09 novembro, 2008

as pousadas

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pousadas
no calor no estio
no pesado manto agostino
entre verdes ou areias
recortadas
pousadas sós
ou acompanhadas
repousos de esforços
e caminhadas
enleios de luas
enamoradas
pousadas.
cristalinas, de mármore
ou dengosas
amplas, estiraçadas,
preguiçosas,
recobradas ao sol
ou virilosas
nas lonas, urbanas,
com sais, a meias,
rurais, plebeias
em gangas,
majestosas
onde os francos flancos da argila humana
adoçam o sal
perfilam rosas
pétalas ternas
as duas
— quando pousadas —
as duas pernas.
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maria toscano.
"monumentos e outras obras públicas: TOP 12 + " in Portugalito. Palimage, 2002.

06 novembro, 2008

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Sou um olho. Um olho mecânico. Eu, a máquina mostro-vos o mundo de um modo como só eu posso vejo. Liberto-me hoje e para sempre da imobilidade humana. Estou em constante movimento. Aproximo-me e afasto-me dos objectos. Rastejo debaixo deles. Movo-me colada à boca de um cavalo a correr. Caio e levanto-me juntamente com corpos que caem e se levantam. Isto sou eu, a máquina, manobrando entre movimentos caóticos, registando um movimento após o outro, nas combinações mais complexas.
Liberto dos limites de tempo e de espaço coordeno cada um e todos os pontos do Universo onde quer que eu queira que eles se encontrem. O meu caminho conduz à criação duma nova percepção do mundo. Assim explico de uma nova forma o mundo por vós ignorado"

Dziga Vertov *, realizador russo, 1923


Denis Arkadievitch Kaufman*
(Polônia - 1896 - União Soviética - 1954) Muito jovem ainda Vertov começa a escrever poemas e estuda música durante quatro anos. Com 19 anos começa a estudar medicina, na mesma época em que cria o "laboratório do ouvido" onde registra e monta ruídos de todo o tipo com um velho fonógrafo Pathéphone. É também nesse período que muda seu nome para DZIGA - palavra ucraniana que significa roda que gira sem cessar e VERTOV - do russo vertet que significa rodar, girar. Também se declara futurista, muito influenciado por Maiakovski.

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05 novembro, 2008

a resignação vem com a cegueira dos sentidos

Buganvília
Grande plano de uma bráctea de Bunganvília (Bougainvillea spectabilis) com duas flores.
Foto de Augusto Mota
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no dia em que me esqueça desse Maio
com o qual me conformei a ser da terra
desde onde me insurjo, casa térrea
e brasa,
donde me ergo
inclusivé,
quando o sei
no dia em que me não lembre jamais
do braseiro do braço a mim abraço
do conforto endiabrado em cintura
colo carmim ancas de suco. mel
virilha assim no dia
em que de vez
perca a memória dos líquidos tais
dos acres e dos outros leites
mansos
no dia em que talvez nem o artigo
iluda forças convexas e as de concha
no dia em que tudo seja banal
o cheiro da almofada, o pó da sala
a cinza com cigarros que recuso
o copo onde bebemos
a saudade
o lençol resguardando as apetências
e uma volta na chave que vou dar
nesse dia sem sombras
pois sem luz
banhado pela cegueira dos sentidos
asseguro-te:
podes, por fim, esperar
de mim
a resignação.
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maria toscano,
Coimbra, 6 /Nov/2008

TEXTO TRANSVERSAL

textos transversais 66

Que os dias prolonguem

Sumaúma-bastarda
Sementes da trepadeira Sumaúma-bastarda (Araujia sericifera) - foto: Augusto Mota

A pernoitar
a fala das palavras
que os dias prolonguem

a flor da saudade

o plâncton nas galáxias

os pássaros de fósforo
anunciando o espírito dos risos

e se entrelacem para destruir o vazio
e o ar todo se possa bordar
de rosas na penumbra
pulsões nocturnas
relâmpagos líquidos
em seu fulgor

ao longo da estrada
se esconde esta árvore
possivelmente
ao nosso encontro
o lilás reluz
os caminhos do céu algures
onde as lágrimas abordam os rios
E nunca mais voltam.

Graça Magalhães, Novembro 2008

04 novembro, 2008

UM SÓ VERSO

Serra
Serra da Estrela / Covão da Ponte - foto de Nuno Verdasca

Só de um verso, falo de um só verso, uma palavra
essa palavra anda dispersa e o verso anda à guarda


Só de uma palavra, creio numa só palavra para um verso
um verso de uma só palavra, a mais buscada


a que não cabe inteira numa mão aberta
a que corre por um nada e anda de luz a cantar o universo
a que murmura e se estende, a que voa e não se prende


uma só palavra, um só verso, uma palavra

a que é barco, sonho solto,rasgão de sol numa parede
a que deram a cor de azul
a que deram a cor da carne
a que é feita de àrduo mundo
eu a procuro nesta tarde

José Ribeiro Marto

TEXTO TRANSVERSAL

02 novembro, 2008

Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica 2009

Maria do Sameiro Barroso venceu a edição portuguesa do “Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica 2009" com "Uma Ânfora no Horizonte" entre os 86 originais concorrentes.
Este prémio, no valor de 2500 euros, instituído pela Câmara Municipal de Vila Real de St.º António, numa parceria com o Ayuntamiento de Punta Umbria e a colaboração de Sulscrito – Círculo Literário do Algarve, prevê ainda a publicação, em edição bilingue, da obra vencedora.
O júri do concurso recomendou ainda a publicação do original "Labirintos Cruciais"de Paulo Renato Cardoso.

