13 fevereiro, 2009

cada palavra deve ser o que és

CINZAS VERDES - desenho de Augusto Mota, 1961, 31 x 31 cm.
Verniz celuloso e flo-master.

não escrevas a palavra pedra se não tens à mão
uma pedra
não digas a palavra água se nunca quiseste morrer
não penses a palavra fogo se o teu coração não arder

guarda vagarosamente cada som
silenciosamente trabalha o desenho de cada letra
porque a um poeta é reservado
o alfabeto
o fogo
uma escada de rubis


maria azenha


o vendedor de picolé

12 fevereiro, 2009

EM JEITO DE HOMENAGEM

*
Marmeleiro-do-Japão (Cydonia japonica) - foto de Augusto Mota
*
Começam a aparecer as primeiras flores e a minha obsessão agora é outra, bem diferente e mais poética. Começo a ficar obcecado por este sol de Inverno a atravessar as pétalas delicadas do marmeleiro japonês, cujas tonalidades variam muito, consoante o ângulo de incidência dos raios solares. Esta foto desgarrada, tirada ontem, é dedicada a todos os poetas, homens e mulheres, que, com os seus discursos, me vão aliviando de obsessões passadas, que dificilmente esquecerei, muito embora as possa recordar quando ilustro, com trabalhos antigos, poemas que julgo enquadrarem-se na atmosfera de tais obras. Augusto Mota, 12 Fevereiro de 2009.

11 fevereiro, 2009

Perseguem-me as dúvidas.

*
Obsessão (1961) - desenho de Agusto Mota, 17,5 x 28 cm.
Guache e tinta-da-china.

Vi o interior
do fogo prometido.

Perseguem-me as dúvidas.
Não percebo a luz
nem o esplendor a que pertences
a obsessão que alastra surpreende
cada momento de agonia
e de prazer que me é dado
nesta inocência perdida
de tocar a pele
perceber que a posse não se nomeia
e que mais sublime é o beijo
que se esconde na incerteza
de um pano onde esteja à nossa espera
o chão do paraíso
a construção de qualquer lugar possível
dentro de um quadrado branco.

Graça Magalhães, Fevereiro 2009

09 fevereiro, 2009

deliberada mente

-steven kenny.

olho o vagabundo do outro lado da rua
tenho pena
não dele
mas de mim
sentado no chão tem o absoluto do nada e
eu?
reservo.me na serventia de tudo

olho a cigana do outro lado do passeio
invejo as palavras com que tece
nas mãos
o futuro
ilusões e
eu?
presa ao presente em que o nada se compraz
no absurdo das intenções

a cabeça reserva.me a dúvida
o cansaço das estórias recriadas
repisadas
ninguém tem o direito de ser
míseros ímpios feitos em deuses

senhora
o vinho corre!
deixá.lo correr
alguém pergunta
porquê?

o bêbado bebe
na solidão de si
se for o caso
ou talvez não e
porque não?

o vagabundo olha.me
estendo a mão a que a cigana revestiu de cacos
deixo.lhe um sorriso
preso à imensidão de um olhar
profundo
que não ouso

não sei colar os cacos que a cigana
forjou

o não é a palavra proscrita
no sim de uma vida
sem desígnio de viver
perseguem.me os fantasmas da escrita
a maledicência transfere o golpe mortal
choro o animal ferido
rio.me do pontapé dado a um irmão
de raça
alimento.me de ossos e
peles
como uma predadora imersa
em ladaínhas de bem querer

não ouso

prefiro o salto do vagabundo que
me estende a mão para segui.lo
ao encontro oculto da cigana
sou
sapato
gato
rato

a ínfima parcela de um choro
que não choro
de uma gargalhada
que não dou

coloco a cabeça entre as mãos
aperto.a
não me detenho em nada
não ouço nada

prefiro a algazarra do demónio
onde encontro o absurdo do não ser
em perfeição

não magoa nem dói

matei a alegria
matei a cigana
matei o vagabundo
não percebi que ao fazê.lo
me matava a mim
fiquei reduzida ao nada
in feliz
no espaço que circunda
o estar no meio do conflito

deixem.me entregue às minhas loucas
fantasias onde bebo
( e porque não? )
os néctares que me aprouver
deixem.me
ser
a ausência
a verdade
falsa do trio que desenhei
o vagabundo
a cigana e eu
três marginais no destino

estou tão cansada de ser

valorizo hoje
amanhã destruo
a sobreposição de valores
de comportamentos
de atitudes

como manda a santa madre igreja
os anjos
os arcanjos
os santos
os demónios
el.rei e
senhor

sou muito bem comportada
respeito a cor
o grito
o silêncio

o absurdo
a redundância
tudo começa a fazer sentido

ausento.me em cansaço

olho o outro lado da rua
não vejo o vagabundo
terei sonhado?
a cigana sumiu
terei enfabulado?
não me revejo
estarei acordada?

