28 outubro, 2008

Agora percebo.

foto: Augusto Mota
É fácil suicidar
a porta de madeira
com o brinco de cristal
nalgum rosto de Lisboa
no mercado ou na catedral
onde a beleza não mora
nos nenúfares de Teresa

sorrio enfim
dentro da madrugada
sou um feixe de areia
uma estória algodoada
perdi a consistência da poeira
a razão dos líquidos
a procura das mãos
sobre a memória.

Agora percebo.

Graça Magalhães, Outubro 2008.

FLOR DA SAUDADE

Flor-da-saudade

Flor da Saudade ( Armeria welwitschii ) - foto de Augusto Mota

O nome Flor da Saudade foi dado a esta planta por Afonso Lopes Vieira, no seu conhecido poema "Pinhal do Rei", in «Ilhas de Bruma», 1917. Segundo a "Flora Digital de Portugal", da responsabilidade da UTAD, o nome vulgar desta planta é Erva-divina, ou Raiz-divina, sendo uma espécie endémica no litoral centro de Portugal, entre o Cabo Mondego e Cascais.
Esta foto foi obtida na duna primária, a norte do farol de S. Pedro de Moel, em frente da Praia Velha, mesmo ao lado da Estrada Atlântica.

PINHAL DO REY

Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e se esconde
e aonde ecoando a cantar
se alonga e se prolonga a longa voz do mar,
ditoso o Lavrador que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
Rei Dom Dinis, bom poeta e mau marido,
lá vem as velidas bailar e cantar.

Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu
a música do Longe e o ritmo da distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do oceano, e aonde a maresia
ameiga e dissolve a bruma
e em penumbras de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudosos fremem...

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar ?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.

Pinhal de heróicas árvores tão belas,
foi do teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossas caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhes deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a terra e olhando os novos astros,
ó gótico Pinhal navegador,
nas naus erguida levando
tua alma em flor na ponta alta dos mastros...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar ?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que grande saudade, que longo gemido
ondeia nos ramos, suspira no ar.

Na sussurrante e verde catedral
oiço rezar a alma de Portugal:
ela aí vem, dorida, e nos seus olhos
sonâmbulos de surda ansiedade
no roxo da tardinha,
abre a flor da Saudade
;
ela aí vem, sozinha,
dorida do naufrágio e dos escolhos,
viúva de seus bens
e pálida de amor,
arribada de todos os alens
de este mundo de dor;
ela aí vem, sozinha,
e reza a ladainha
na sussurrante catedral aonde
toda se espalha e esconde
e aonde ecoando a cantar
se alonga e se prolonga a longa voz do mar...


in «Ilhas de Bruma», 1917.

Poema transcrito, como fixado, da «Fotobiografia de AFONSO LOPES VIEIRA», da autoria de Cristina Nobre, edição Imagens&Letras, Leiria, 2007.

27 outubro, 2008

Democracia


«A bandeira fica bem à paisagem imunda, e o nosso patoá abafa o tambor.
Nas metrópoles nutriremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.
« Nos países aromáticos e sem têmpera! – ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.
« Aqui, e onde quer que seja, está tudo lixado. Conscritos de boa causa, será feroz a nossa filosofia; para o saber, uns ignorantes, para o bem-estar, uns espertalhões: para a marcha
Do mundo, implosão garantida. Este, o verdadeiro sentido da marcha. Em frente, toca a andar!»



« Le drapeau va au paysage immonde, et notre patois étouffe le tambour.
« Aux centres nous alimenterons la plus cynique prostituition.
Nous massacrerons les revoltes logiques.
» Aux pays poivrés e détrempés! – au service des plus monstrueuses exploitations industrielles ou militaires.
« Au revoir ici, n’importe où. Conscrits du bon vouloir, nos aurons la philosophie féroce; ignorants pour la science, roués pour le confort; la crevaison pour le monde qui va. C’esta la vraie marche. En avant, route!»



