontrarás.
Quando os deuses criaram a humanidade,
foi a morte que deram aos humanos,
e a vida guardaram-na para si nas mãos » .

Também, na antiga Índia, cerca de 2500 a. C., os Ayurveda, são textos poético- religiosos, ditados aos homens pelos deuses. No antigo Egipto, os textos poéticos mais antigos, no final do Império Antigo, os Textos da Pirâmides são de carácter religioso. É possível, que, desde o Paleolítico, os homens e mulheres se conquistassem mutuamente, oferecendo flores ou dizendo poemas, mas não chegaram registos. Do Período Paleolítico, provém a cena mais antiga de coito . Do período Neolítico, da primeira metade do VI Milénio, uma estatueta proveniente de Çatalhöyük, representa um homem e uma mulher abraçados, representa o casamento sagrado .

fig. 1

Os primeiros poemas de amor, entre mortais surgem, nos registos escritos, na poesia assírio-babilónia, em tudo semelhantes às cantigas de amor, cantadas entre os deuses. O Cântico a Shu-Sin, parece tratar do casamento sagrado entre Shu-Sin e uma sacerdotisa. No entanto, nada alude a uma situação cultual e o nome Shu- Sin pode ser uma metáfora masculina, pode não corresponder a um deus (segundo B. Alster, Sumerian Love, pp. 135-136). O poema foi gravado numa pequena placa de argila que se encontra no Museu de Istambul :

«Noivo do meu coração querido,
Agradável é o teu prazer, é doce mel;
leão do meu coração querido,
agradável é o teu prazer, é doce mel.
Tu cativa me deixaste, tremendo diante de ti.
Noivo, eu deixaria que me levasses para a alcova
Tu cativa me deixaste, a tremer diante de ti.».

Na poesia de amor do Império Novo, no Egipto de que é exemplo um poema de amor do papiro Harris datado de 1500 a. C., o amor entre os humanos é já cantado sem qualquer referência aos deuses:

«A amada chegou, e o meu coração rejubila,
abrem-se os meus braços para a abraçar.
O meu coração está tão feliz, no seu lugar,
como os peixes no lago.
Ó, noite, és minha para sempre,
desde que a minha amada chegou!» .

fig. 2

O homem sempre viveu, amou, pensou e, tal como Hölderlin, talvez a humanidade tenha dito, um dia: “ Foi nos braços dos deuses que eu cresci.” .
A fixação dos textos era possível, mas não era prática, por isso, a tradição oral era a forma comum da transmissão destes textos. Na civilização micénica, da qual surgirão as primeiras grandes epopeias europeias, a Ilíada e a Odisseia, a tradição oral assume um papel fundamental, escritas VIII por Homero (embora haja quem ponha em causa a sua existência histórica). Os bardos, os aedos, sabiam de cor estes longos poemas, quem recitavam de corte em corte, memorizando em verso estes tesouros da civilização.
Na tradição oral, havia muitos mais conhecimentos a transmitir, tal como ensinamentos medicinais, fórmulas encantatórias, receitas de poções, encantamentos e mezinhas, fixadas, muitas vezes em fórmulas poéticas, para tornar mais fácil a sua memorização ou a sua capacidade para actuar .
Embora esta poesia não se possa considerar arte, a verdade é que o veículo poético sempre serviu para transmitir de geração em geração todo o que havia de mais importante e precioso, em termos de ensinamentos religiosos, medicinais, de forma a que não se perdesse a sabedoria de vida ou as conquista técnicas que a humanidade havia conquistado. Na civilização clássica a escrita, embora se tenha generalizado, tinha a sua difusão dificultada, pois os manuscritos tinham que ser copiados à mão. Foi assim até à invenção da impressão por Gutenberg (1390-1468), no século XV. É claro que, ao nível da poesia dramática, da filosofia, do direito, as cópias eram cuidadosamente preservadas, mas, na tradição oral.

