16 agosto, 2008
Pastorela
nas ervas devagarinho
se eu de amor adormecer
dêem um balido baixinho
oh campainhas singelas
humildes de tanto trinar
abram um carreirinho
nas ervas muy devagar
se o meu amor passar
no canto de um passarinho
José Ribeiro Marto
13 agosto, 2008
ANCORADOS NA LUZ
O corpo, claro, o corpo;Este meu corpo é que me revela aos outros.
É ele, não há dúvida; toco-lhe apenas
Para comprovar a sua imaterialidade.
Pesa uns quilos ainda, ocupa o seu espaço
Na casa e no mundo.
Tropeçam nele, reparam nele;
Às vezes, há até quem lhe faça uma carícia,
E ele arrulha de felicidade.
A alma, claro, a alma;
Esta minha alma escondida dos outros,
Sinto-a vibrátil sob cada poro da pele;
Vasta como o universo,
Cheia de recantos sombrios,
Vales iluminados,
Carregada de memórias,
Cheiros, sabores e saberes,
Onde ecoa ainda
O grito que eu dei relutante ao nascer,
E o espanto e o encanto de estar vivo
Que me assoma amiúde aos olhos.
A alma e o corpo, isso, os dois:
Um dentro do outro,
Os dois que são um só,
O corpo que apodrece feliz
Dentro da alma,
Diluindo-se nela pouco a pouco.
A alma, isso, a alma outra vez,
Triunfante, definitiva,
Com todas as memórias do que foi,
Com a história do crescer do corpo,
Do amanhecer do amor,
Da emoção, do orgulho de envelhecer
Em sabedoria e ternura,
Para que um dia, ah, um dia,
Possa viver, para sempre, rarefeita, irmã do ar,
Ancorada na luz.
Sento-me no bancoDo pequeno largo –
O vento arredonda
Os meus sobressaltos
E perde-os no ar.
O dia arde ainda na copa das árvores,
Nas asas dos pássaros,
Nos olhos dos velhos
Perdidos no tempo –
Meu corpo é um barco
Ancorado na luz.
Falávamos do tempo –Tocaste-me ao de leve os cabelos
E foste abrindo clareiras para o vento passar;
Perto, uma mulher cantava em surdina,
Num quintal, encostada a um muro de pedras soltas –
O sol do Alentejo cegava-nos as palavras:
O que íamos dizendo sobre o tempo
Escorria-nos agora dos nossos olhos
Ancorados na luz.
12 agosto, 2008
do silêncio
nas tuas mãos bem cheias
pobres são os tempos em que vivemos
sonhamos sorrimos e morremos
os dias esses só são inteiros se houver devassidão
diz os teus versos como segredos
em cofres trémulos como os dedos estão nas mãos
o tempo no qual vivemos é uma casca de trovão negro
um troféu um asco um pulmão pobre uma horda um veneno
José Ribeiro Marto,
11 agosto, 2008
09 agosto, 2008
Morrer Morrindo
Depois, quando a noite caía, acendia-se uma vela. De sete dias. Para um anjo em guarda. A intensidade da chama media a espada. Longa, se intensa; curta, se pálida. Em casos extremos as asas e a espada eram reforçadas pelo éter das almas benditas. "Alma dos inocentes, daqueles que morreram rindo com a boca e os olhos", dizia Benedita, a babá de Mauro, meu irmão caçula.
Morrer sorrindo... Como alguém pode morrer sorrindo? Morrindo? Morrer era então morrir. "Mas só para poucos", Benedita revelava, iluminada pelo tremeluzir frio da vela.
Quando morriu, num casebre perdido na clareira de uma favela, congelou o olhar de esperança e os deixou de herança para os filhos. Um tico de esperança muita. O mesmo tico que Deus deve ter deixado quando morriu para criar o Todo Tudo Possível.
aberta a porta do mar imenso
a minha mão repousa sobre o teu corpo,
e sei que sou mortal.
nada te dou que seja só meu.
ofereço-te sombras sulcando a beleza das coisas
pedras preciosas de barcos e viagens ao sol
reflectidas na prata do tempo.
flutuam nelas a água da minha solidão
e o imponderável infinito
que nos separa.
terás sido outrora uma chama
que se desfez no meu peito em perfume
de rosas
maria azenha
óleo de Joop Frohwein
08 agosto, 2008
QUANDO É QUE O VENTO TE LEVANTA NO AR ?
foto de Pedro Carvalho / Ortigosa, Julho de 2008 Tolhe-te os passos, os voos;
Os braços de chumbo tombam
Para o chão; o penedo da voz,
Sempre que falas,
É duro como granito -
Tudo isso pesa, pesa demais,
Para ascenderes ao alto,
Lá onde as fibras subtis do vento
Tecem os tules, as ténues neblinas
Com que se enredoma a manhã.