Arthur Rimbaud
In O rapaz raro
Tradução Maria Gabriela Llansol
Edição Relógio de Água


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Izithembiso Zenkosi - Various Artists

25 outubro, 2008

E nunca me disseram...

E nunca me disseram a pérola
ao fundo daquele oceano
a longitude do linho
no rosto das mulheres
como seriam os lugares do frio
no outro lado das palavras

o âmbar da pele

as pirâmides de papel

onde nada
nada
está intacto
na escuridão do cristal.

Graça Magalhães, Outubro 2008

o porte do pastor muchilengue

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«Era um menino que gostava do mato mais do que gostava de brincar com outros meninos. Para ele, fascinantes, eram as florestas que havia do outro lado do rio, as aves que viviam nas suas árvores copadas e os bichos que deixavam na terra os rastos que sabia seguir e que lia melhor que os livros em que os pais lhe ensinaram a ler. E o menino teve um amigo chamado Twakala, um caçador muchilengue que lhe ensinou os mistérios das matas e as encantadas magias que são também seus segredos e quando Twakala um dia partiu ele ficou sem ninguém para poder partilhar muitos outros segredos, mesmo o segredo em que se tornou o desgosto que depois aumentou por saber que Twakala não iria voltar dessa terra para onde o levaram. Com esse desgosto o menino cresceu. Sem Twakala as matas pareceram fechar-se envoltas em densos mistérios e assim correu algum tempo para o menino encontrar em última a coragem que o fizesse passar da margem do rio que já era dos homens para as terras que ainda eram dos bichos.»

'A Morte e a Sorte'

Autor: Fernando Santos
Editora: Quetzal
Extraído de 'O citador www.citador.pt



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24 outubro, 2008


por que me procuras nas lágrimas do sol?
em si, ele é o novíssimo meneio da saudade
- sem remos a envelhecer os rumos.

por que me deixas, só, entregue a seus cuidados,
sem cais, sem ver partir as velas?


mariagomes
23out.2008

20 outubro, 2008

regressa o outono

Estames de uma Açaflor, ou Açafrão-verdadeiro (Crocus sativus)
foto: Augusto Mota

regressa o outono às nossas mãos
e mais uma vez é preciso aprender a desnudez,
o amor do ouro,
o gesto antigo da luz nos plátanos da voz,

abrir a sua incendiada rosa
em cada iluminado mês

maria azenha

19 outubro, 2008

Escrevo no vento.

Pinheiro-serpente / Pinhal de Leiria - foto: Augusto Mota

Sublimando fantasmas

Volto a estalar
a estima suspensa
num baile de agulhas.

Sobre cordéis de sol
esconde-se a brisa
no sorriso das lâminas
e há palavras cortantes
como o vento nas montanhas
onde rugem as florestas
enraivecendo
o tecido estranho dos dias.

Escrevo no vento.
E vou-me nascendo
Em cada incêndio.

