19 junho, 2008

fado da terra


Ó terra, eu vou cantar-te,
Tenho as mãos cheias de ti,
E agora darei parte,
Com maior ou menor arte
Daquilo que descobri.

Estes torrões que seguro,
Fui-os no campo apanhando –
São desse barro maduro
Com que se amassa o futuro
Desta vila de Redondo.

A terra é base da vida,
Sobre ela pomos os pés,
E a gente vai decidida,
Devagar ou em corrida,
Correr mundo lés a lés.

Foi da terra-mãe que vim
E tu vieste também.
A terra criou-me a mim,
E quando chegar meu fim,
Voltarei à terra-mãe.

Deita-se à terra a semente
Num gesto lento, sem pressa –
E quase magicamente
Surge a planta de repente,
E nova vida começa.

Ó terra, ouve meu pranto,
Minha voz desesperada,
De ver os que entretanto
Destroem teu verde manto,
E te trazem maltratada.



Poema de António Simões, in "Fado de Água e Outros"
Imagens de fractais.

18 junho, 2008

Gatos, absinto e morte

Rachel amava os gatos
e a vida.
Odiava os medíocres.
Com esses era ranzinza,
impaciente e ... implacável,
por que não?
" De noite vira bruxa",
diziam os vizinhos.
Rachel ria e bebia absinto.
Absíntica, enigmática,
tão maníaca por mitos
que beirava a mitomania.
De tanto amar os gatos
acabou virando uma ...
gata.
Revirava latas de caviar
e lambia lascas de camembert.
Uma gata de gosto
fino,
sutil,
refinado.
Um dia subiu no telhado
com o violino
e o cálice de absinto.
Abriu os braços,
esticou a coluna,
arrepiou os pêlos
fechou os olhos
e parou o coração.
Num salto mortal se foi
para o outro lado do mundo.
Sem vassoura
atravessou a lua
virou uma estrela.

Rachel Melamet era uma gata. Uma amiga gata que deixou de miar nos telhados daqui da Terra porque Deus (sempre Ele) a chamou ... no cio.
poema de Márcia Frazão, Brasil / ilustração digital de Augusto Mota

és tu o incêndio e a rosa





és tu o incêndio e a rosa
nos meus olhos. sei que ainda moras
nas ruas e lembro mesmo algumas
mulheres que apontavam ao longe
a cidade e a noite. não se vê daqui
a ponte e não tenho como saber
a hora exacta em que tocaste os meus
cabelos e o vento subiu a beijar-te
os olhos.



Aida Monteiro

Fotografia de Tatjana Savvateeva

Cantiga de espera ( bailada )

dava o amarelo ao lancil
a pimenteira
dava
a tarde no céu azul
voava !

procurado sem aviso
o telemóvel cantando
encontrado!

amanhecia na hora
na tarde inteira
a vinda
muito esperada!

o telemóvel tocando
sem aviso encontrado
àquela hora do dia !

o jeito ágil do corpo
por vir tão certo
assustava !

àquela hora do dia
o telemóvel tocava
encontrado!

o autocarro primeiro
àquela hora do dia
chegava!

um beijo tocado
solto
aquela hora do dia
no telemóvel revolto
no telemóvel encontrado!

sem o som muito dançado
um cavalo verde corria
na rua por outro lado
àquela hora do dia !

à pressa via-se horário
o tempo crescia lento
áquela hora do dia
o telemóvel tocado!

um autocarro chegava
muita pressa trazia
àquela hora do dia!

ali um abraço sem fim
aquela hora do dia!

faltava-se à dança
bailava-se ali
àquela hora do dia!