é necessário que alguém vigie

os extra.terrestres acabam de ocupar
o centro da avenida
têm olhos redondos
nariz redondo
orelhas redondas
barriga redonda
a boca
é afiada
ah! têm duas línguas
bífidas
como as serpentes que procuram a estrada
cabeça erguida na morte
as cadeiras
aprumadas
continuam à espera que o espectáculo comece
os actores não comparecem

[ alguém inverteu os papéis ]

apagam.se os projectores

deliberada
.................mente



-gabriela rocha martins.

08 fevereiro, 2009

DEIXEI A SEDE NA PLANÍCIE

Deixei a sede na planície,
Dormi sob o véu dos pássaros,
Tão rés às estrelas,
Tão diminuta era a tarde,
Muito longe das estradas.

Meu coração vibrou de ouro,
Sementes dos dias,
O tempo as guarde.

Brota agora um chão
de passos,
Seja o que fui irmão dos pássaros.

Deixei a sede na planície
Um pulso ou mão de água;
Uma água fértil,
Ao cuidado de uma lágrima,
de olhos vazos
Escrevi-me no horizonte.

Hoje quando me dizem antes _
Eu sopro o esplendor de um dia aceso
ao uivo dos lobos fico preso_
num canto misterioso de nascer.

José Ribeiro Marto

05 fevereiro, 2009

Ontem e hoje, Mãe!

Photobucket

Torre Mecânica - desenho de Augusto Mota, 1961, 31x49 cm, anilinas e caneta flo-master.


Mãe,
ainda que na Árvore da Vida habites,
sinto a ausência dos teus beijos.
O nosso amor é um vaso de leite derramando branco
nas nuvens.
As células do nosso corpo,
pequeníssimas estrelas,
comungam todas da mesma revolução.
Mãe,
a comunhão é um estado de autoconhecimento.
e a matéria veste-se para o Inconsciente:
primeiro, sono.
depois, sonho.
por fim,
rendição.

Tu és Deus, e eu também.
Quando te chamo, avanças
quatro,
cinco,
seis mil anos.
Quando entramos em sintonia com os astros
sentimos a alegria do comunismo
das árvores em tuas mãos.

A Vida é um hiper-estado de consciências.
Os crimes são anti-humanos.
As formigas, radiogaláxias que estabelecem comunicações
através das suas pequenas antenas.
Os poetas fazem parte desta sociedade de partículas.

Mãe,
as últimas ondas de luz do universo
transformaram-se em humildes campos terrestres.


Mãe,
não consigo dividir-me por zero.
Tudo está em expansão, quero dizer:
cada vez mais próximo dum ponto central.
Cada centro do espaço
é um novo projecto.
E a luz, a harpa de Thales,
que um dia disse: " Tudo está cheio de Deus".

Eu digo, deus ou deuses
porque as nossas almas são partículas enraizadas nos céus.
Sabes como os asteróides representam a mesma dança – são eles isotrópicos.
Cantam a Incriação.
E eu entro no câmbio,
- colho as sementes do espaço que não mais
existem no zero.

Ontem,
tornei-me photograficamente um quantum.

Alguém disse: " Vieste do Improvável e vais para o Improvável".
Movimentamo-nos em campos de energia. Dançamos.
Deles brota a sagrada estrela da Harmonia.

Mãe,
dizem os índios:
"Se temos um coração bom quando dançamos,
então chove."


maria azenha
do CD "O mar atinge-nos" , 2009, Janeiro

31 janeiro, 2009

A FLOR BRANCA DO DIA

a flor branca do dia
*
Por este Alentejo, o tradicional mar ondulante das searas está, agora, em plena maré baixa, pelo que não foi difícil à minha larga experiência de Contra-almirante, usando um sextante apropriado à situação, descobrir, no negrume de uma noite tempestuosa, este astro floral que me fez rumar, sem detença, para o dia 1 de Fevereiro, a fim de o assinalar com um fraterno e poético abraço!
António Simões

O JOGO DA VIDA

Camélia - fotografia e manipulação cromática de Augusto Mota.
Excertos do livro .delete.me. de Gabriela Rocha Martins.
*
Ainda bem que estes dados do jogo da vida estão viciados com as palavras do poeta: sendo todas as faces idênticas, ficamos sempre a ganhar! Seja para festejar o aniversário de uma amiga, seja para lhe desejar saúde e força contra os ventos adversos, que, tantas vezes, a querem impedir de levar por diante todos os projectos que a sua irrequieta imaginação lhe vai constantemente propondo, como reptos inadiáveis.