Graça Magalhães

Outubro, 2008

18 outubro, 2008

Lisboa Revisitada

.
.
.
estrangeiro em lisboa, venho aqui para descobrir
bach nas avenidas novas e algumas mulheres sentadas
nas escadinhas do duque. esta é uma cidade odiosa, de tão branca
que é – e suja, sempre a lembrar-me do que devo esquecer
neste rio sem naus, mas cafres insuperáveis. o certo
é que durmo na travessa dos fiéis de deus, com frio, e agastado pelos
ruídos da praça, enquanto tu, camões, pareces impassível à arruaça
e na tua sereníssima imanência nem dás pela promiscuidade citadina.
odeio, abomino esta gente que não me olha nos olhos, e tem, 
abertamente, um linguajar de réptil, sem matriz, catedral, 
solenidade: anda na rua como se fosse cega e acresce ao desvario um 
esbulho de luz incoincidente com a minha, intratável, entoação
nortenha, que, talvez, ao antónio barahona não destoe, já que pede 
por nós em grego, e aramaico, e árabe. lisboa, a estas horas, nem 
sabe o que é chuva, água, tejo – ocupada nas compras e sem novas de 
ulisses, ou das barcas, vibra de cheiros maus pelas vielas, que o fado, 
de alguidar e faca, mais arrevesa do que sabe aproveitar.
como viver aqui me é desconcerto e acirra a vontade de morrer: vejo 
este pessoa de bronze à porta dos cafés, a ser contaminado por uma 
freguesia tão absoluta e primitiva que lembra o estado novo, que 
vomito, vomito como um corvo.
se por este caudal viesse, ao menos, o cesário, talvez transfigurasse a 
aversão em poema e o sarcasmo alinhasse na rua do trombeta algum 
montante de ternura avulsa. mas não. eu até em telheiras não estou 
bem, esse lugar de múltiplos desgostos, onde perdi, além do amor, 
um cão, um cão quase redentor. ah, lisboa: hoje, às três e meia, vai 
pelo mundo uma promessa de orgasmos pela paz universal e de ti 
nada se espera, alheada que estás das coisas transcendentes, com a 
cauda entre as pernas e o olhar sem olhar o horizonte, onde uma 
virgem seminua de novo dançaria para ti,
se merecesses, ou a chulice encartada não prevalecesse. tivesses tu 
coragem e ias a s. bento queimar o molho aos torvos que, para seu 
governo, nos andam a tramar, ou viravas a mesa, ou partias a louça, 
desterro nosso sem qualquer desterro.
serias, por uma vez, implacável, a fazer corpo com o futuro, em 
nome do que vale, sem misérias ocultas e esperança justa. mas não. 
tu só te agastas pelo que é inútil,
com poesia melíflua do quotidiano e centros comerciais a liquidar 
enigmas estúpidos. olha as pontes, lisboa. olha, lisboa, os teus 
subúrbios. há mais beleza na pedreira
dos húngaros, ou nas arribas de cacilhas, que tudo em volta do 
castelo, salvando-se, talvez, pelo sortilégio, são domingos e as 
paredes calcinadas, vítimas de um terramoto, onde eu, às vezes, vou, 
não para falar com deus, que não existe, mas para apreender
um pouco mais de bach, na parte que lá mora, e ver, ao alcance da 
mão, outras mulheres sentadas. é pena que o bocage, lisboa, cá não 
esteja: cansado da bicheza, por certo encorajava diogo alves a 
regressar do enforcamento para dar continuidade às obras
de limpeza a que deu início com a quadrilha, ali para o aqueduto, 
para acabar de vez com a cidade branca, deserta, a matar à nascença 
os távoras que pode, ou quem resiste. pergunto pelo almada e venho 
vê-lo a alcântara, ao cais de embarque, à margem de belém e os seus 
pastéis, de nata e presidência: apaziguam-me mais estes painéis,
de alvoroçada partida e descoberta, que uma ida à gulbenkian, ou ao 
príncipe real, se bem que nos seus jardins a noite se suspenda e um 
sortilégio vele, entre os ligustros, a noite imensa. mas o almada não 
era de lisboa, tal como não era o botto,
(ou o herberto, a natália: gente de ilha/ gente de quilha, digo eu,
que também fui concebido numa ilha do porto, e se quisesse não, ah, 
não enlouquecia), tal como não são de lisboa os habitantes de lisboa,
ou nós, artistas desta hora, que, não sendo de alguma parte, vamos 
da graça a alfama
com o coração apertado, num vinte e oito que nunca tem destino.