José Ribeiro Marto

Já não sei - Graça Magalhães

Já não sei ouvir só pelos caminhos.
porque já não sei existir acordada
percorro os lugares da memória
condensando desejos de claridade matinal
a primavera morreu no olhar dos frutos
a madrugada acende os gritos na ausência
das palavras de riso
de amoras em campos de milho
palavras de água e de cio
se não as vejo imagino-as
e já não sou eu a colher a polpa das sílabas
as letras desenhando limos no fundo dos anéis

Trouxeste a Primavera num cesto vermelho.
Abriste-a de aromas para me escolheres.Para me amares devagar porque sou o que não ficou

17 junho, 2008

fui tempo de poesia


poema de Gabriela Rocha Martins / foto e composição de Augusto Mota

elegia para Eugénio de Andrade


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voz de Sónia Pereira-grupo experimentarte
poema de Luis Serrano

16 junho, 2008


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estou só
tão só que me esqueço de que estou
sou


vacilante entre o antes o depois
naquela recordação doce de coisa alguma
naquela solidão redonda
sinónimo de algumas ausências
tecidas na serenidade violenta
dos adeuses ditos há anos


agora
lembro.me de os sentir fortes
a agonia do cansaço vivido
em cada madrugada
descalça
com frio dentro da cabeça
os pés a palpitar face à sabedoria
transparente verdadeira
que transpiro em cada poro
inscrita neste corpo frágil que
oscila na espontaneidade constitutiva
de todas as existências
existentes para além da filosofia
humanista de Sartre
e Hegel
na antecâmara
das correntes filosóficas
conducentes a nenhures


prefiro outras correntes
as dos rios
desde que não corram
para a evidência do mar
quedada na falácia do existir
como única permanência do ser
a pessoalidade
na inter face do verosímil

na fragilidade do corpo




gabriela rocha martins
fotografia de Aykan ÖZENER

as minhas pedrinhas

as minhas pedrinhas

A meio de um rio

Falo do sol que me habita
do olhar verde de árvore
que aquece o peito e abriga
da água que rebenta nos olhos
do rosto dormindo sobre o clarão vermelho
de subtilezas no microscópio da pele
de uma galáxia com fios de estrelas
docemente alucinados
a meio de um rio.



Graça Magalhães

A simetria da vida humana



O último livro de Maria Azenha,

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"A Chuva nos Espelhos", veio a público, já este ano, através da editora Alma Azul e vem complementado com um prefácio de Henrique Dória.

A inclusão no título da palavra "espelhos" alerta-nos imediatamente para a simetria que é toda a vida humana, reflexão no sentido óptico, metáfora do "outro" que reflectimos e nos reflecte. Apesar da complexidade da vida somos confrontados com uma tendência para a expressão dessa complexidade num sistema de base 2, a base utilizada pelos computadores: vida/morte, amor/ódio, eu/tu, bonito/feio, real/virtual, etc, etc., ou seja o que o espelho mostra e o que o espelho esconde.
Há uma pergunta que me parece plena de significado no poema "Um biombo de açucenas para os espelhos" e que é esta (p.23) "porque nascemos entre mil espelhos?" Nem M. Azenha tem resposta nem eu, mas porventura, estes mil espelhos repetem à saciedade uma imagem que é a nossa e que nos repetimos nos outros. Ou seja, qualquer outro é sempre um "alter-ego" daquele que empresta a sua realidade. Ou ainda, os mil espelhos funcionam como "pontos de vista" que correspondem aos vários narradores do romance polifónico.
Eu diria que há nesta obra dois objectivos principais. O primeiro aparece-nos logo no 1º poema (p.7) e é, de algum modo explicitado nos dois últimos versos

"transportar o sonho de um lado para o outro
abrir com toda a força um buraco nos espelhos"

