22 junho, 2008

No sítio das Mealhas




O que cheira a laranjas de jardim
são pássaros caídos
em alamedas de água
luar dentro dos olhos das árvores
telhados de amarelo florido
o vermelho no interior dos frutos
cheiro a trevos esmagados
âncoras lançadas aos olhos
memórias virgens de um planeta que se habita
constelações de estradas celestes
tripuladas devagar por um corpo


Os nenúfares de açúcar
dissolvem flores pelo ar
espalham quietude de aromas
e mesmo sabendo que morremos
conhecemos o amor pelos caminhos um do outro.


Graça Magalhães, Verão 2008

Nunca a noite se abriu para nós



Desprendias me as mãos do copo de vidro.
Lá fora, um som de tempestade.
Era a noite do fim do dia e restavam apenas ganchos perdidos pelo chão, pés caindo do sofá. Restavam apenas os nossos cabelos artisticamente entrelaçados. Eram as respirações que se ouviam, demoradas e pensadas.
As sombras cinzentas cerravam os malmequeres nas pálpebras e sentia cada átomo que se desprendia do teu corpo. Decorava a dança da tua anatomia, a música do teu pulsar, desenhava cada vértebra.
Éramos mais do que concretos à luz da fogueira.
Éramos um momento, uma filosofia, uma poesia. Éramos a causa e a consequência.
Éramos….
E afastavas-me o cabelo dos olhos num ritmo compassado. Eu olhava-te.

Mas não.
Nunca a noite se abriu para nós.

Sofia Magalhães

21 junho, 2008

dos olhos
a incansável lonjura do horizonte aberto
trigo no azul/ tronco do sul.
.
dos olhos
a imperturbável certeza do horizonte ardente.
campo de afagos / sonhos de afagos.
.
.
e essa semente que jamais esmorece dentro do lastro imenso que habita em mim.
.
de maria toscano (in sulmoura)

As Mãos

Poema "As Mãos" de António Simões
composição e edição de gabriela rocha martins [ publicado a 29.05.2008] in o fa@to

As vésperas do mundo

soletro a noite com cristais de vidro limpo, órbitas tensas , coágulos de luz vermelha, os verdadeiros testemunhos da criação inesperada;

as palavras são quase nada

um fôlego solto na garganta expirado deixa passar a marca do rosto de uma só palavra,

não me pergunta por nada

é uma raiz muda , a raiz mais solta

a que ganha o sopro do silêncio como uma planta arrancada,

onde andei com um barco do avesso, e te vi rindo com duas rimas de uma lápide, uma lágrima primeira a outra deixada por ninguém

entregue ao vento , ao sopro fónico do vento, as grandes tempestades dos mares , ao grande voo de pássaros desconhecidos rumo a uma corola de astros, um deles o sol , irmão das nuvens as mais brancas, as mais finas , as que voam sobre farrapos de seda e se vestem como as noivas dos mareantes sempre belas, cúmplices dos exaustos conhecimentos,

não sei eu nada dos meus olhos senão que o mundo empobreceu

as gruas, os guindastes , estradas de céu aberto, glórias parcas desastres ...

não sei nada do ruído que as manhãs trazem nas algibeiras presas

às paredes, a carne solta dos laços na vida rendida na mais profunda ferida que há nuns braços

mas que sei eu , quem de uma janela estende os braços

que sei eu do ar senão linha forte e limpa de um sopro

de um pássaro nocturno que se deixa tolher porque é de luz

de néon e de passos , de sentinelas desconhecidas que prometem sobrevidas agenciando seguros e muitos frutos adiante

nas estações desconhecidas,

nos ventos distantes dos engaços

que sei eu, se a noite traz uma sílaba, e essa seja muda irmã comum

do silêncio, morra estenda os braços , mas só de vida morra só de vida ...

não outro sinal, não há outro sol ou outra lua grande que se sinta nessa sílaba, e espere a salvação , subleve diga sim ao não , desgarre

com as mãos presa ao pão, a única sílaba existente feita de lava, lenha, e água numas mãos puras do linho do fogo e de uma bênção sempre presente, ampliando o grande silêncio da boca audível marca de água.

