

III Bienal de Poesia do Concelho de Silves
deixemos no alguidar das mãos as palavras
nada é possível escrever
o espaço é uma grande máquina de sombras e
o poema uma miragem de letras
não sei o que é estar fora de ti
não posso escrever os meus gritos
no ofício cantante das magnólias
não escrevo luz
imagino - te um barco de diferentes maneiras e
caímos do alto de uma montanha
entrego todos os beijos ao campo quântico
maria azenha
Tu que tiveste o sonho de ser a voz de Portugal
tu foste de verdade a voz de Portugal
e não foste tu!
Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal.
De verdade e de feito só não foste tu.
A Portugal, a voz vem-lhe sempre
depois da idade
e tu quiseste aceitar-lhe a voz com a idade
e aqui erraste tu,
não a tua voz de Portugal
não a idade que já era hoje.
Tu foste apenas o teu sonho de ser a voz
de Portugal
o teu sonho de ti
o teu sonho dos portugueses
só sonhado por ti.
Tu sonhaste a continuação do sonho português
somados todos os séculos de Portugal
somados todos os vários sonhos portugueses
tu sonhaste a decifração final
do sonho de Portugal
e a vida que desperta depois do sonho
a vida que o sonho predisse.
Tu tiveste o sonho de ser a voz de Portugal
tu foste de verdade a voz de Portugal
e não foste tu!
Tu ficaste para depois
e Portugal também.
Tu levaste empunhada no teu sonho
a bandeira de Portugal
vertical
sem pender pra nenhum lado
o que não é dado pra portugueses.
Ninguém viu em ti, Fernando,
senão a pessoa que leva uma bandeira
e sem a justificação de ter havido festa.
Nesta nossa querida terra onde ninguém
a ninguém admira
e todos a determinados idolatram.
Foi substituído Portugal pelo nacionalismo
que é a maneira de acabar com os partidos
e de ficar talvez partido de Portugal!
mas não ainda talvez Portugal!
Portugal fica para depois
e os portugueses também
como tu.
José de Almada Negreiros
(ilha de s.Tomé, 1893-1970)
e se fez ao mar das eleições com seus barquitos
barqueiros barcarolas e malditos
em dias de recessão e a pátria mínima
não obstante o magalhães p`ros pequenitos
- ó petiz! passa-me o rato,
quero ver a chuva cair dentro de ti!
a cidade não é mais para ninguém
a não ser para o parlavento
não sou hórus nem ísis nem osíris
não combinei nada com o BES
nem com cristo nem com o cezariny
nem lanço redes de pesca ao arco íris
neva de alto a baixo no meu país
está muito frio no coração do Tejo
só sei que nada sei disseram-te
e é por isso que estamos todos
com uma rosa morta diante dos olhos
maria azenha
Aqui a sombra do céu é de sangue
e as nuvens infectadas por negros arcanjos.
A morte legou os seus últimos resíduos
e mil homens se levantam do aroma da noite.
Escreveremos ainda o poema das mil mãos
em bandeiras de Paz
no peito dos meninos que não viram o sol.
A menos que nos roubem o ar e o fogo e a água
partiremos em busca das humildes mães de Gaza.
maria azenha