Abrir um buraco nos espelhos para quê? Para saber o que está por trás deles. Será Deus? Que demiurgo manipula as marionetas que, se calhar, nós somos? Em qualquer dos casos, abrir um buraco nos espelhos corresponde ainda a um desejo de conhecimento.
O segundo objectivo parece estar contido no último poema, "explicação dos espelhos" (p. 43), logo no 1º verso, "e multipliquem os espelhos que cantam" pois quanto maior for o seu número maior será o número daqueles que constituirão outros tantos alter-ego da autora.
Ambos os projectos se integram em "um projecto de água" (p.7) que se abre em "lugares novos espantados" (p.7). A água assume, como se sabe, carácter matricial e é um símbolo de pureza. Não é por acaso que esta palavra é das mais frequentes na obra, quer sob esta forma, quer escondida em "mar" e em "chuva".
A linguagem de Maria Azenha é uma linguagem simples com muitas pausas deixando, pois, que o silêncio adquira uma grande importância nesta poesia. Sem pausas não há música e é aqui que eu acho que Maria Azenha devia investir mais em próximo livro.
Algumas imagens são tão belas que vale a pena citá-las. Por exemplo: "é inverno frio // neva uma rosa" (p.15).
No poema da p. 16 há três versos que nos fazem lembrar uma frase célebre de Picasso: "eu não procuro, eu encontro". Os três versos são estes:

"todos os poemas que escreverei já foram escritos
dou-me apenas ao ofício das trevas
de os revelar em pedaços de argila"

Isto é, ao poeta cabe desvelar a realidade sem qualquer preocupação de explicar. Que há, de facto, uma preocupação de enfatizar a imagem em detrimento do som (visão contra audição) pode deduzir-se, por exemplo da associação de "espelhos" com "olhos", como se pode ver no poema da p.21: "os teus olhos / são ainda / mil / espelhos/.
Trata-se de uma poesia cujo lirismo, ora nos empurra para a memória da infância (há alusões discretas a esse paraíso perdido), ora acorda em nós o tom melancólico mais próprio da maturidade.
Permita-se-me que, a concluir transcreva o poema "sobre a metamorfose das casas" (p.33), seguramente um dos mais belos deste livro:


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abrem portadas em Março
ao primeiro calor das árvores.
umas
em flor
outras rendilhadas de andorinhas

derramam
nos
passeios

algumas pétalas de linho.

aves de silêncio e água limpa




15 junho, 2008

Romance (a chuva era moirinha)

- trazia!
um renque de borboletas
nos olhos do vento
- vinha!

a noite subia aos montes
e num cavalo se ia
- se via!
no gume do horizonte
a chuva perdida cantava
- e num cavalo corria!
- num sopro muito riscado!

andando corria o amado
a chuva era mourinha!
- cantava!
a amada cantando a hora
na pressa de muito chegar!
- cantava!
colhia ele o lírio do tremoço
a flor brava crescia
- vibrava!

chegava ele no pulo da lebre
- voando!
chegava ela a chegar
- andando!

a chuva era moirinha
- chegava!
riscada no seu chegar
- riscada!

a chuva caía pingando
o tempo de maio se ía
a chuva caía raiando
muito moirinha chegava
a chuva caía raiando
- caía
a chuva de maio se ia
- se ia.



José Ribeiro Marto

ROTAS

Um dia, também eu encontrarei a morte no meio dos amieiros. Ela dará então uma volta pela aldeia, refrescar-se-á na Fonte dos Reis e continuará a caminhar através do infinito vazio, e eu esperarei com um livro aberto, no capítulo sobre o inferno, repousando e esperando ao cimo do movimento como ser pasmado, antes de chegar a noite. O pulo do corpo disputando a terra da criança alva, o cheiro dos novos corpos neste lugar – como se eu voasse e brotasse sobre a raiz ríspida da colina. Um corpo na lembrança excessiva de outro corpo, antes de chegar a noite. Um corpo fincado na paixão da pele e instigado para além da profecia.
(...)
E hoje, na Primavera em que todas as memórias morreram, enterrei o teu nome num canteiro de magnólias de cristal e olho-o de longe, para que a minha boca não se rasgue mais em suas arestas. E ele ferve. E colho flores e as minhas vestes ficarão perfumadas. Regresso quando a palavra se detém no sémen dos amieiros, enquanto construo a memória de que eles fazem parte, com a solidão nua e intacta das vozes que os protegem de mim.
João Rasteiro - "O Búzio de Istambul", 2008
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GUNS N' ROSES ~ KNOCKING ON HEAVEN'S DOOR
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