08 outubro, 2008

Saudade


Tenho saudades das coisas simples
das férias sobre a areia
e de ver como tu eras
de vento nas falésias
saudades da névoa
no rosto das manhãs

de brincar aos deuses de areia
na luz das noites marinhas
de abraçar as gargalhadas
a doer o eco da casa
onde vive efémero um rosto
que não habito.

Já não há mãos que falem comigo
e nada me parece humano
de tão divino
e volto a desistir
a ser só poeta
por isso vejo tudo
o que parece
e é como se cada imagem
pudesse escrever uma nascente.

Graça Magalhães, Outubro 2008

06 outubro, 2008

05 outubro, 2008

UM PÁSSARO NO JARDIM CESÁRIO VERDE

ao meio dia o relógio suspende a hora
no jardim Cesário Verde ouço alegria
é um pássaro insisto nas suas penas
quero inscrevê-las na minha retina antiga
onde outros florescem e ninguém os vê


sei-lhe o nome na paisagem e na árvore
sei-lhe o voo as rotas as inquirições da tarde
sei do pouso em que se acosta o sol em que perdura e arde


e todos os pássaros são aquele
que canta e prolonga o seu cantar pelo dia

é verde por entre a quietude da folhagem vermelha e amarela
canta o dia canta alegria de estar por entre os segredos
o nome não o digo pode morrer
haverá solicitação papel atento
máquina fotografia o perigo à espera
haverá querer apagá-lo basta a fonte de um ouvido

o pássaro pode morrer no nome pronunciado
de o soletrar de o dar a ouvir
por isso o ouço em silêncio desinteressado
não o pronuncio não o digo

o pássaro continua a cantar no meu silêncio
e canta canta
é um cantar de vidro
e é toda a minha infância no cantar dele
que a minha pele chega a doer
ao sol do meio dia

José Ribeiro Marto

O Olhar da Distância


Para Fiama Hasse Pais Brandão
e Maria Teresa Dias Furtado


As barcas partem sempre novas, renovadas.
No fôlego que habitou a noite,
a errância expandiu-se, talvez se expanda ainda,
sob as ondas que gritam mais alto
o sussurrar do vento.

Na sumária distância, a retina regista pausas, letras,
frutos e raízes que a serenidade transporta,
porque a amizade bebe as suas águas,
no silêncio sagrado,
bálsamo luminoso que mitiga a dor,
em seus lagos perenes, em seus laços incólumes.

Sobre relógios aquáticos, flutua um rosto,
uma mulher, o seu nome é fábula,
o seu olhar, talhado nos versos da natureza,
paira nas florestas,
onde os pássaros cantam ainda a noite antiga.

No labor oculto, o destino tece, destece,
sob o olhar que escurece,
as recordações recolhem a água, o rosto,
o mundo, o seu sorriso,
e o olhar de Medeia aparece, impresso

no coração das folhas rubras.

Maria do Sameiro Barroso


-mikel arrazabalaga.

03 outubro, 2008

brandas águas bebi de olhos abrasados;
sepultei o pranto,
sepultei a súplica, o sopro, a música
e o mar…

todo o espaço é alvo, todo o céu
aguado.

mariagomes
30Set, 08
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01 outubro, 2008

IV Jornadas Aquilinianas


fotos de arquivo - Matilde Rosa Araújo e Aquilino Ribeiro

IV Jornadas Aquilinianas - 10 e 11 de Outubro de 2008

Solar do Vinho do Dão, Viseu

O Centro de Estudos Aquilino Ribeiro (CEAR)promove nos dias 10 e 11 de Outubro de 2008, no Solar do Vinho do Dão, junto ao Fontelo em Viseu, as IV Jornadas Aquilinianas
ERA UMA VEZ!... HISTÓRIAS DE ESCREVER E DE CONTAR - dedicadas à Literatura Infantil.


O dia 10 de Outubro, 6ª feira, está reservado às crianças!
O Solar do Vinho do Dão transforma-se numa casa de histórias com diversos contadores, merendinhas e oficinas criativas!


O dia 11, sábado, será dedicado aos adultos, com diversas comunicações sobre o mundo da Literatura Infantil, e em que faremos uma justa homenagem a Aquilino Ribeiro e a Matilde Rosa Araújo.

Matilde Rosa Araújo e o filho do escritor Aquilino Ribeiro, Eng. Aquilino Ribeiro Machado, também estarão presentes neste dia.



Sílvia Laureano Costa
(Centro de Estudos Aquilino Ribeiro)

29 setembro, 2008

O REPOUSO DAS TESOURAS VINDIMEIRAS

O REPOUSO DAS TESOURAS VINDIMEIRAS
foto de Cristina Pires / Douro, Setembro, 2008

27 setembro, 2008

O QUE ESTÁ ESCRITO NAS ESTRELAS

O QUE ESTÁ ESCRITO NAS ESTRELAS
Capa do álbum (29,7 x 21 cm)
De JOSÉ CARLOS FERNANDES - consagrado autor de Banda Desenhada, que faz parte de uma nova geração de autores preocupados com uma acção mais interventora junto dos leitores, ao problematizarem temas e problemas que hoje afligem o corpo e o espírito da sociedade - foi publicado em Março deste ano, este belo álbum, que não é de BD, antes, nas palavras do autor, em jeito de auto-apresentação, "um horóscopo de assombroso rigor científico".
Na página da esquerda, com um sabor gráfico dos velhos almanaques, está sempre um pequeno texto, de pura criação literária, dedicado a um mês; à direita, a ocupar totalmente a página, a respectiva ilustração, servida por um traço sóbrio e cores despojadas, mas de forte impacto visual, acabando todo o conjunto por acentuar, ainda mais, o carácter intrigante das palavras.
É uma extraordinária viagem verbal e icónica através de todos os meses dos [Anos I & II] da intemporalidade. Os textos são peças de uma original mini-ficção, que, umas vezes correm nas margens da poesia, outras nos levam rio abaixo, na corrente impetuosa e subliminar das palavras, ao denunciarem uma vivência crítica da nossa própria existência.
Um livro a não perder, porque sai das margens da nossa minguada e repetitiva cultura paroquial.
Augusto Mota
Texto da contra-capa
Texto da contra-capa
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Ilustração do mês de Setembro, Ano II
texto SETEMBRO
Texto do mês de Setembro, Ano II

