06 junho, 2008

05 junho, 2008

Informação


É inaugurada, sábado dia 7 de Junho de 2008, pelas 19,30, no Restaurante Nacional, na baixa coimbrã, a exposição PESSOA(s), de João Paulo Wadhoomall, 95ªedição de A Arte Serve-se à Mesa.

A mostra ficará patente ao público até ao dia 5 de Julho.

Muito se agradece o favor de editarem esta notícia no vosso prestigiado Jornal, se possível diariamente na Agenda Cultural.

Obrigado

Rui Mendes

FERNANDO PESSOA * 120 ANOS


FERNANDO PESSOA, um dos ícones do século XX, viveu praticamente uma vida desconhecida, anónima. Publicou, um ano antes de morrer, um único livro, Mensagem, em 1934.
Deixou dentro de uma arca sem fundo, como disse Eugénio de Andrade, cerca de 30 mil escritos, representando – se por dentro de um número, ainda não averiguável, de Autores.
A sua poesia é o relato dramático da história de um homem despojado da verdade, destruidor de mitos, que escolheu uma vida mínima para criar uma obra maior, bem perto de Camões.


*

"13 de Junho de 1888. Nasce Fernando Pessoa, uma das principais figuras da Literatura portuguesa. 120 anos depois, surge uma exposição fotográfica que serve de homenagem e evocação às palavras imortalizadas pelo poeta e escritor.
"Pessoa(s)" é o nome da exposição fotográfica da autoria de João Paulo Wadhoomall, que estará em exibição entre 7 de Junho a 5 Julho no Restaurante Nacional (contacto: 239 829 420), em Coimbra.
Tal como Pessoa uma vez escreveu, "eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura" e esse é o mote dos trabalhos expostos ao público, instantes captados de pessoas anónimas que surgiram no caminho do autor.


Pode consultar a galeria fotográfica do autor em http://jpw.pt.vu"

Grito Aberto

Poema dos jardins ausentes


excerto de "Poema dos jardins ausentes", de João Rasteiro, in Antologia da III
Bienal de Poesia de Silves, NAS MARGENS DA POESIA, Abril de 2008.
foto de Nuno Verdasca / composição de Augusto Mota

Luz sobre o Aberto*


Homenagem a António Ramos Rosa

Não há árvore, fruto ou abismo que o teu coração não conheça,
mas improvável é sempre a chama da tua respiração,
na luz sobre o aberto,
onde o caminho para o infinito é o ardor que toda a palavra sustém.
Em ti brilham as sílabas, as imagens, as entranhas das páginas.
Nenhum grito te rasga porque és a própria luz sobre o abismo
inominado das origens.

Nenhum grito te abre, nenhum gume te fere, porque és
a própria abertura.
Nas tuas árvores, na tua pele, brilham as dunas, o deserto,
as entranhas do mundo.
Nas tuas veias, brilham oásis sempre férteis.
Nenhum grito te rasga, porque és o grito intraduzível
de uma respiração poderosa.
No teu sangue, derramam-se cascatas brancas, cascatas fulvas,
onde corre um rio exaltado de preciosas salinas.
Os teus ouvidos são membranas vibráteis,
abertas sobre as constelações da noite.

Em ti, todas as chamas são lagoas de linfa, sulcos, estrias,
meandros do indizível
Os teus próprios muros são silêncio, fruto, jóia,
apontamento íntimo.
As tuas clareiras são rasgadas por sulcos.
De bálsamo e frescura é o teu rosto.
Quando falas das feridas, escuto as guitarras, as árvores,
os insectos, as paredes brancas, as aves mais puras.

Nenhum grito te rasga, porque és a própria nudez despojada.
No turbilhão dos labirintos, voltas-te sempre para o sítio,
onde janelas se abrem e se incendeiam,
nos fluxos de lava, onde os aprendizes se acolhem.

Quando indagas o mundo e os seus enigmas, indagas o silêncio,
a bruma, nos arcos transparentes habitados pelo Ser.
És sempre a espiral de uma vertigem que se encontra,
em seu clamor de veludo, em suas águas de silencio,
onde desejo e alvor se fundem, na madrugada do teu corpo,

onde o universo é uma metonímia de figuras azuis.



Maria do Sameiro Barroso

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* In Homenagem a António Ramos Rosa, Revista Textos e Pretextos, nº 9 Outono/Inverno, 2006, Centro de Estudos Comparatistas, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa.
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imagem de Augustus Vincent Tack.
Amo nos olhos que tomaste
com as mãos
as palavras que escrevo e amargo
o silêncio que devolve
o cérebro a doer
o coração em ferida
o líquido castanho dos olhos
quando se esbate como campos que devastam

Amo o caminho que se alonga nos dias
os labirintos que se inflamam direitos aos alvéolos

Só quero adoecer nos meus lugares e morrer
nas tuas mãos.

