19 setembro, 2008

ACASO

acaso

Augusto Mota, in «A Geografia do Prazer», inédito, 2000 ( texto 53, 10.3.1999 )
foto, com manipulação cromática e texturizada, de um ramo de Buganvília (Bougainvillea spectabilis)

AS ASAS

as asas

18 setembro, 2008

-27 de julho de 2008 // ao vicente

assinalo uma folha uma palavra um poema e
disponho.os sobre a mesa..... retiro

o primeiro verso

escrito aquém da bruma..... o poema pressente

o golpe..... grita mutilado..... exige.se
em corpo inteiro

.
.

a chama
esse sopro de genialidade
que o precede no útero materno
estende um braço..... uma mão
dois dedos e
à saída do ventre
abriga o verso

em ritmo doloroso

a forma mais nobre de parir o poema

telas de alfred thompson bricher e arthur quartley.

16 setembro, 2008

Sem costuras a paisagem

a usura dos campos a usura daquele campo de tantos campos

um soluço de sangue na paisagem


paro escuto nas paredes brancas as hastes dos lutos dos arbustos

derramados sobre os muros

fujo e que adianta

já cantou uma avezita assanhamento

na lonjura do carro


tudo perdido e a rebater-se nos ouvidos

tudo tanto e menos quem fala aqui

estou só no lés a rés

o trilho velho do pastor da cabra só réstea de tanto sol

o cão vermelho assinalava parando a espaços um latido muito aquém dos nómadas

só sombra

um rapaz trouxe inocência na abertura do postigo da porta

mostrou uma faca nas mãos nuas desafiando dedos

e veio um grito fundo de dentro :


brinca com a caixa azul

a faca brinda-me os calos

brinca com a caixa


respira o búzio repousa no silêncio dos dias



há o mar


lembrava que havia o mar gritava

o grito não podia matar a surdez daquele casulo de mundo

sempre intenso cá fora na corrida do cão adiante da cabra e do velho

o velho parado a cabra andando farta de caminho

o velho de amplo assobio duas chamadas mansas tudo parado

dava voltas de pau inusitado aos arames presos no pneu

no baixio do descampado

depois seguia

seguia um trilho passado e via passado

aquém-nómada aquém- mar aquém- terra

além duas árvores rugindo no esplendor do vento

nas asas dos pardais sobressaltados de retorno e migracões de horas

retorno á noitinha vindo dormir o sono dos trigais

à criança doía-lhe a casa como esconderijo dos dias do tempo

e preso á faca e á caixa do búzio ia a um mar perto ao som longínquo

nas mãos da avó as fotografias comidas pela madeira

a postura de parede os encaixes na moldura

O povoamento do tempo

e a criança tinha os olhos comidos pelos dias feitos noites e crescia na faca uma impressão também de noite muito rente a muita morte a porta fechada e

á loucura da passagem do homem e da cabra

veio um sobressalto e abriu o postigo

sem que a avó lhe gritasse é do tempo

é da mentira do tempo tão conjunta á verdade que se vai unir ao mar

escuta o búzio e distrai-te

José Ribeiro Marto

15 setembro, 2008

VARIAÇÕES SOBRE UMA FOLHA PRÉ-OUTONAL de LIQUIDAMBAR

Para a Graça Magalhães



O CANTO PRODIGIOSO

Quem o estaria escutando
ao pássaro prodigioso?
Pela janela entreaberta
o canto me chegava
- e subindo no ar,
impregnando-a
da sua breve eternidade,
sustinha a tarde que descia

e enquanto cantasse
era dia

António Simões, 1981 / foto de Augusto Mota, Abril de 2008

12 setembro, 2008

LAMENTO

Para a Fernanda Sal Monteiro


in «A Geografia do Prazer», inédito, 2000 / foto: fernanda s.m.

11 setembro, 2008

Nas mãos acesas


Todas as horas se acenderam naquele tempo
em que os pomares se alinhavam em parcelas
e corriam nuvens de algodão
com a forma de pássaros sobre as árvores
a emergirem das estações.

Queimava
este contentamento
de encher
as maçãs que colhias do peito
e se tornavam laranjas vermelhas
nas mãos acesas
o pulsar no meio dos troncos
o umbigo de alguns mistérios
entre nós
como jamais pudemos imaginar.

Graça Magalhães
Setembro 2008

TUDO SE DESPRENDE


tudo se desprende
uma pétala de uma comum flor
um selo de uma carta
um risco na data de uma lápide
uma pena de ave passageira
tudo se desprende

um supetão de lágrimas novas
o pó deixado no ar pelo cavalo
no areal de uma clareira
tudo se desprende

um verso de uma folha verde
um sorriso incerto e soalheiro
uma fotografia na folhagem
uma nota musical à margem da página
tudo se desprende

os dedos das mãos abertas
as palmas revoltas
uma pestana dos teus dedos
as minhas mãos nos teus cabelos
tudo se desprende
tudo se desprende

José Ribeiro Marto

10 setembro, 2008

SILICONE METAFÍSICO

Eu queria ser eterna

Como a Marilyn do ventilador

Queria o perfume e o calor

da areia nas coxas

e ser musa de algum pintor.

Não queria os espelhos

Nem a sabedoria anciã.

Queria não ouvir o odioso “senhora”

que o padeiro insiste em dizer todo dia.

Aliás, eu nem queria ir à padaria.

Marcia Frazão, Brasil, Setembro de 2008


Obs. Como aniversário sem presente nem bolo não é aniversário, que tal me ler de presente? Amor se Faz na Cozinha, da Editora Bertrand ou Senhoras do Santíssimo Feminino, da Editora Rosa dos Tempos, são dois livros meus que aconselho, numa boa.
mil luas
( Este é o "protesto" da autora por - ou para - comemorar o seu 57º aniversário. Vida longa à sua Poesia !!! a.m.)


Quatro novos poetas italianos



Na sequência da apresentação das Edições Torino Poesia em Paris (La Libreria), Amesterdão (Libreria Bonardi), Lugano (Postate), é agora a vez de Lisboa, no dia 18 de Setembro, quinta-feira, às 18:30.


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08 setembro, 2008

02 setembro, 2008

TEXTO TRANSVERSAL

texto transversal

ULTRAPASSANDO A BARREIRA DE SOM DA POESIA

ULTRAPASSANDO A BARREIRA DE SOM DA POESIA

foto de Pedro Carvalho / Ortigosa, Julho de 2008