a usura dos campos a usura daquele campo de tantos campos
um soluço de sangue na paisagem
paro escuto nas paredes brancas as hastes dos lutos dos arbustos
derramados sobre os muros
fujo e que adianta
já cantou uma avezita assanhamento
na lonjura do carro
tudo perdido e a rebater-se nos ouvidos
tudo tanto e menos quem fala aqui
estou só no lés a rés
o trilho velho do pastor da cabra só réstea de tanto sol
o cão vermelho assinalava parando a espaços um latido muito aquém dos nómadas
só sombra
um rapaz trouxe inocência na abertura do postigo da porta
mostrou uma faca nas mãos nuas desafiando dedos
e veio um grito fundo de dentro :
brinca com a caixa azul
a faca brinda-me os calos
brinca com a caixa
respira o búzio repousa no silêncio dos dias
há o mar
lembrava que havia o mar gritava
o grito não podia matar a surdez daquele casulo de mundo
sempre intenso cá fora na corrida do cão adiante da cabra e do velho
o velho parado a cabra andando farta de caminho
o velho de amplo assobio duas chamadas mansas tudo parado
dava voltas de pau inusitado aos arames presos no pneu
no baixio do descampado
depois seguia
seguia um trilho passado e via passado
aquém-nómada aquém- mar aquém- terra
além duas árvores rugindo no esplendor do vento
nas asas dos pardais sobressaltados de retorno e migracões de horas
retorno á noitinha vindo dormir o sono dos trigais
à criança doía-lhe a casa como esconderijo dos dias do tempo
e preso á faca e á caixa do búzio ia a um mar perto ao som longínquo
nas mãos da avó as fotografias comidas pela madeira
a postura de parede os encaixes na moldura
O povoamento do tempo
e a criança tinha os olhos comidos pelos dias feitos noites e crescia na faca uma impressão também de noite muito rente a muita morte a porta fechada e
á loucura da passagem do homem e da cabra
veio um sobressalto e abriu o postigo
sem que a avó lhe gritasse é do tempo
é da mentira do tempo tão conjunta á verdade que se vai unir ao mar
escuta o búzio e distrai-te
José Ribeiro Marto
16 setembro, 2008
15 setembro, 2008
O CANTO PRODIGIOSO
12 setembro, 2008
11 setembro, 2008
Nas mãos acesas

Todas as horas se acenderam naquele tempo
em que os pomares se alinhavam em parcelas
e corriam nuvens de algodão
com a forma de pássaros sobre as árvores
a emergirem das estações.
Queimava
este contentamento
de encher
as maçãs que colhias do peito
e se tornavam laranjas vermelhas
nas mãos acesas
o pulsar no meio dos troncos
o umbigo de alguns mistérios
entre nós
como jamais pudemos imaginar.
Graça Magalhães
Setembro 2008
em que os pomares se alinhavam em parcelas
e corriam nuvens de algodão
com a forma de pássaros sobre as árvores
a emergirem das estações.
Queimava
este contentamento
de encher
as maçãs que colhias do peito
e se tornavam laranjas vermelhas
nas mãos acesas
o pulsar no meio dos troncos
o umbigo de alguns mistérios
entre nós
como jamais pudemos imaginar.
Graça Magalhães
Setembro 2008
TUDO SE DESPRENDE

tudo se desprende
uma pétala de uma comum flor
um selo de uma carta
um risco na data de uma lápide
uma pena de ave passageira
tudo se desprende
um supetão de lágrimas novas
o pó deixado no ar pelo cavalo
no areal de uma clareira
tudo se desprende
um verso de uma folha verde
um sorriso incerto e soalheiro
uma fotografia na folhagem
uma nota musical à margem da página
tudo se desprende
os dedos das mãos abertas
as palmas revoltas
uma pestana dos teus dedos
as minhas mãos nos teus cabelos
tudo se desprende
tudo se desprende
uma pétala de uma comum flor
um selo de uma carta
um risco na data de uma lápide
uma pena de ave passageira
tudo se desprende
um supetão de lágrimas novas
o pó deixado no ar pelo cavalo
no areal de uma clareira
tudo se desprende
um verso de uma folha verde
um sorriso incerto e soalheiro
uma fotografia na folhagem
uma nota musical à margem da página
tudo se desprende
os dedos das mãos abertas
as palmas revoltas
uma pestana dos teus dedos
as minhas mãos nos teus cabelos
tudo se desprende
tudo se desprende
José Ribeiro Marto
10 setembro, 2008
SILICONE METAFÍSICO
Eu queria ser eterna
Como a Marilyn do ventilador
Queria o perfume e o calor
da areia nas coxas
e ser musa de algum pintor.
Não queria os espelhos
Nem a sabedoria anciã.
Queria não ouvir o odioso “senhora”
que o padeiro insiste em dizer todo dia.
Aliás, eu nem queria ir à padaria.
Como a Marilyn do ventilador
Queria o perfume e o calor
da areia nas coxas
e ser musa de algum pintor.
Não queria os espelhos
Nem a sabedoria anciã.
Queria não ouvir o odioso “senhora”
que o padeiro insiste em dizer todo dia.
Aliás, eu nem queria ir à padaria.
Marcia Frazão, Brasil, Setembro de 2008
Obs. Como aniversário sem presente nem bolo não é aniversário, que tal me ler de presente? Amor se Faz na Cozinha, da Editora Bertrand ou Senhoras do Santíssimo Feminino, da Editora Rosa dos Tempos, são dois livros meus que aconselho, numa boa.
Obs. Como aniversário sem presente nem bolo não é aniversário, que tal me ler de presente? Amor se Faz na Cozinha, da Editora Bertrand ou Senhoras do Santíssimo Feminino, da Editora Rosa dos Tempos, são dois livros meus que aconselho, numa boa.
mil luas
( Este é o "protesto" da autora por - ou para - comemorar o seu 57º aniversário. Vida longa à sua Poesia !!! a.m.)
Quatro novos poetas italianos
08 setembro, 2008
07 setembro, 2008
02 setembro, 2008

Dia 5, o povo vai a votos!
‘O homem precisa de ser abraçado’, diz-nos um ex-combatente na província do Huambo, em Angola. Que este grito ecoe pelas cidades, savanas, e pelos sítios mais recônditos, nesse dia e nos dias seguintes... Que este país venha a ser o que nunca foi: um mar de paz e de liberdade.
mariagomes
quando em mim nada houver, imaginai o incenso nu;
a intensidade de um violino a ouvir o sol
na cidade azul dos homens que, como nós, são de corda.
imaginai, meus filhos, o retorno -
uma festa cada vez mais inacessível, alucinada pelo ouro
do ritual da tempestade.
no fim, vivendo uma pedra branca, branca.
mariagomes
23.nov.2005
a intensidade de um violino a ouvir o sol
na cidade azul dos homens que, como nós, são de corda.
imaginai, meus filhos, o retorno -
uma festa cada vez mais inacessível, alucinada pelo ouro
do ritual da tempestade.
no fim, vivendo uma pedra branca, branca.
mariagomes
23.nov.2005
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