fig. 3

fig. 4

Podemos dizer que a poesia oral, que hoje não serve para nada, até àquela altura, servia para tudo.
Vamos então voltar ao tempo de Gutenberg para restituir à poesia a sua utilidade inicial?
Claro que não. Até porque, a parir da Grécia Clássica, com o nascimento do pensamento filosófico, os pré-socráticos, haviam já começado a explicação do mundo através da physis e o racionalismo já se instalara, tendo rompido definitivamente com o elo mágico que norteara as épocas anteriores. A cisão entre os homens e os deuses já era um dado estabelecido, o pensamento racional substituíra o pensamento mágico, embora este continuasse a existir e continue a existir até hoje. Pela palavra poética, segundo Shelley, “O poeta participa do eterno e do uno; não existem, pois tempo, ligar e número que determinem as suas concepções” .
Um dia, tentei definir o que era para mim a poesia, esse rio infinito que desvenda a luz, o transcendente, o imanente. Nela integramos tudo o que é humano, divino. Nela vivemos tudo, mesmo o que não vivemos, integrando a própria morte, a violência, a crueldade, nela totalizamos o ser, em toda a sua inerência ontológica. Só ela faz de nós seres completos, ao unirmo-nos ao amor e ao eterno, ao sonho e ao infinito. As palavras podem ser banais, os dias decepcionantes, por isso a poesia existe, para nos revelar esse jardim, onde procuramos a nossa identidade oculta, a nossa dimensão secreta, que nos devolve à nova identidade viva. Por isso, a poesia é feita de palavras simples, eternas, primordiais, despertas na luminosidade das suas auroras de frescura. Regista todo o que procuramos e vivemos, tudo o que amamos, tudo o que construímos, com toda a verdade, beleza e sinceridade, ou a simplicidade de rasgar um véu, que nos devolve a nós próprios, aprisionados, no quotidiano dos dias.
A poesia é mágica, iniciática e profética. O poeta procura as palavras que contém as chaves de si mesmas. Por elas se afirma e se transforma. Por elas vive. Só na poesia, o Uno se abre e recupera, porque é através dela que recuperamos a vida, os sonhos e os arquétipos. Por isso, os poetas escrevem, a partir desse livro invisível, onde bebemos a luz, no imenso caudal, onde repousa a primeira árvore, a primeira flor, os primeiros sons ou o primeiro murmúrio de toda a linguagem esquecida.
A vida verdadeira, de que falou Rimbaud, é impossível de viver, tão fluida e demolidora é a sua incandescência. Por isso, apenas nos aproximamos dela e das palavras que apressam o tempo, eternizam a memória, radicalizam o instante. A poesia, tal fluido que brota desse jardim primordial é energia, impulso, fenda, e as suas palavras são incisões de morte, feridas irisadas, sangrantes, reflexões incontidas, longamente buscadas, na verdade mágica do imaginário. Por isso, a sua vocação é órfica e reveladora.
Orfeu, o primeiro Poeta, tocou a lira mágica da vida, penetrou nos segredos da morte, visitou o Hades, mas a sua amada Eurídice, não resgatou, porque duvidou, olhou para trás, céptico e descrente, preso na sua condição humana. Fausto também viria a provar os fruto do Inferno e a encontrar Helena. Já Margarida, como penitente, havia chegado aos céus.
Um dia, também sonhei com o deserto, com tentações. Alguém me dizia: — Repara, o deserto está cheio de palavras. Só tens de seguir-me, se me quiseres conhecer. Tudo terás de mim, conforto, amor, não mais precisarás de fazer da dor a tua casa.
— És Mefistófeles? perguntei.
Não, sou a Poesia. Mitigo a dor humana e ofereço-te o meu reino, ungido no aroma das orquídeas, no orvalho das rosas, na claridade das palavras. Toma-me, porque desconfias. Eu sou o bálsamo que procuras, no reino das trevas. Sou toda a tua vida.
Numa palavra, dar-te-ei toda a sabedoria que a humanidade acumulou. São estes os meus tesouros preciosos.
Aceita-me, se me quiseres. Por vezes, também te atormentarei, é claro, com a minha claridade, a minha urgência. Os gumes certeiros da minha verdade incomodar-te-ão.
Mas sou o teu único conforto, o teu mais íntimo refúgio.
Não sou Mefistófeles. Mas ofereço-te um reino, como vês.
Repara, o deserto está cheio de palavras, apetitosas, como tâmaras, hibiscos, lótus de água.
Fiquei perplexa. Não precisas de me dar resposta, respondeu.
Outros reinos perscrutarás, navegarás na luz, nas sombras, e fazes bem e duvidar, pois de dúvidas se faz o que é humano.
Já foi dito que, na linguagem humana, apenas não é possível não comunicar .
No nosso tempo, com as experiências do post-modernismo, a arte foi levada a experiências múltiplas, minimalistas, ou de arte pobre, com sucesso. A música também empreendeu rupturas significativas com os paradigmas do passado.
Na poesia também ocorreram experiências. A palavra pode ser banal mas não devemos esquecer que “A Poesia é uma arte da linguagem”, tal como afirmou Paul Valéry .
As palavras podem ser baças e sem brilho. Mas é preciso que sejam transformadas em diamantes.
Segundo Hölderlin: “ Was bleibt aber, stiften die Dichter” (Mas o que fica, os Poetas o fundam”) .