Há ainda essas tuas pernas de basalto,
Esse coração pesado de tanta dor,
Os olhos onde as lágrimas
São de lava incandescente
Que te irrompe das entranhas -
Não sabes como irás sobreviver,
Mas talvez ajude a saber
Que aquela que te deixou para sempre,
Aquela cujas cinzas
Espalhaste para dentro da terra,
Está à tua espera numa curva do tempo,
Numa curva do sonho,
Para te levar consigo
Para o prometido regaço dos deuses.
Vá, senta-te à porta da tarde,
E deixa que o rumor das vozes crepusculares
Dos que regressam a casa famintos de ternura,
E os ruídos da terra,
E de todos os seres que se preparam
Para mergulhar na noite,
Te envolvam corpo e alma -
E aligeirando-te essa dor infinita,
Encontres no perfume
Das rosas que perto te inebriam,
O impulso decisivo para que ascendas no ar
E regresses ao amado coração de tua filha.
06 agosto, 2008
Uma coroa no muro
uma coroa de sangue :
- disse alguém –além no muro-
e passou indecisa, não se juntou .
estava tanta gente calada e reunida,
estava tanta gente contida no lodão,
na sombra ramada e escura
na rua
logo na manhã inteira, depois a tarde
alargando ramos e folhas verdes
sobre o telhado, coando o sol...
a árvore dispersou os sonhos da manhã
a coroa de sangue estava no muro
e vinha um bando de borboletas desdobrar asas
no assento branco e vermelho da bicicleta,
nas rodas, nos carretos inquietos, nos pés da criança
a criança rolava e rolava velozmente,
tudo que lhe daria corrida pelo mundo
nos instantes de olhos desviados arduamente
o mundo era pequeno; uma rua, um troço de outra,
meia-avenida, o bastante na manhã
enquanto se velava alma perdida,
a quem ninguém viera
reconhecer os nós dos dedos,
o mais certo sinal que havia na coroa da manhã
espelhada na cal dos muros
e ali jazia pela Liga dos Bombeiros
José Ribeiro Marto
04 agosto, 2008
por ser mentira e verdade

passa mais dentro que fora;
e em minha alma passa nua,
(ela sabe disso e cora);
que eu a dispo com os olhos,
sem que haja lubricidade –
deste modo eu vejo os outros,
(mas disso ela não sabe):
despidos até à alma,
(que é a pele verdadeira);
é assim que a vejo a ela,
mesmo que ela não queira.
e ao passar dentro de mim,
‘té fora de mim perfuma,
por isso cheira a jardim
meu quarto, perto da uma,
que é quando ela se aproxima,
mesmo que seja mais tarde,
por estritas razões de rima,
por ser mentira e verdade;
ao sonhar, quando adormeço,
nesse sonho revelado,
um corpo que desconheço
respira brando a meu lado;
meus dedos tocam-lhe a pele,
e sua alma desnuda
não tarda que se revele
na carne em que se transmuda.
e depois não acordamos,
(talvez nem haja depois),
para sempre aqui ficamos,
nestes versos, casa de ambos,
somos um e somos dois –
03 agosto, 2008
anda meu amor estava à tua espera
anda ver o búzio no rochedo
o som cantado
no sopro da respiração que ao mar é dado
é no seu sal cavado e mudo
que há o coração natural do mundo
anda meu amor ver ali na àgua
ali está um búzio vermelho uma flor
ali corre a àgua cantando como num espelho
a deserção e a mágoa
ali vai sumindo ao violino as cordas
ali se vai tocando de ouro as horas
e se vão juntando hastes da àrvore
que fugiu do barco
e tu ficaste no sono de palavras
para de azul eu te cantar
José Ribeiro Marto











