03 janeiro, 2009

A águia derramando asas sobre a terra

1

a águia fere de voo o ar

está cativa no Inverno



a águia ferra o ar

anda ferida a planar



a águia expulsa o sol

anda voando no desterro



a águia no brilho do sol

baila suspensa



a águia traz luto no voo

não anda perdida acena



2

o sol é errante e esculpe esferas

traz desalinho ao voo



a águia de fuzil nos olhos

ergue-se a planar o mundo

ninguém está só



os destroços vão caindo

o mundo espera

a águia derramada sobre a terra



eu sei

não são as florescentes pombas

são bombas



chora uma criança entre o fumo

pede água

plana a águia derramando asas sobre a terra



José Ribeiro Marto

Rumo


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Jutta Schär



A solidão
segue agora o seu caminho
sem nós.


Gonçalo Salvado


A PROPÓSITO DE POESIA INÚTIL

foto de Augusto Mota


Uma página de LABIRINTO LÓGICO
(a propósito de poesia inútil)


Na poesia tudo é permitido se o poeta se sabe, de verdade, integrado na sua época e tem para com o tempo a lucidez suficiente e necessária. Efectivamente, se não consegue ser temporal, não é actual, pois não interessa poesia intemporal de génios universais, mas sim poetas instrumentos de uma evolução mutável e localizada, que na localização compreendida como universalidade no campo do humano reside o verdadeiro génio.
Que um poeta morra com o seu tempo, mas que tenha contribuído para construir os alicerces sãos da sua época. Que maior utilidade na criação?
Escrever é fácil, tão fácil como beber, como amar ou como passear. Fácil, porque indispensável à vida completa, porque membro de um corpo que só se atinge sendo completamente lutador. E o poeta tem de ser lutador para ter interesse.
Vamos pois até à medula, destruamos, se necessário, os palácios mentais que nos precederam, mas, sobretudo, vivamos livres como a magnífica matemática das estrelas: da vida.
E não é difícil ser actual, simplesmente, esta posição implica mais do que o conhecimento imediato social e do que a vontade de ser actual. É indispensável saber-se modificar o meio até ele próprio estar de acordo com a realidade justa. O habitual não é óbice à evolução-revolução, pelo contrário, é instrumento que a favorece.
Assim, o poeta pode satisfazer ao «meio» poético, sem que por isso necessite de se ausentar (ainda que a diversão esteja na moda).
Não podemos pois aceitar a inutilidade na poesia, a não ser que sejamos inúteis.

António Augusto Menano
in página literária "Pinhal Novo" 7, «Região de Leiria», 19 de Julho, 1962

MURMÚR(I)OS

Foto de Carlos Fernandes
Murmúr(i)os

De pedra, cimento armado, arame farpado ou rede electrificada, ergue-os a infâmia de quem mais pode, impedindo a passagem a quem mais precisa, contra o Direito e a Humanidade. Muros. Murros no estômago dos desventurados, a quem apenas se ouvem débeis murmúrios.
O de Berlim caíu enfim. Outros se vão, a pouco e pouco, desmoronando. Mas, todos os dias, outros se vão edificando. Na Cisjordânia, no Sahara ocidental, na fronteira sul norte-americana ou nas profundezas de todo o homem que queira vedar o passo a outro homem.
Muros, murros, murmúrios...

Passa o vento leste
P'la cidade amuralhada
E não quer entrar

É na planície sem muros
Que mais gosta de dançar

Carlos A. Silva
2 Janeiro 2009

31 dezembro, 2008

Receita de Ano Novo

Para você ganhar um belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanhe
ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade (1902 –1987)

TEXTO TRANSVERSAL

textos transversais 72

poema do velho ano novo


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óleo de Joop Frohwein



pena é que o amor seja lembrado só nestes dias
e que dele se fale com abundância quando a chuva cai agora
e ainda há muito frio e as guerras se aceleram
ao fechar do livro do velho ano,
para nos dizer que houve pelo menos um dia de tréguas
e acabe tudo como principia depois da neve.

pena é que só agora viva a magia de um colar de pérolas
com sua métrica e nostalgia de luz alumiando as trevas das ruas.
alimentamos o canto insonoro dos homens sem memória livre
cobrindo as mãos com o silêncio dos injustos .
e voam como mariposas da paisagem de Gaza
as romãs de sangue que floriram a toda a hora.
fazem parte do soar das doze badaladas,
quer tu queiras ou não.

não sei a quem pedir mais Paz no frágil cântaro do tempo,
reparto contigo o vinho e o pão que a terra deu este ano.

na rua silenciosa dormem os cães e os mendigos
sem uma côdea de sonho para os próximos dias do ano novo.
mais tarde adormecem na almofada macia os rostos da anestesia
no terrorismo da jaula dos dias.

pela indiferença morremos.
pela diferença somos ainda poucos
e caminhamos sobre as ondas do mar chorando para dentro dos olhos
a terra inteira


maria azenha


30 dezembro, 2008

rumi: say i am you (sufi poem)


.
com votos de um 2009 pleno de oportunidades, entre os desafios certos que aí estão,
mt

28 dezembro, 2008

TEXTO TRANSVERSAL

textos transversais 71

Santuário

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poema - maria azenha
imagem - Daphnia

Africana

Foste a madrugada inocente,
A espera verde
Onde o fogo do teu Sol descera
Para beijar-te.

Foste a pureza da selva,
A seiva que regou a terra dos imbondeiros,
Onde a luz irradiou, feliz, do teu bronze,
Ao encontro das coisas que te amavam
Com seu olhar.
E dançavas, livre como teus seios,
Ao som do batuque.
E sonhavas sem ser preciso sonhar!

Mas, um dia, eles chegaram...
E te fizeram escrava.
Violaram-te
E venderam o teu corpo, amarrado,
Como coisa de mercado.
Mataram os teus amores,
E os teus beijos secaram.

Depois engravidaste
Com a dor da tua raça,
E o sémen que recebeste
Deu-te a alma que geraste.
Ninguém a pode comprar!
Ninguém a pode vender!

Mas é preciso sonhar...
Tens de aprender, outra vez,
Porque agora é preciso!
Mesmo que seja a lutar
De flecha, fuzil ou canhão.
E um dia amanhecerás,
De novo,
Com teu Povo,
Com teu Povo pela mão!

*
fotografias de arquivo da guerra colonial (nambuang)
poema de Sérgio O. Sá, in VERSOS NA GUERRA - VERSOS DE PAZ, 1971.

24 dezembro, 2008