Um grande abraço de um Almirante que, quase perdido entre as vagas alterosas deste mar bravio do nosso «Litoral a Oeste», ainda conseguiu achar o rumo certo e registar no livro de bordo, para a posteridade, estas palavras um pouco tremidas pelo balancear da nau, mas interiormente firmes e sentidas! Augusto Mota

«Litoral a Oeste» é o titulo de um livro de contos de Loureiro Botas, onde o autor denuncia a vida difícil das gentes da Praia da Vieira de Leiria. Foi editado em 1940, em Lisboa, pela Portugália, sendo a 2ª edição de 1944, da mesma editora. Recentemente a Biblioteca de Instrução Popular de Vieira de Leiria, fez uma edição conjunta de «Litoral a Oeste» e «Frente ao Mar» (1944), com prefácio do Dr. Mário Soares. Tais edições antigas já só era possível encontrá-las em alfarrabistas.


PARABÉNS !

ao amanhecer os dias chegam atrasados...








... na noite balançando o nascimento
do poema.


gabriela rocha martins - in poem'arte
composição e tratamento gráfico das fotos - fernanda s.m.


Photobucket

JörgD.


em que tempo
em que lamento
em que aurora

re
adormece

o vento?

*


gabriela rocha martins

*
Parabéns!



(postado por Maria Costa)


ciclo virtuoso da vida

.
.
.
1. do rio depois das chuvas
.
.
.

brioso, bojudo, orgulhoso
da rapina de misérias
e relíquias
.
.
.

inteiro, intenso, farto, imenso
no desaguante destino
para a foz
.
.
.

brutal, incessante, incansável
prenho do perecível.
a caminho. virgem.
.
.
.

circular fecundação do oceano
.
.
.

refazer nascentes.
fazer-se em fonte.
.
.
.
.

maria toscano
em Coimbra, no Parque Verde, a 29 Janeiro/2009
( in sulmoura )

30 janeiro, 2009

AO OUVIR O MAR ATINGE-NOS

A MARIA AZENHA

Há pássaros pousados nos teus poemas
bandos sagrados são nua semente
florescem como dardos quando voam
Ouvem murmurar sem haver gente

Não estranho os rios de água
Correndo véus de palavras
Não estranho os pássaros
Não voam sozinhos na tua voz
Estranho-me eu e sou de horas
As horas de ouvir as horas sós

Voo contigo nesse pulsar do tempo
Perco-me e ausento-me da morte
Como um rio não vendido vivamente
Onde não assoma outro barco
Só brota uma guitarra levemente

Perdoa se um verso segue uma rima
Eu sigo só sei que estás no mar
E dás da água milenar
O assombro vivo numa pauta de escutar


JOSÉ RIBEIRO MARTO

um só dia para não escrever poesia



do projecto free poetry
nada se sabe
da cândida flor quase a cair do tecto
vistas as coisas por cima
só me lembro de quinta feira à noite com o sol a pino

não sei o que é escrever
não sei o que é um relógio
não sei o que é freeport
escrevo com os ponteiros dos olhos
apodrecidos e tristes

se pensam que isto é um poema
e que este poema com pontas de vidro
tem chapéus de chuva e luvas
enganam-se
este poema não é um poema
porque um poema não é um rebanho
se fosse um rebanho chamava-se Caeiro
e para que servem tantos pastores e tantas ovelhas
se caem tantas igrejas a torto e a direito?

lembrem-se do Dantas que cheirava mal
e dos Silvas e dos Pimbas e dos Sócras
( eu não disse Só-cra-tes estou em hibernação!)
e dos que dão cambalhotas para receber luvas
porque este ano fez muito frio

não há dúvida que uma luva combina mal com Pessoa
que escrevia ao luar com dez dedos
com a melancolia do chapéu preto
que lhe cobria os óculos
imaginem duas nada mais deprimente
às vezes levanto-me do chão porque me deram um soco

lembrem-se do Dantas que cheirava mal
e dos Silvas e dos Pimbas e dos Sócras
nós lidamos com eles
tão pequenos tão vias tão auto estradas
tão verdes
tudo isto como se eu fosse uma lata de lixo
nunca me tragam um poema servido com luvas

está assim criado o dia para não escrever poesia
hoje trinta de Janeiro de dois mil e nove


maria azenha