fig. 5

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1. «A madrugada é sempre mortal Eu regresso/Do obscuro país para além dos sonhos», António Ramos Rosa/ Robert Bréchon, Meditações Metapoéticas/Méditations Metapoétiques, Edição bilingue, Caminho, Lisboa, 2003, pg 24.
2. Shelley, Defesa da Poesia, Guimarães Editores, Lisboa, 1986, p. 30.
3. Stephan Maier, Klingende Zeugen der Bronzezeit, Ur-und Frühgeschichtliches Institut der Freien Universität Berlin, 1997, p. 4.
4. Figura 1- Detalhe de cena de dança, pintada na gruta de Cogul, Museu Arqueológico de Barcelona, Espanha, Louis-René Nougier, L’Art de la Préhistoire, Editrice Torinese, Toulouse, 1982, A arte do período magdalense, p. 242.
5. Figuras 2 e 3 – Imagem e decalque de feiticeiro da Gruta dos três irmãos, em Ariège, no Sul de França. Representa provavelmente um xamã. Tem características combinadas de homem, cavalo, veado, ave e urso, in Goran Burenhult, Enciclopédia Ilustrada da Humanidade (The Illustrated History of Mankind), Volume I, Bra Böcker, Os primeiros homens, tradução de Afonso Carmona Teixeira, Círculo de Leitores, Lisboa, 1985, p. 114.
6. «Fertile fieldes, fields divine,/The fields of Athiratu and Rahmayyu.», El e Athiratu são deuses ugaríticos. Rhamaayyu é uma deusa-mãe que alimenta os deuses recém-nascidos, Simon B. Parker, Ugaritic Narrative Poetry, Society of Biblical Literature, U.S. A., 1997, pp. 207- 209.
7. «Innana at her mothers bidding/bathed in water, anoited herserf with sweet oil,/decided to put on for outer garment/the grand queenly robe;/she also took her man-beast amulets, /was straightening the lapis lazuli stones/on her neck/ and held her cylinder seal in her hand,/The young ladystood waiting—/ Dummuzi pushed (open) the bdoor,/and like a moonbeam she came foth to him/out of the house./He looked at her, rejoiced in her,/took her in her arms [and kissed her].», Thorkilk Jacobsen, The Harps that once, Sumerian Poetry in translation, Yale University Press, New Haven and London, 1987, p. 21.
8. José Nunes Carreira, Literaturas da Mesopotâmia, Centro de História da Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2002, p.155.
9. Figuras 4 e 5 – Pintura e decalque da representação mais antiga de coito conhecida até agora. A cena encontra-se gravada na Gruta dos Casares, em Riba de Saelices, pertencente ao período gravetosolutrense. A figura masculina volta a cabeça para ver um mamute. O seu falo enorme está representado sobre o ventre e o púbis de uma figura de mulher com marcada esteatopígea. Estas características enquadram-se na simbólica dos rituais de fertilidade deste período. O decalque da direita, pertencente a La Marche, mostra um coito frontal do período magdalense, in Javier Ângulo, Marcos Garcia, Sexo en Piedra, Sexualidad, Reprodution y Erotismo en Época Paleolítica, Luzán 5, S. A. de Ediciones, Madrid, 2005, pp. 150-151.
10. José Nunes Carreira, Literaturas da Mesopotâmia, pp. 86- 87.