Graça Magalhães, 2008, Lavrar no Corpo das Almas, Palimage

Esse mundo acabou



poema de Eduardo Pitta, in «Archote Glaciar», 1988, transcrito na Antologia da III
Bienal de Poesia de Silves, NAS MARGENS DA POESIA, Abril de 2008.
foto de Nuno Verdasca / composição de Augusto Mota

04 junho, 2008

Seis letras para canções


1. ABRAÇO DE ÁGUA, ABRAÇO DE ALMA



Estavas lavando o passeio
E eu passei pela calçada.
Entreguei-me sem receio
À frescura desse enleio:
Minha alma ficou lavada.

A alma que tu lavaste
Com a ternura que é tua,
Ficou pura quanto baste,
Ficou branca em contraste
Com o negrume da rua.

E depois segui adiante,
(A tarde mansa caía)
Mas dentro de mim, constante,
Tua imagem radiante
Encharcava-me d'alegria.

Ao passar pela calçada,
O destino ali te pôs
Pra lavares minha mágoa
Nesse teu abraço de água
Numa rua de Estremoz.

Agora sempre que passo
À rua onde te vi,
Desaparece-me o cansaço,
Pla memória desse abraço
Que veio um dia de ti.


António Simões, Outubro, 1997
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Fotografia de k valeri.

hoje corri todos os jardins da Terra


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Voz de Sónia Pereira- grupo Experimentarte
poema de João Rasteiro

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Fotografia de André Pichuto Fibla

Amar-te


excerto do poema "Amar-te", de Silvestre Raposo, in Antologia da III Bienal de Poesia de Silves,
NAS MARGENS DA POESIA, Abril de 2008 / Foto e composição de Augusto Mota

A Mão Semeada



É quase o corpo, movido pelos arados, cercado de agulhas
moribundas.
E a vida canta, inóspita, à beira de outras nuvens.
Pelas aras de cinza, nada me resta senão o voo invisível,
pelas margens da agonia,
e a noite incessante que me traz a terra, a espessura do sangue,
os caminhos frescos.

Agora sou o limite que emerge, o pulso, o grito,
o som que principia.
E chego, porque há novas harpas que se enredam nos dias.
Alguém me fala.

Sobre negros precipícios, há espelhos negros
e a vida mal definida que preenche as casas.
Algures os limoeiros florescem e reanimam a face lívida,
olvidada pela música.

Pelos tinteiros de luz, pinto estrelas de sombra.
As cinzas dormem e há novas raízes que se libertam,
pela mão semeada, adormecida.
É, pelo corpo, cercado de espelhos, que vivo e atravesso
o olhar, a assonância crescente, a semente do diálogo.
Alguém escutará o novo fulgor, o embate cego
contra os muros, a complexa ogiva.

Como uma lâmpada, caminhará a palavra,
pedra cintilante, nome e destino, vagido enigmático,
luzeiro obscuro, esporo de veludo,

................................................coroado pelo vento.




Maria do Sameiro Barroso, in Palavras de vento e de pedras, Organização Pedro Salvado, Município do Fundão, 2006, p. 67.
Fotografia de Mario A.

A Maria Azenha

um anjo inquieto e imperfeito
às tuas mãos vem pousar
não lhe chames pássaro ou vento
se a tua boca não se calar

José Ribeiro Marto

Cantiga de Amor

ela dá-me o olhar vivo
são azuis duas sementes
ai dá ai são

ela dá-me as mãos incertas
vermelhas e abertas
ai são ai não

eu dou-lhe a boca muda
à minha sede mais funda
ai dou ai nunca

ela dá-me dos olhos o sorriso
maduro de imprecisão
ai sim ai não

eu fundo a respiração
no sorriso invisível
ai não ai sim

não voo na sua mão
penas sim essas são
ai delas ai vão

sem pressa nem aviso
a carne funda a chuva
ai dar ai não

um sopro de um sorriso
a pele busca o vento
ai sim ai viço

José Ribeiro Marto

amanhã seria tarde


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(embirro falar de amor
de livros povoados de felicidade
ou de lábios azuis nas fontes)

prefiro falar de árvores estrangulando as estátuas
através das raízes dos barcos de solidão urbana
de rosas a abrir em flor em sentido contrário
ao movimento dos ponteiros dos relógios

prefiro riscar os olhos com a neblina dos campos
- ainda que sem um cêntimo nos bolsos -
e que saibam e conheçam a voz da nossa fome

nunca li, leitor deste instante, aqueles filósofos
que sempre deram imensas explicações
para coisas tão simples como o amor

estou contigo. disponho apenas de algum tempo
para algumas confissões
- nada que os pássaros não saibam -
e quanto ao amor, para sermos claros,
está aqui .

amanhã seria tarde.



maria azenha

falemos de espasmos cintilantes



excerto de um poema de Porfírio Al Brandão, in Antologia da III Bienal de Poesia de Silves,
NAS MARGENS DA POESIA, Abril de 2008. Foto e composição Augusto Mota