31 maio, 2008

as mãos


poema de António Simões / desenho de Augusto Mota, 1981

Se é treva ou se há luz


excerto do poema "Se é treva ou se há luz", in Antologia da III Bienal de Poesia de Silves
NAS MARGENS DA POESIA, Abril de 2008.

30 maio, 2008

e essa não disseste



boomp3.com

Voz de Sónia Pereira- grupo Experimentarte
poema de António Simões

_________________
Fotografia de Lilya Cornelli.

isto escrevo




isto escrevo. porque
me deixaste em casa
à míngua do Alto.

canto tanto.

ouço ainda a voz da luz encarcerada
no teu ventre, mãe,
numa gota de sangue
- inesgotável pranto -

com relâmpagos na boca
selo os lábios.

só o vento.
um berço muito grande




maria azenha
óleo de Jake baddeley

chove



Photobucket



chove

e o mundo é grande

igual a um deserto

que não cabe em nós



nunca somos de um mundo apenas

é isso que nos dói

quando andamos sobre o soalho

desta casa

escoando para as fendas os barcos que vida tem



estou hoje num território

onde

todos os despojos se amontoam e dispersam

dentro do meu olhar



talvez não saibas

mas divido contigo

uma coisa feliz





poema/fotografia - Maria Costa

29 maio, 2008

sou um vagabundo


in Antologia NAS MARGENS DA POESIA, Silves, Abril de 2008
foto de Pedro Carvalho / arranjo gráfico de Augusto Mota

Cordão Umbilical

A dança das mães
Na beleza incurável das feridas
alimentam-se mães sem trégua.
Nos rios secos, batem e batem os corações
alimentados em sangue frio e espesso.
Que é lívido. Que procura as raízes.
O coração é um bicho estranho, que vai
caminhando gota a gota. E as feridas incautas
aproximam-se das mães, imprudentes ao peso
de cada sopro. O amor eternamente feroz.
E as feridas das mães, são cada vez mais belas.
O medo caminha violentamente mais perto,
no corpo, na cara, nas vértebras e no ventre
onde se abriga com seu volúvel volume,
o silencioso amor de mãe.
Sob a folhagem da água, mães cansadas
da aridez que as toca, incendeiam-se através
dos filhos. E os filhos, esse chumbo cravado nas asas,
esse projecto que sobre o mar se estende,
alimenta as feridas pelos tendões.
As mães debicam sobre a areia a sua rota clara,
até ao fim do mundo. Como pela última vez.
Sobre a montanha, um filho incorpora-se na beleza
incurável das feridas, enquanto mães tacteiam
a pedra, até ser flor.
Por vezes sangram e cantam, secam os olhos,
arrancam os sexos e em permanente luta, corpo
a corpo, o amor estende-se, mas os gestos
são frios, neste caminhar obsceno
de pessoas sem frutos. Há-de caber numa gota,
todo o tempo, todo o amor, de uma vida sem história.
In, No Centro do Arco - João Rasteiro
.
John Lennon in Madison Square Garden / Mother


.
http://nocentrodoarco.blogspot.com/

28 maio, 2008




A BRINCADEIRA


um dedo molhado ao vento
inferir – é muito provável que alguém
deite culpas para cima do menino, dele andar por aí
a dar uso à natureza
de manter quentes no bolso os planetas que lhe convém

porque os berlindes
inócuos frutos de vidro no bolso da criança
são bolas de cristal dos bruxos crescidos
adivinham as quatrocentas e noventa parábolas a viver

as algibeiras do menino são fundas
e os adultos sabem disso, como sabem

na verdade qualquer criança é algibeira funda
daqueles que por miopia do olho espiritual
irrompem maioridade
por vezes tão funda
a ponto de por momentos encobrir toda a farsa

não há tribunal que apure esta causa
um pouco de natureza por estas paragens
igual à do menino que
de cova em cova
anda a puxar sorte aos berlindes


Porfírio Al Brandão
[desenho de António Maria Lisboa]

os lobos

convido-vos para «os lobos», no sulmoura. (basta clicar no(s) título(s).)
.
(como sabemos todos, há edições de textos que são "madrastas"... por isso não edito aqui. Aliás, assim, não ficam obrigados nem a ler, nem aos comentários)
:-)
.
Abraço!
Belo, o novo rosto deste blogue (embora prefira as cores cálidas)
maria toscano

Outrora eclodiam os desertos

poema de mariagomes
fotografia e composição de Fernanda Sal Monteiro in Estrela da Madrugada

.... um homem com maiúsculas



diziam que havia um pássaro caído
sobre o beiral duma casa amarela
colocada sobre a escarpa
diziam que o pássaro voava
que à noite se vestia de anjo
.
.
... eu acreditava
diziam que havia anjos caídos
sobre o leito dos rios que desaguavam
num mar de estrelas azuis
.
.
.
diziam
... eu acreditava
diziam que se me portasse bem
não mentisse
iria para o céu
brincaria com os anjos
seria
muito feliz
.
.
comecei a não acreditar
.
o pássaro morreu
o anjo voou
o céu deixou de ter estrelas
os meninos deixaram de brincar
tiveram fome
houve guerras
minas
mortes
e
eu inseri a falibilidade do HOMEM
na falácia de deus

gabriela rocha martins , 02.04.2008 ,in canto.chão
imagens de nicoletta tomas.
Photobucket

