22 novembro, 2008

FOTOPOEMA

in «os nomes infinitos do ser», "Pé de Página Editores", Coimbra, 2002.
na foto: Grinalda-de-noiva (Spiraea cantoniensis)


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21 novembro, 2008

FOTOPOEMA


Poema 30, in «Lavrar no corpo das algas», edição "Palimage", Coimbra, 2008.
foto de um fruto de Cornus capitata, arbusto dos Himalaias..

AINDA NÃO ERA

ainda não era voo, rasgão a fogo azul de vento, mármore de chão,

verde na folhagem esparsa, fumo ardente, incisão de tábua ,

prego em brasa, olhar ausente,

era só fruto roxo do sono dos dias de parcas águas

ainda não era descanso de narceja marítima de sal e penas terreais,

ainda não era cinza de cobre vibrante, início de lume do tempo,

goma presa às mãos nos areais,

era só árvore dispersa orgulhosa de não se ver por entre as demais

eram anéis de fogo os frutos ainda vivos, por entre as hastes, na dispersa folhagem

só cantaram, dançaram esses frutos no vento, o sol sempre no seu brilho pendular

por entre as folhas e hastes na madurez estival,

onde esquecidas de onde em cada um, chorava seu pingo o mel adiantado,

o mel maduro, o leite ainda seguro do tronco vibrante e carnal

havia a loba atlântica do ar, a loba de seiva dava-se a uma boca absoluta,

os moscardos do longe convocados esgrimiam asas de ouro apartadas,

ainda eram os frutos de unidade ameaçada sob os soluços do mundo,

os riscos do sol , a brevidade das tardes, o mel do luto maduro

daquela árvore , forca ancestral, loba vadia maré dos impolutos

só, sem sombra de passagem de forasteiro ou de animal veloz ,

era só relâmpago, estilhaço de vidro frio e vermelho aquela árvore

longe do olhar , sagrada de se elevar do chão ao ar,

e de noite se contentar com o uivo dos cães que tremiam de luz

esperavam , desertavam de manhã ainda a uivar a loba do mel,

a dos frutos despedaçados como setas no negrume escondido

de um coração vibrátil, irrequieto e de lutos numa janela de água pouca,

era quase mundo num voo de estorninhos,

procurando lugar onde nada ameaçasse uma noite azul de luz

por entre árvores de porta e telhados feitos de rubi, ainda eram os cães

o som do mundo

e ao longe , era o silêncio entre as hastes frustes derrubadas na melancolia dos arbustos

era só um nome, um desastre fundado numa ilha , o sol pungente irradiava lonjura

no limbo crescente da cadela no areal , o cadela do meio-dia ,

o chão frugal de latidos, o chão prodígio

erguidos cachos de nuvens davam esperas,

pressentiam juízos,

era só uma figueira irmã separada dos trigos

que vivia só e dispersa, sabiam os frutos à mãe loba atlântica

a que dava leite verde , a que dava leite maduro a que conhecia as provações

dos frutos sozinhos soalheiros e enxutos



José Ribeiro Marto

20 novembro, 2008

A Rosa de Sharon



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óleo de Margarida Cepeda




e eu que aprendi quase tudo e nenhuma coisa
sobre a vida e sobre a morte
sobre os rostos que me rodeiam
e alguns deles me atiraram pedras ao coração

quando à luz da noite me deito
extasiada pelas chamas do fogo
que me consumiram as mãos
já não sinto dor:
estou dentro dos teus olhos.

faço parte dessas longas chamas
como de uma confidência
esperando que apareça o outro Sol
e não pergunto ao mendigo como se sente
nem ao cego como vê nem ao que não anda
porque ficou na estrada
eu própria me converto no mendigo e no cego
e no que ficou preso aos seus próprios pés.

por isso sonho descobrir todas as estrelas
que me cairam do firmamento
e faço parte como vós dos raios da aurora
das cores imensas do arco-íris e do vento
das montanhas e das serras
dos ecos e das visões
dos misteriosos rios que passam pelas aves e pelos homens
do desfile admirável das formigas
que me arrancaram as lágrimas e agora correm
como tesouros guardados na terra em areia húmida

desejo ver-me reflectida nos olhos das crianças
contemplar a minha irmã palmeira que voou da minha infância
para ficar aqui junto a vós no meio da página
onde vamos explodindo todos juntos na poeira

tudo isto sinto quase ninguém vê
e não pergunto nada
de cada encontro guardo um tesouro
e devolvo-o porque se mudou para o nosso comum destino
ao vaguearmos pelas praias com seus antigos náufragos

e o que encontrei é como um pássaro antes do amanhecer
a Rosa de El Sáron que não conhece Ocaso

inclinando-se a teus pés no aroma mais doce



Maria Azenha

18 novembro, 2008


UM PÉ NO PAPEL


sob a hora translúcida
no ar um dia
a flor revelará a animalidade do sonho
nos seus órgãos, na sua escabrosa essência
amedrontando o ser de espuma
a fugir da saliva

uma nuvem amarela nesta hora o ar intacto
ar que o pânico meridional enrijeceu
avesso aos brônquios duma manhã crepuscular
uma nuvem como longa-metragem ionizada

se um homem decide clarificar a sangria do sol
experimentando visões do grande incêndio
sabe à partida que deverá amar o escuro
e libertar-se nele incondicionalmente

