22 janeiro, 2009

19 janeiro, 2009

condição

Augusto Mota - «Reabilitando a máquina de sombras»
Pintura a guache e tinta da china, 38,5 x 32 cm,1960.

deixemos no alguidar das mãos as palavras
nada é possível escrever
o espaço é uma grande máquina de sombras e
o poema uma miragem de letras
não sei o que é estar fora de ti
não posso escrever os meus gritos
no ofício cantante das magnólias
não escrevo luz

imagino - te um barco de diferentes maneiras e
caímos do alto de uma montanha

entrego todos os beijos ao campo quântico



maria azenha


18 janeiro, 2009

o vazio





assumo o vazio de um texto
digno de génios

















fotografias de rattus.

17 janeiro, 2009

Declaro-te um rio

Relvado do jardim protegido do granizo pela copa de uma
conífera ornamental do género Chamaecyparis.
Foto: Augusto Mota

Esta é a neve maior
e eu chamo.
Declaro te
pássaro que me invade
como relâmpago
desarrumo estrelas nos olhos
onde flutuam sais de fogo,
como quem vê passar
um êxtase de silêncio
um traço de pele
unindo as mãos ao corpo
a boca ao interior dos lábios
o céu dentro de um vestido
flutuam indícios sobre o peito
desarma-se a tremura
nessa forma sublime
Um rio
Intensíssimo de bátegas
onde tudo acontece
fitas coloridas
vermelho ardente
o fascínio da pedra
onde se grita
um ponto de luz.

Graça Magalhães

15 janeiro, 2009

poesia visual . fractais



fotografias de autores não identificados
edição de gabriela rocha martins

ode a Fernando Pessoa



Tu que tiveste o sonho de ser a voz de Portugal
tu foste de verdade a voz de Portugal
e não foste tu!
Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal.
De verdade e de feito só não foste tu.
A Portugal, a voz vem-lhe sempre
depois da idade
e tu quiseste aceitar-lhe a voz com a idade
e aqui erraste tu,
não a tua voz de Portugal
não a idade que já era hoje.
Tu foste apenas o teu sonho de ser a voz
de Portugal
o teu sonho de ti
o teu sonho dos portugueses
só sonhado por ti.
Tu sonhaste a continuação do sonho português
somados todos os séculos de Portugal
somados todos os vários sonhos portugueses
tu sonhaste a decifração final
do sonho de Portugal
e a vida que desperta depois do sonho
a vida que o sonho predisse.
Tu tiveste o sonho de ser a voz de Portugal
tu foste de verdade a voz de Portugal
e não foste tu!
Tu ficaste para depois
e Portugal também.
Tu levaste empunhada no teu sonho
a bandeira de Portugal
vertical
sem pender pra nenhum lado
o que não é dado pra portugueses.
Ninguém viu em ti, Fernando,
senão a pessoa que leva uma bandeira
e sem a justificação de ter havido festa.
Nesta nossa querida terra onde ninguém
a ninguém admira
e todos a determinados idolatram.
Foi substituído Portugal pelo nacionalismo
que é a maneira de acabar com os partidos
e de ficar talvez partido de Portugal!
mas não ainda talvez Portugal!



Portugal fica para depois
e os portugueses também
como tu.


José de Almada Negreiros
(ilha de s.Tomé, 1893-1970)

14 janeiro, 2009

12 janeiro, 2009

Dóis-me

Buganvília (Bougainvillea spectabilis) - foto de Augusto Mota
.
dóis-me quando soluças um mar vago negro de sussuro
um sol de buganvílias descendo num beiral ou muro
um canto lento piado dos pássaros de companhia
não vem pela luz conhecer as horas cantar o dia

dóis-me na hora em que passa o metropolitano
com gente pendurada nos sacos a caminho das repartições
com um sorriso esquecido ou morto nos bolsos
com um canto de ouro entre os dedos
e uma navalha de linho acesa num jeito de procissões


dóis-me por segundos muitos minutos muitas horas
dóis-me quando murmuras cobras gastos ao tempo ´
e por dentro um lobo uiva lamentos e faminto
estuda mapas corre ventos analisa usurpações

