um sol de buganvílias descendo num beiral ou muro
um canto lento piado dos pássaros de companhia
não vem pela luz conhecer as horas cantar o dia
dóis-me na hora em que passa o metropolitano
com gente pendurada nos sacos a caminho das repartições
com um sorriso esquecido ou morto nos bolsos
com um canto de ouro entre os dedos
e uma navalha de linho acesa num jeito de procissões
dóis-me por segundos muitos minutos muitas horas
dóis-me quando murmuras cobras gastos ao tempo ´
e por dentro um lobo uiva lamentos e faminto
estuda mapas corre ventos analisa usurpações
dois-me estás só
és sensível ao privilégio de deuses e senhores
sorris pelos teus direitos que vivem esquecidos
entregas de riso falho uns cuidados de penhores
sabes que um silêncio de morte te ameaça entre os vivos
e o que é vivo é pouco
talvez as pombas da cidade irradiando asas brilho
talvez uma mulher sonolenta e de voz áspera
te assista no cômputo da idade
dóis –me pelo clarão de luz à noite na cidade
pelas sombras dos monumentos pelo eco dos passos de caminho
por um comboio malquisto repetindo percursos
alguém escultando bolsos haveres menores gestos inconclusos
a cidade cresce com a dor que te aquece
sabe-se vento podre rio de lixo combinação de números
galgos sinais de luxo avareza sombria e de porte vazio
dóis-me não conheces as rotas da cidade o seu peso de metal e ferro
as árvores de rios verdes incendiadas de gelo
augurando primaveras e tu vais com o teu sorriso de peixe na água
os teus olhos a coberto de umas velas
o tempo é uma miríade de hieróglifos
pousados no teu rosto indecifrável sem anjos de salvação
sem uma queda de água de uma buganvília florescendo
nas mãos por que é Setembro
um mês de sépia no deserto dos teus cuidado
JOSÉ RIBEIRO MARTO