«uma floresta resplandecente sobre o cinzeiro»

ao vê-la desdobra-se na ascensão rápida da ideia
músculo do sonho e corola da flor
também o fumo se criva pelo crepúsculo

um pé no papel ● a página pelos joelhos

designa «floresta» o que vê este homem
de vento os gestos e o porquê das mãos
experimenta o exílio gasoso da palavra
o pé soluça e verbaliza a vontade
o corpo cai e instrumentaliza o sonho

porque a palavra trará nova seiva
e essa seiva invadirá velhas raízes
porque essas raízes irrigarão outras vontades
que se acenderão no mesmo bolbo

ele veste o silêncio ● a flor abre-se no escuro

Porfírio Al Brandão
[Painting, Francis Bacon, 1978]

17 novembro, 2008

FOTOPOEMA


in «Na memória dos pássaros», I parte, poema 24, "Palimage Editores", Viseu, 2006
na foto: Erva-canária (Oxalis pes-caprae)

12 novembro, 2008

algum dia virá que seja natal entre os nós altíssimos do deserto

algum dia desflorará o poema da justiça que se preveja
nas palavras que se fizeram por dentro

e eu criança ainda cante aquém
e o meu canto coincida com o rubro das rosas que desliza.

mariagomes
Coimbra, 1Jan.2006

11 novembro, 2008

10 novembro, 2008

11º .em contr'[m]ão - o carnaval em veneza

tentou identificar.se nos olhares das mulheres
com que se cruzou
não foi capaz
nunca foi capaz de jogar pelo seguro
sempre preferiu o jogo perigoso
à facilidade servida em bandeja
hoje
arrependia.se do baralhar de cartas


...... encontrou.se algures no trajecto da aventura e
foi inventando mundos
...... aos poucos
foi aprendendo a substituir a realidade que
não lhe servia e
o mundo foi.se tornando
cada vez mais pequeno
o coração deixou de segui.la e
tudo começou a soar a falso

.................. o jogo da arbitrária mentira

...... continuou a manipuladora do charme
com que ganhou projectos
sorrisos
abraços
ficou nua
e
riu.se
senhora da carta
guardou o ás de copas para a última jogada
havia aprendido
com os profissionais da vida
a jogá.la quando tudo e
todos menos esperassem

...... foi lançando gestos
palavras
sons
imagens que não eram suas
criando fantasias
deixando a realidade cada vez menos clara
nada
a prendia ao dia a dia
foram os seus projectos que levantaram casas
...... foi a importância do não ser
que a fez correr de cidade em cidade
de abraço em abraço
de vida em vida
a misturar
como certas
as amizades encontradas

os papéis começavam a inverter.se

...... foi difícil reaprender
o que lhe haviam imposto
como verdades absolutas
ao longo dos anos

tudo não passava dum imenso bluff

a sua vontade
foi o fruto
seco
de tudo e todos
o medo
a fantasia despida no dia a seguir ao carnaval
a máscara ruiu e
veneza regressou

.................. sereníssima





-vladimir clavijo

gabriela rocha martins.

09 novembro, 2008

as pousadas

.

pousadas
no calor no estio
no pesado manto agostino
entre verdes ou areias
recortadas
pousadas sós
ou acompanhadas
repousos de esforços
e caminhadas
enleios de luas
enamoradas
pousadas.
cristalinas, de mármore
ou dengosas
amplas, estiraçadas,
preguiçosas,
recobradas ao sol
ou virilosas
nas lonas, urbanas,
com sais, a meias,
rurais, plebeias
em gangas,
majestosas
onde os francos flancos da argila humana
adoçam o sal
perfilam rosas
pétalas ternas
as duas
— quando pousadas —
as duas pernas.
.
.
.
maria toscano.
"monumentos e outras obras públicas: TOP 12 + " in Portugalito. Palimage, 2002.

06 novembro, 2008

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Sou um olho. Um olho mecânico. Eu, a máquina mostro-vos o mundo de um modo como só eu posso vejo. Liberto-me hoje e para sempre da imobilidade humana. Estou em constante movimento. Aproximo-me e afasto-me dos objectos. Rastejo debaixo deles. Movo-me colada à boca de um cavalo a correr. Caio e levanto-me juntamente com corpos que caem e se levantam. Isto sou eu, a máquina, manobrando entre movimentos caóticos, registando um movimento após o outro, nas combinações mais complexas.
Liberto dos limites de tempo e de espaço coordeno cada um e todos os pontos do Universo onde quer que eu queira que eles se encontrem. O meu caminho conduz à criação duma nova percepção do mundo. Assim explico de uma nova forma o mundo por vós ignorado"

Dziga Vertov *, realizador russo, 1923


Denis Arkadievitch Kaufman*
(Polônia - 1896 - União Soviética - 1954) Muito jovem ainda Vertov começa a escrever poemas e estuda música durante quatro anos. Com 19 anos começa a estudar medicina, na mesma época em que cria o "laboratório do ouvido" onde registra e monta ruídos de todo o tipo com um velho fonógrafo Pathéphone. É também nesse período que muda seu nome para DZIGA - palavra ucraniana que significa roda que gira sem cessar e VERTOV - do russo vertet que significa rodar, girar. Também se declara futurista, muito influenciado por Maiakovski.