procuro por um som miúdo uma só letra num muro

que não seja cal, seja já o fogo branco que sai dela,

as centelhas de labareda, um sinal de quem passou

deitou os olhos à lava branca e os prendeu nesse instante,

os colheu depois nas mãos já sem a cor oferecida por paisagens

tão leves, distantes todo o grito fundado nos dias e pausado nos anos

e só por isso recolheu ao mar fundo, ao verde soturno das planícies

e viu junto ao muro a estrela que dá cor à rosa , a tornou transbordante , pétalas de pão crescentes da cor que há nele

a cal, aquele sinal de muro, aquela estrela da cor da rosa que beija

o dia, abre as manhãs de chuva opulenta , cresce com os pássaros sem que eles o saibam e fujam, apenas porque as crianças nas verdes alegrias penduram-se no mundo nas horas sobradas dos recreios ,

esperam uns segundos pela alcateia sonora das campainhas

se entregam à disciplinas muito seguras e mudas, pensando

o tempo das mais próximas brincadeiras, a desafiar as horas e a rosa que é o pão, o lume que é o mais profundo gume que transportam nas mãos cheias sem que arda, queime seja lava e fumo num só segundo;

vão felizes pela beira das ruas, contam livres a liberdade dos seus mundos em que tudo se fez e foi mundo,

não há arco que sobeje no horizonte não há nuvem que poupem à escrita ao desenho inventado de suas mãos, tudo é inquieto tudo aparece ou se esquece , se é vida é vaivém de gente conhecida ou familiar que lhes fala de um futuro maduro como uma rosa ou flor comum voando no ar que nunca poderão apanhar nem brincar
porque o mundo é exacto e mudo


José Ribeiro Marto



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*** ***


O vento


Queria transformar o vento.
Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto.
Eu precisava pelo menos de enxergar uma parte física
do vento: uma costela, o olho...
Mas a forma do vento me fugia que nem as formas
de uma voz.
...
Estava quase a desistir quando me lembrei do menino
montado no cavalo do vento - que lera em Shakespeare.
Imaginei as crinas soltas do vento a disparar pelos
prados com o menino.
Fotografei aquele vento de crinas soltas. (p.27)
*


O punhal

Eu vi uma cigarra atravessada pelo sol - como se
um punhal atravessasse o corpo.
Um menino foi, chegou perto da cigarra, e disse que
ela nem gemia.
Verifiquei com meus olhos que o punhal estava
atolado no corpo da cigarra
E que ela nem gemia! Fotografei essa metáfora.
Ao fundo da foto aparece o punhal em brasa. (p. 37)
*

Miró

Para atingir sua expressão fontana
Miró precisava de esquecer os traços e as doutrinas
que aprendera nos livros.
Desejava atingir a pureza de não saber mais nada.
Fazia um ritual para atingir essa pureza: ia ao fundo
do quintal à busca de uma árvore.
E ali, ao pé da árvore, enterrava de vez tudo aquilo
que havia aprendido nos livros.
Depois depositava sobre o enterro uma nobre
mijada florestal.
Sobre o enterro nasciam borboletas, restos de
insetos, cascas de cigarra etc.
A partir dos restos Miró iniciava a sua engenharia de cores.
Muitas vezes chegava a iluminuras a partir de um
dejeto de mosca deixado na tela.
Sua expressão fontana se iniciava naquela mancha
escura.
O escuro o iluminava. (p. 29)
*

O fotógrafo

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre
as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado,
Preparei minha máquina.
O silêncio era o carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros
In: Ensaios Fotográficos
Rio de Janeiro: Record, 2000
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Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira.
Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

Manoel de Barros
In: O Guardador de Águas
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enviado por Rui Mendes.