dois-me estás só
és sensível ao privilégio de deuses e senhores
sorris pelos teus direitos que vivem esquecidos
entregas de riso falho uns cuidados de penhores
sabes que um silêncio de morte te ameaça entre os vivos

e o que é vivo é pouco
talvez as pombas da cidade irradiando asas brilho
talvez uma mulher sonolenta e de voz áspera
te assista no cômputo da idade

dóis –me pelo clarão de luz à noite na cidade
pelas sombras dos monumentos pelo eco dos passos de caminho
por um comboio malquisto repetindo percursos
alguém escultando bolsos haveres menores gestos inconclusos

a cidade cresce com a dor que te aquece
sabe-se vento podre rio de lixo combinação de números
galgos sinais de luxo avareza sombria e de porte vazio

dóis-me não conheces as rotas da cidade o seu peso de metal e ferro
as árvores de rios verdes incendiadas de gelo
augurando primaveras e tu vais com o teu sorriso de peixe na água
os teus olhos a coberto de umas velas

o tempo é uma miríade de hieróglifos
pousados no teu rosto indecifrável sem anjos de salvação
sem uma queda de água de uma buganvília florescendo
nas mãos por que é Setembro
um mês de sépia no deserto dos teus cuidado

JOSÉ RIBEIRO MARTO

O Ovo e a Galinha de Clarice Lispector

11 janeiro, 2009

é por isso que estamos todos

Fungo poliporáceo (Piptoporus betulinus) - foto Augusto Mota

e se fez ao mar das eleições com seus barquitos
barqueiros barcarolas e malditos
em dias de recessão e a pátria mínima
não obstante o magalhães p`ros pequenitos

- ó petiz! passa-me o rato,
quero ver a chuva cair dentro de ti!

a cidade não é mais para ninguém
a não ser para o parlavento
não sou hórus nem ísis nem osíris
não combinei nada com o BES
nem com cristo nem com o cezariny
nem lanço redes de pesca ao arco íris

neva de alto a baixo no meu país
está muito frio no coração do Tejo

só sei que nada sei disseram-te
e é por isso que estamos todos
com uma rosa morta diante dos olhos



maria azenha



07 janeiro, 2009

TEXTO TRANSVERSAL

textos transversais 73

FOTOPOEMA

Photobucket
Poema e foto: António Simões / Arranjo gráfico: Augusto Mota

poema das mil mãos

Aqui a sombra do céu é de sangue
e as nuvens infectadas por negros arcanjos.
A morte legou os seus últimos resíduos
e mil homens se levantam do aroma da noite.

Escreveremos ainda o poema das mil mãos
em bandeiras de Paz
no peito dos meninos que não viram o sol.

A menos que nos roubem o ar e o fogo e a água
partiremos em busca das humildes mães de Gaza.


maria azenha

05 janeiro, 2009

DE REPENTE

na casa da minha infância ouço passos de anos
cá dentro espreitam as janelas as árvores e um balouço
a dar à corda com a tábua do assento
para lá e para cá
numa mingua qualquer de vento

não sei olhar senão por um olhar fundo de câmara lenta
sentindo o calor das sombras de hastes inseguras
sentindo as árvores folheando ao tempo

só o silêncio pressinto

nem um cão ladra não há passagem de ninguém
nem de outro bicho ou de outra gente

mas há uma fotografia que se completa tão longe
tão nítida na folhagem do arvoredo doce de descanso
chego a mim e não dou pelo meu rosto

inclinado para o passado com uma trégua com o movimento escrito
com os meus olhos perdidos no balouço
ainda ouço um grito um enorme grito de espanto
eu ando e vagueio por aí e estou distante


José Ribeiro Marto

04 janeiro, 2009

fotografia de John Kolesidis ( Reuters)

photo by John Kolesidis





Os mortos já não precisam de política
porque a política dos mortos
é terem morrido por uma política.

Esta política é para os vivos.


Carlos Cardoso

( Moçambique, 1951/ 2000)