Maria do Sameiro Barroso nasceu em Braga, em 1951. É licenciada em Filologia Germânica e em Medicina e Cirurgia, pela Universidade de Lisboa. Exerce a sua actividade profissional como médica, Especialista em Medicina Geral e Familiar. Fez a sua estreia literária em 1986, tendo sido incluída no Anuário de Poesia da Assírio & Alvim. Tem os seguintes livros de poesia publicados: O Rubro das Papoilas, Rósea Litania; Mnemósine; Meandros Translúcidos; Amantes da Neblina e Vindimas da Noite. Tem colaboração em antologias e em revistas literárias. A partir de 2001, a sua actividade alargou-se à tradução e ao ensaio, e, desde 2002, à investigação na área da História da Medicina.
Maria do Sameiro Barroso é ainda responsável pela organização das antologias Um Poema para Ramos Rosa e Um Poema para Agripina, recentemente publicados pela editora Labirinto.

Wanya - Escala em Orongo recebeu o Premio Juventude no FIBDA


É com enorme prazer que anunciamos o prémio que Wanya - Escala em Orongo recebeu ontem no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora.
O Prémio Juventude foi recebido por Maria João Franco, viúva de Nelson Dias e artista plástica, que esteve em representação do mesmo e também de Augusto Mota, autor do texto, cujas palavras aqui deixamos:

"o valor do álbum está no valor do grande desenhador que foi o Nelson Dias, sendo o meu texto, apenas, o possível guião metafórico para a época de opressão que, então, se vivia e fico muitíssimo satisfeito por mais esta merecida distinção ao trabalho do artista, que vem na sequência de outras homenagens que, de vários quadrantes, recentemente, lhe têm vindo a ser feitas. " - Augusto Mota.
Vejam [também] aqui a notícia .


01 novembro, 2008

ENCANTATÓRIA DO OSSO

«buscar-te até ao osso»
: mentira
porque a carne
só a tua carne me alimenta
o osso é uma desculpa
e quando digo: «amar-te até ao osso»
é porque tenho redondel na garganta seca
farto de te procurar no falso espectro da carcaça
enlouquecem as gengivas enroscadas na tua carne
quero-te num beber triunfal
enunciar múltiplos afogamentos no sangue esplêndido
esquadrinhar anatomias
irritar sílabas do corpo nossos corpos
domesticar a boca na planície
o mais selvagem possível
convidar sonos e adormecer na sangria dócil
da natureza
mas também ouvir-te falar do osso filosofal que perfuma
a mais vermelha das muitas carnes
e aí sim
recupero sentidos da limpidez mineral do osso
e procuro-o como coisa última que levo para a cama
com os dentes já enxutos
da tua linfa

[desenho e poema de Porfírio Al Brandão]

28 outubro, 2008

Agora percebo.

foto: Augusto Mota
É fácil suicidar
a porta de madeira
com o brinco de cristal
nalgum rosto de Lisboa
no mercado ou na catedral
onde a beleza não mora
nos nenúfares de Teresa

sorrio enfim
dentro da madrugada
sou um feixe de areia
uma estória algodoada
perdi a consistência da poeira
a razão dos líquidos
a procura das mãos
sobre a memória.

Agora percebo.

Graça Magalhães, Outubro 2008.

FLOR DA SAUDADE

Flor-da-saudade

Flor da Saudade ( Armeria welwitschii ) - foto de Augusto Mota

O nome Flor da Saudade foi dado a esta planta por Afonso Lopes Vieira, no seu conhecido poema "Pinhal do Rei", in «Ilhas de Bruma», 1917. Segundo a "Flora Digital de Portugal", da responsabilidade da UTAD, o nome vulgar desta planta é Erva-divina, ou Raiz-divina, sendo uma espécie endémica no litoral centro de Portugal, entre o Cabo Mondego e Cascais.
Esta foto foi obtida na duna primária, a norte do farol de S. Pedro de Moel, em frente da Praia Velha, mesmo ao lado da Estrada Atlântica.

PINHAL DO REY

Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e se esconde
e aonde ecoando a cantar
se alonga e se prolonga a longa voz do mar,
ditoso o Lavrador que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
Rei Dom Dinis, bom poeta e mau marido,
lá vem as velidas bailar e cantar.

Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu
a música do Longe e o ritmo da distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do oceano, e aonde a maresia
ameiga e dissolve a bruma
e em penumbras de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudosos fremem...

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar ?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.

Pinhal de heróicas árvores tão belas,
foi do teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossas caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhes deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a terra e olhando os novos astros,
ó gótico Pinhal navegador,
nas naus erguida levando
tua alma em flor na ponta alta dos mastros...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar ?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que grande saudade, que longo gemido
ondeia nos ramos, suspira no ar.

Na sussurrante e verde catedral
oiço rezar a alma de Portugal:
ela aí vem, dorida, e nos seus olhos
sonâmbulos de surda ansiedade
no roxo da tardinha,
abre a flor da Saudade
;
ela aí vem, sozinha,
dorida do naufrágio e dos escolhos,
viúva de seus bens
e pálida de amor,
arribada de todos os alens
de este mundo de dor;
ela aí vem, sozinha,
e reza a ladainha
na sussurrante catedral aonde
toda se espalha e esconde
e aonde ecoando a cantar
se alonga e se prolonga a longa voz do mar...


in «Ilhas de Bruma», 1917.

Poema transcrito, como fixado, da «Fotobiografia de AFONSO LOPES VIEIRA», da autoria de Cristina Nobre, edição Imagens&Letras, Leiria, 2007.