11. «Die Geliebte ist gekommen, und mein Herz jauchzt,/meine Armen sind offen, sie zu umarmen./Mein Herz ist so froh an seinem Platz/wie Fische in ihrem Teich./O Nacht, ewig gehörst du mir,/seit meine Herrin zu mir Kam!», !» Erik Hornung, Altägyptische Dichtung, Philipp Reclam jun., Stuttgart, 1996, p. 152, Tradução nossa, in Maria do Sameiro Barroso, A mulher e a medicina mágico-religiosa no antigo Egipto, Cadernos de Cultura Medicina na Beira Interior, da Pré-História ao Século XXI, N. º XXI, Castelo Branco, 2007, p. 17.
12. “Im Arme der Götter wuch ich gross.”, Hölderlin, Poemas, tradução de Paulo Quintela, Relógio d’Água, Lisboa, 1991, pp. 106-107.
13. Um dos episódios mais curiosos de História da Medicina Antiguidade é a de Mitridates Eupator (c. 130-63 a. C.). Este, para escapar às tentativas de envenenamento dos seus adversários, criou uma receita que consistia em tomar diariamente doses muito pequenas dos diferentes venenos até conseguir tomar, sem perturbações aparentes, doses que seriam perigosas ou letais para uma pessoa não preparada. A resistência aos venenos ficou conhecida, na Medicina, por mitridização. Assim, criou um antídoto universal, o Mitridaticum, composto por 54 ingredientes, que posteriormente foi considerado infalível como preventivo e curativo de inúmeras moléstias. Quando o seu reino caiu às mãos dos Romanos, Mitridates, tendo-se tornado imune aos venenos, teve que pedir a um escravo que o matasse pela espada. O seu Mitridaticum foi então trazido para Roma, como valioso despojo de guerra. A sua fama foi crescendo. Andrómaco de Creta, médico de Nero, juntou-lhe carne de víbora, que, considerada como animal peçonhento por excelência, parecia constituir o antídoto natural para venenos de todas as castas e aumentou o número dos seus componentes para 63. Para uma melhor memorização, fixou o texto em verso, tendo-o transformado na Triaga ou Teriaga, que foi largamente utilizada, sendo muito popular, desde a Idade Média (A. Tavares e Sousa, Curso de História da Medicina, Das Origens ao Século XVI, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, p. 85). Ficaram famosas as descrições da sua complicada preparação, na República e Veneza, e, mais tarde, noutras cidades da Europa, onde era preparada, em público e seguindo um complexo ritual, constituindo uma valiosa mercadoria que era comercializada no Oriente. No final do séc. XVIII, a receita desapareceu completamente do moderno arsenal terapêutico (Martin Mádl, Ausstelung Historischer Apotheken (Exposição de Farmácias Históricas), Národni Muzeum, Praga, 200, p. 65
14. Shelley, Defesa da Poesia, pp. 38-89.
15. Paul Watzlawick, Pragmática da Comunicação, S. Paulo, Cultrix, 1993.
Paul Valéry, Discurso sobre a estética poesia e pensamento abstracto, Vega, Lisboa., 1995, p. 61.
16. Hölderlin, Poemas, tradução de Paulo Quintela, Relógio d’Água, Lisboa, 1991, p. 30.
Comunicação de Maria do Sameiro Barroso,
"Democratização da Poesia ou Banalização da Palavra", III Bienal de Poesia de Silves, 27 de Abril