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o artista existe pela cintilação do sol

mariah
publicada por mariah ... mas, indecentemente "retirado" de o mar atinge-nos



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Gosto do céu porque não creio que elle seja infinito.
Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?
Não creio no infinito, não creio na eternidade.
Creio que o espaço começa numa parte e numa parte acaba
E que agora e antes d'isso há absolutamente nada.
Creio que o tempo tem um princípio e tem um fim,
E que antes e depois d'isso não havia tempo.
Porque há-se ser isto falso? Falso é fallar de infinitos
Como se soubéssemos o que são de os podermos entender.
Não: tudo é um quantidade de cousas.
Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas.



Poema inédito de Alberto Caeiro, não datado, publicado pelo Público.
Fotografia - Maria Costa



20 junho, 2008

-a metáfora

fotografia de christie
manipulação e composição de gabriela r martins.

O silêncio despido…

Naquele tempo
os dias não eram meus
era inteira em pés de violeta
desfolhando risos ao sul dos pássaros.

corriam asteróides amarelos
sóis a enfeitar o peito
cosendo vértices de areia
planeando o vento nas dunas
os campos floridos e silvestres
era um tempo de espanta espíritos
e aspirinas doces de dormir
pequenas praias se abriam
pequenos moinhos a florescer o vento.
não escravizei o infinito das galáxias
os suspiros roxos da luz
a colher os negros anéis de Saturno

Hoje trago o silêncio despido
um acordeão atropelado
a febre tifóide dos malfeitores da alma.

Graça Magalhães, Primavera 2008
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Os pardais


aparecem na calçada como se atirados de longe
tal é o jacto de sua asa tal é a minha indagação
tal é a brisa do temor

as crianças erguem arcos pela réstia da sombra
convalecescendo na luz irada do sol abrupto
vão aos campos de futebol vão ao jardim de repuxo
vivem com o mar no peito na liberdade do farol
brilham asas como pardais pingando àgua ao sol
são o coração da luz


José Ribeiro Marto , in o longínquo privar dos dias , 2006


19 junho, 2008

Clareiras/Fronteiras


A penúltima estrela ecoa, como uma infindável
Kreisleriana,
nos pianos lunares de Robert Schumann.
Falar de ilusões sempre foi inventar a própria
nudez do coração, o amor em surdina,
quando floresce uma eternidade selvagem,
na ruína despojada, na aludida separação, ruptura,
berço, identidade,
movimento e música, harmonia imperceptível.
Nos antípodas do medo, no corpo, ecoa o perfume,
simbiose de cigarras deslumbradas, despertas
nos fios cutâneos, visíveis nas árvores brancas,
despedaçadas,
trazidas de uma floresta apodrecida de esporos
de vento.
Falar de ilusões sempre foi afastar as máscaras
corroídas, fluir com o ópio da memória,
as mandrágoras do silêncio,
quando a noite irradia a estrela, a lira,
a madrepérola,
designando o cântico da lua misteriosa ,
na nuvem aquática que flutua junto às grutas
e os lagos que serpenteiam argutos,
nas ambiguidades do ser,

amor-perfeito.
Maria do Sameiro Barroso, in "As Vindimas da Noite".

fado da terra


Ó terra, eu vou cantar-te,
Tenho as mãos cheias de ti,
E agora darei parte,
Com maior ou menor arte
Daquilo que descobri.

Estes torrões que seguro,
Fui-os no campo apanhando –
São desse barro maduro
Com que se amassa o futuro
Desta vila de Redondo.

A terra é base da vida,
Sobre ela pomos os pés,
E a gente vai decidida,
Devagar ou em corrida,
Correr mundo lés a lés.

Foi da terra-mãe que vim
E tu vieste também.
A terra criou-me a mim,
E quando chegar meu fim,
Voltarei à terra-mãe.

Deita-se à terra a semente
Num gesto lento, sem pressa –
E quase magicamente
Surge a planta de repente,
E nova vida começa.

Ó terra, ouve meu pranto,
Minha voz desesperada,
De ver os que entretanto
Destroem teu verde manto,
E te trazem maltratada.



Poema de António Simões, in "Fado de Água e Outros"
Imagens de fractais.