Com Dali na esplanada do Majestic - para pôr a conversa em dia

Dali
se o teu bigode fosse só dois tesudos cornos
perdidos na vazante de um nariz fradesco
...............e o teu olhar
que sobreleva pelas vitrinas
arrastasse os nevoeiros
os ócios os pedantes os peixes que devoram raízes e solstícios nos lumes da cidade
(só que o real é isto que tu vês e eu sei dos pesadelos todos sobre os fogos – o real só canta as cicatrizes e sangue de fantasmas)

...............pelas paredes da chuva em Santa Catarina
...............derretem-se os olhos de gelo de um marujo
...............que as marés do Outono abalroaram contra as montras de círios e dos medos em saldo
e há chatos lilases que dançam em pontas o Pássaro de Fogo
sob os olhares inquietos do café Magestic

Lorca
enverga a capa de um toureiro morto
vai driblando a Agustina e seu chá de varizes
enquanto engata o criado crioulo que traz sobre os ombros as crinas
de um miúra perdido na solidão dos curros

Manuel de Oliveira
faz um Anniki Bóbó em câmara lenta
dança com a Agustina um flamenco asmático
acenam ao Camilo que toca castanholas nas grades da Cordoaria

...............(a Amélia dos olhos doces
...............tem órbitas descarnadas
é o que acontece às putas gulosas
que vão à Cantareira
desnudar o assombro)

Dali
retoca o pó-de-arroz e o verniz prós calos
frente aos espelhos cegos
e grita pela mãe que vende desassossego a juros num sótão do Bolhão

Picasso
joga à bisca com o Ricardo Pais e baralha a verdade e o real até ao osso

o Klee
aluga quartos de hora na Ribeira

o Miro
estrela órgãos sexuais para brincar aos deuses

Dali
ergue o pescoço para mijar mais alto

a bica traz o preço
das luvas da Vénus de Milo

.........................há tempo derretido no grito das sarjetas

...............há cavalos alados dançando zarzuelas
...............no empedrado roto da praça da Batalha

Lorca
apanhou o comboio em Campanhã
a las cinco en punto de la tarde
...............(leva a tiracolo o criado crioulo
...............e um par de bandarilhas pró que der e vier
- ainda não sabe que há um fuzil escondido entre os olivais
dos campos de Granada)

neste chão de Setembro
uma girafa em chamas compra veludo ao preço da mais pesada angústia

Buñuel
traz à trela un chien andalou
e um penacho rançoso usado pelo Franco na feira de Valladolid

...............duas virgens pernaltas alçam a perna e acendem
...............um lastro de azinheiras lúbricas na Torre dos Clérigos



desaguam no Douro
um Minotauro asceta
um relógio vomitando guerras e reumático
um burguês em ceroulas com os vícios truncados
e o Primo de Rivera que vem ensinar as técnicas da punheta
aos efebos da Foz

...............num beco da Ribeira Breton troca o manifeste surréaliste
...............por 2 gramas de haxixe e uma puta com musgo nas axilas

Giorgio de Chirico
tem uma água-furtada que a polícia vigia
e vai regando alhos porros e os seios da Gioconda para amansar o tédio

Max Ernest
faz trottoir à noite na Trindade com dois travestis vesgos
sabe que as rugas da lua não dormem nas valetas
e há uma ilógica sombra que aquieta as musas

Eu, Dali
penduro os teus relógios no tempo que nos foge
o Magestic já dorme com a noite nos dedos
e o orvalho cega a fímbria do real
...............amanhã se chover estrumamos a língua com os húmus da véspera
...............deixamos que as palavras se afoguem devagar

DOMINGOS LOBO – Porto, 26.5.08

Romance

a rapariga pede à moça:
_água bendita aquecida
a moça diz à rapariga:
_ainda não houve partida

a rapariga repete à moça
o seu pedido leal :
-traz-me água aquecida
se não houve partida
água não me fará mal

a mãe rompe aparecida
desenganando-a do choro
promete-lhe água vinda
lembrando-a do decoro
da sua afeição ao bragal

a rapariga pede à moça
-àgua de flores água de mel
água que mate espadas
fala-lhe o coração infiel

a mãe por perto almeja
o véu sobreposto ao céu
é tudo o que deseja
numa guerra sem desgosto
sem espada e sem burel

a rapariga pede à moça:
-àgua e três candeias
duas alumiam o rosto
outra o desgosto da ceia

a rapariga diz à moça:
- morre a chama na candeia
a moça vê-se vencida
treme o corpo à rapariga

outro dia virá depois
uma prece em cada dia
a rapariga no seu desgosto
reza no rio alegria

in palimpsestos ( 1) José Ribeiro Marto

hoje falaram-me de amor


Photobucket

hoje falaram-me de amor
gritaram-me aos ouvidos a palavra amor
disseram-me que o amor é amor e
as pessoas choram em casa fechadas
na televisão que trazem dentro do peito

com a palavra amor fazem-se grandes coisas
não sei se já ouviram
mas hoje falaram-me de amor


as folhas caídas em maio chovem nos passeios
podem ser gravadas numa caixa de lágrimas
para arrumar à noite
lembram gotas da chuva que caiem em cima dos pobres
porque há amor e pobres para amar na palavra amor

habito desde sempre um lugar de pedras
dou-me conta que a palavra amor
deve custar muito dinheiro

comprei hoje um dicionário de sinónimos
não vem lá

merda !
sou lúcida!


maria azenha
fotografia de Ben Goossens