ah, que desgraça não sermos de saturno, que desgraça a nossa 
transcendência não ir além da gare do oriente e ter que estar sujeita
a um restelo de velhos e furores adolescentes, sem génio nem 
remoque, mas sempre, e só, tormenta. é que
de adolescentes nem é bom falar: à luz do lampião, eu vejo-os pelos 
bares a cair de bêbados, sem mãe que lhes acuda, ou tirocínio, que o 
mais que sabem é exctasy e shoots, assim, em inglês, já que ler e 
escrever no idioma de que são lhes passa a milhas, no caso 
americanas: as jeans puídas e os cabelos soltos, que não vêem sabão 
vai para semanas, a beneficiar, sem que o suspeitem,
o neo-liberalismo, são o sem sentido de uma rebelião
sem turbulência, manada para abate um dia destes. e quanto a 
velhos, estamos conversados: a vetustez de oitocentos anos, nem para 
os sapatos mija,
ou desfeiteia viúvas, de pátria ou sordidez. ah, lisboa, nem o putedo 
infrene dos teus becos é valia que baste. eu, que não sou cliente, 
atrevo-me a dizer
que não há puta mais repugnante que a puta de lisboa, sendo lisboa
a puta desgrenhada que se vê, que nem um bom mergulho purgaria
ou, ainda que por empréstimo, poria algum feitiço langue, ou 
dengue, ou o que fosse. mulher sentada que valha em lisboa é, tal 
como eu, estranha a estas paragens:
falo de uma eslava que conheço, que é bela como a planície 
alentejana, assim como são belas as cabo-verdianas que se sentam na 
relva para que o esplendor coaja – coaja
e ponha em marcha – a indizível matéria do desejo. um poeta cai no 
seu campo electromagnético e é como se entrasse no mar ou no 
regaço de um sonho onde a canela, a mandrágora e o rábano picante 
se reunissem para um manjar de deuses, irrecusável. detestável 
lisboa, que posso mais dizer para contrariar-te, mesmo a pagar 
imposto, com e sem valor acrescentado, além da derrama? desde que 
o fialho de almeida se foi que os teus gatos, lisboa, são ramelas 
andantes, a comer do próprio vomitado,
sem miados à lua e cenas langorosas nos telhados, a incentivar 
amantes. há, é claro, as coisas do botelho, onde tu, lisboa, talvez 
não por acaso, apareces vazia no retrato,
sem notícia do ajuste de contas necessário com os cobradores de 
impostos, as raparigas de cabeças ocas, os rapazinhos lúbricos dos 
ginásios que se enfeitam para os rapazinhos lúbricos dos ginásios, as 
matronas do chá, que enfermiços canídeos arrastam pela trela,
os homens de negócios, cinzentos, como sempre, a traficar crianças e 
assassínios, e os cônsules, os tribunos, os pretores, e até com os sem-
abrigo, que dormem nos portais e perderam, entre tudo o que há 
para perder, a clareira após o abandono.
há, é claro, esse secreto adeus do baptista-bastos, a enredar real na 
realidade e a viajar por uma deriva ignóbil, nas ruas da amargura, a 
fazer do obsceno obra acabada, como só pode ser o que é do homem. 
há, é claro, o gomes leal, o o’neill,
ou o cardoso pires, com anjos escarlates a tremeluzir nos céus, por 
pura limpidez de sensualidade e ancoragem terna. mas tu, lisboa, 
não podes entender a aristocracia que há no povo, não podes crer no 
poder da arraia-miúda proto-contemporânea,
nem mereces o vítor silva tavares, a congraçar a emenda e o soneto, 
sem mais tristeza possível que a dos barcos atracados no cais das 
colunas, agora inexistente, pelas obras do metro, a nova santa 
engrácia. melhor fora, lisboa, que fosses moura, ainda, e que às 
trindades se não ouvissem sinos, mas o sumptuoso grito do 
almuadem. ouvindo o chamamento, sabendo que a cotovia convocava 
à oração, ias, por fim, lavar-te.
e, assim, lisboa, talvez fosses o brilho verdadeiro de que brilhas 
ao sol, como uma ave – muita branca por fora, muito negra, por dentro.
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Amadeu Baptista 
(Poema lido pelo próprio aquando da apresentação dos seus 3 últimos livros - na Fábrica Braço de Prata e na Fnac do Chiado, Setembro/2008).
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A Outra Cidade - Ritsos