"Mulher e Eu". Entrevista e Exposição de Maria João Franco

Maria João Franco
"Mulher e Eu"
>Cartaz das Artes<



Entrevista a propósito da exposição
MULHER E EU
MAC-Movimento Arte Contemporânea
Lisboa
Cartaz das Artes TVI
pela jornalista
Filipa Faria

ESCREVENDO

sinto-me dentro da possibilidade de um poema e não há aqui ave ou pássaro a almejar liberdade, sou eu que voo sem a retórica dessas figuras, sou o que é maduro e periférico à luz dessas palavras

contra os muros também, essoutro reflexo vário , onde se diz sempre branco ou de pássaros nus

esse espaço de papel, onde se inscreve uma àrvore frondosa ou despida, nunca desgrenhada, arco de metal ardente, barco derrubado nas águas, nunca

a provir ao mesmo

hoje pontuo a respirar , só o parco , nunca o exultante, não há nada a esgrimir

avesso sou ao efeito agramatical, assintáctico , à sevícia do ornamento, à palavra de pedra, jogo de louros imperfeitos , comandos freáticos de linguagem, purga frenética distensão eléctrica

às vezes a rima solta, um respirar de ar, muito linguajar coeso, não toca.

é-me a roça de um cutelo o gesto preferido do talhista,

o que recomenda, talha, balança, embrulha , se refaz no troco e no assobio,

falo da carne morta, não da viva do Outono

de uma figura de retórica pululante como um enxame de cogumelos

na árvore , junto à base do estremeção de luz ou magro medo.

a paisagem apruma-se, afeiçoa os olhos aos quadrados dos canteiros,

as flores cintilantes não são nomeadas, são só flores

as àrvores são àrvores e todas nos talham na mesa antes da gaze ou do sopro higiénico

de um soluço periférico

não há, rareia o espaço para o fumo, a cerimónia é cada vez mais limpa

o corpo é cada vez mais cinza porque não lhe falhou prazer

porque não se desfez em artifício laboral, não foi prega

não foi adorno, véspera inquieta, dia ancestral , luz, mas poalha inaugural

sinto-me dentro da possibilidade de um poema e tudo o que respiro é sideral

ar , casas , tantas casas , asas muito altas sem salvação de esferas ,tudo na poética,

perfeitas armadilhas de mundo a várias cores e agora há que imaginar os seus tons a sua palavra difícil, o seu improvável calor

digo que não basta uma fonte e um bolero de arrebique , um torneado de vozes e das mesmas palavras

é Outono, gosto de romãs , sempre gostei de romãs e de marmelos só selvagens irradiando cor por entre as hastes verdes , vidros de garrafa

é Outono no calendário por que o Verão anda por aí a nomear-se,

anda por aí nos espelhos em frente, olhados dia a dia,

olhados do lado da vida, cheios de rumo indiferentes ao cascalho, ao lagarto que hiberna com o corpo cheio de luz áspera, mas diferentes na irrectidão de uma curva,

da luva , um segredo alheio, fazendo-se de renda e mealha , falta-lhe o orvalho, a cor é preto vivo , o pingo nasce de uma manhã

igual a tantas outras , irrepetível, e tudo o mais que de um momento é rimático, dizível

vivo no silêncio, mas talho-me de palavras crio-as na abundância para me calar

e a sós com elas me dizer ...

sinto-me na possibilidade de um poema e na espera de qualquer fruto sonolento do verão estelar macio do calor dos dias e de espera


José Ribeiro Marto


25 setembro, 2008

o mundo, Sofia

( a minha neta)


é teu o mundo, Sofia.
são teus o sol, a lua e o vento.
é tua a concha da canção do entendimento,
na fogueira, que fixa os olhos dos bichos, acesos,
na possibilidade da fábula nascida de palavra verdadeira.
é tua a planície, é teu o monte, é tua a flor que sorri à pedra,
são teus os pássaros voados no azul que medra, à passagem única
da música que se vê inteira. e será tudo, intimamente teu, Sofia, quando os olhos
da noite, repletos, projectarem sonhos de água no espelho do teu nome, em sabedoria.


mariagomes
21,jun.03



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Carta a Meus Filhos

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estropiados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.


JORGE DE SENA
(1919-1978)

"Fusilamentos", Goya.

23 setembro, 2008

Canção de Outono

foto:fernanda s.m.

Canto o meu amor por ti
quando no céu aparece
a estrela rara da manhã
e tudo o mais desaparece


Canto o meu amor por ti
tão quente ainda o sono
tanto mais de mim por ti
luz e inquieta no outono


Canto a manhã nos olhos
o sabor a fruta madura
canto o que o sol aquece
e insolente são perdura


Canto alegrias fugazes
no céu de nuvens da manhã
canto o que em mim desperta
o simples brilho da romã


José Ribeiro Marto


22 setembro, 2008