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Há muitas solidões cruzadas — diz — em cima e em baixo
e outras no meio; diferentes e semelhantes, forçadas e impostas
ou como que escolhidas, como que livres — mas sempre cruzadas.
Mas, no fundo, no centro, há apenas uma solidão — diz;
uma cidade vazia, quase esférica, sem quaisquer
anúncios luminosos multicores, sem lojas, sem motocicletas,
com uma luz branca, vazia, brumosa, interrompida
por centelhas de desconhecidos semáforos. Nesta cidade
habitam desde há anos os poetas. Caminham silenciosos de braços cruzados,
recordam factos imprecisos, esquecidos, palavras, paisagens,
estes consoladores do mundo, sempre inconsolados, perseguidos
pelos cães, pelos homens, pelos vermes, pelos ratos, pelas estrelas,
perseguidos até pelas suas próprias palavras, ditas ou não ditas.
.

Giánnis Ritsos. "Antologia."
.
Selecção, Tradução e Prefácio de Custódio Magueijo.
.
Fora de Texto, Coimbra, 1993, p. 91.
.
(abraço da mt)

Herberto Helder


O novo opus de Herberto Helder, A Faca não Corta o Fogo – súmula & inédita (Assírio & Alvim).
Eis três dos poemas inéditos do livro:


a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
¿e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se a vara enflorasse com as faúlhas,
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
¿tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda

*

aparas gregas de mármore em redor da cabeça,
torso, ilhargas, membros e nos membros,
rótulas, unhas,
irrompem da água escarpada,
o vídeo funciona,
água para trás, crua, das minas,
tu próprio crias pêso e leveza,
luz própria,
levanta-os com o corpo,
cria com o corpo a tua própria gramática,
o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilação, abalo,
que Deus funciona na sua glória electrónica

*

rosto de osso, cabelo rude, boca agra,
e tão escuro em baixo até em
cima a linha
de ignição das pupilas
¿em que te hás-de tornar, em que nome, com que
potência e inclinação de cabeça?
o rosto muito, o ofício turvo, o génio, o jogo,
as mãos inexplicáveis,
a luz nas mãos faz raiar os dedos,
que a luz se desenvolva,
e a madeira se enrole sobre si mesma e teça e esconda a obra
e retorne e abra e mostre então
a abundância intrínseca,
porque se eriça num arrepio e se alvoroça
o espaço, e brilha quando,
no dia global,
espacial, no visível,
o caos alimenta a ordem estilística:
iluminação,
razão de obra de dentro para fora
— mais um estio até que a força da fruta remate a forma


enviado por Rui Mendes.

_________________________

há sol por entre nuvens, bocados anelantes, recortados fios disformes,
laços esvoaçantes,curvas de linho,deslizes leves ,pregos de fogo brancos.

passa avião zumbindo alto, rasga horizontes,tremem casas
desregram-se saltos esfuziantes, vibram montes,escorrem águas.

tu não sabes que rasgão dar na melancolia,
que prazo lhe conceder, que margem,
tu não sabes quem grita, o que soluça,o que lhe sobra do dias
não sabes por que se lhe levantam as horas,
se repelem os calendários, por que faz as coisas inúteis e vazias.

por que se distanciam os olhos num toque de imprecisão,
porque não te chegam as horas por que andam por que vão.

corro pela chuva,chegou Setembro com uma tapuana ainda verde,
chegou com o sol de intervalo, marítimo, desfolhado, outonal,
chegou no ápice do vento num mergulho fresco e denso,
no torso de fuga de um cavalo submerso de chuva,
ei-lo nas palavras fugidias, no fulgor, expande-se, dura
cavalgando ao alto o freiolume, de salto em salto
na cidade semi-escura,incendiada de gente
a murmurar corrente,ainda enxuto fugindo.

sei que chegou o Outono com uma rima amarela nas tapuanas,repito
sei que trouxe um poema intenso
com palavras hoje horas, amanhã águas beijadas.

vives no descaso com o intenso
com o que perdura, excede ,cresce , o que se ergue e breve permanece
como árvore à minha altura.


José Ribeiro Marto