24 fevereiro, 2009

SONETO LABIRÍNTICO

Hora Mitológica, desenho de Augusto Mota,1961,
verniz celuloso e tinta-da-china, 27 x 19,5 cm.
*
Claramente, um jardim labiríntico:
Veredas circulares, buxos dementes –
E um jardineiro que passa esfíngico
E apara as sebes com os dentes.

O canto da razão soando cínico
Desbastando os sonhos, e tu consentes
Nas áleas sem fim o desdém olímpico
De seus olhos frios e sempre ausentes.

Claramente, um jardim feito a compasso
Que em horas de emoção desfaço
E à demência circular ponho fim.

Aqui o deixo em sua geometria.
P’ra que ninguém se perca, todavia,
Fechado estará sempre este jardim.

ANTÓNIO SIMÕES, in «Soneto de Água e outros», "Manhã Nova Edições”, Estremoz, 1994, p. 23.

21 fevereiro, 2009

"para não dizer(em) que não falei de" ... Amazing Grace, digo: Il Divo

(pf, clicar no título deste "post" para fruir do video, cuja incorporação é proibida)
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Abraço, da mt





"*Existem 639 milhões de armas no mundo - uma arma para cada dez pessoas
Todos os anos morrem em média 500,000 pessoas vítimas de violência armada uma pessoa por minuto! Apoie a implementação de um Tratado Internacional que regule o Comércio de Armas. Seja um num Milhão: www.controlarms.org"fonte: dados e video, Amnistia Internacional Portugal.

mariagomes

20 fevereiro, 2009

"para não dizer(em) que não falei de" ... Olga Roriz

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(para aceder a este — e a outras video-montagens de Criações de Olga Roriz (cuja incorporação é proibida), clicar aqui )
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com abraço da mt
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16 fevereiro, 2009

13 fevereiro, 2009

cada palavra deve ser o que és

CINZAS VERDES - desenho de Augusto Mota, 1961, 31 x 31 cm.
Verniz celuloso e flo-master.

não escrevas a palavra pedra se não tens à mão
uma pedra
não digas a palavra água se nunca quiseste morrer
não penses a palavra fogo se o teu coração não arder

guarda vagarosamente cada som
silenciosamente trabalha o desenho de cada letra
porque a um poeta é reservado
o alfabeto
o fogo
uma escada de rubis


maria azenha


o vendedor de picolé

12 fevereiro, 2009

EM JEITO DE HOMENAGEM

*
Marmeleiro-do-Japão (Cydonia japonica) - foto de Augusto Mota
*
Começam a aparecer as primeiras flores e a minha obsessão agora é outra, bem diferente e mais poética. Começo a ficar obcecado por este sol de Inverno a atravessar as pétalas delicadas do marmeleiro japonês, cujas tonalidades variam muito, consoante o ângulo de incidência dos raios solares. Esta foto desgarrada, tirada ontem, é dedicada a todos os poetas, homens e mulheres, que, com os seus discursos, me vão aliviando de obsessões passadas, que dificilmente esquecerei, muito embora as possa recordar quando ilustro, com trabalhos antigos, poemas que julgo enquadrarem-se na atmosfera de tais obras. Augusto Mota, 12 Fevereiro de 2009.

11 fevereiro, 2009

Perseguem-me as dúvidas.

*
Obsessão (1961) - desenho de Agusto Mota, 17,5 x 28 cm.
Guache e tinta-da-china.

Vi o interior
do fogo prometido.

Perseguem-me as dúvidas.
Não percebo a luz
nem o esplendor a que pertences
a obsessão que alastra surpreende
cada momento de agonia
e de prazer que me é dado
nesta inocência perdida
de tocar a pele
perceber que a posse não se nomeia
e que mais sublime é o beijo
que se esconde na incerteza
de um pano onde esteja à nossa espera
o chão do paraíso
a construção de qualquer lugar possível
dentro de um quadrado branco.

Graça Magalhães, Fevereiro 2009

09 fevereiro, 2009

deliberada mente

-steven kenny.

olho o vagabundo do outro lado da rua
tenho pena
não dele
mas de mim
sentado no chão tem o absoluto do nada e
eu?
reservo.me na serventia de tudo

olho a cigana do outro lado do passeio
invejo as palavras com que tece
nas mãos
o futuro
ilusões e
eu?
presa ao presente em que o nada se compraz
no absurdo das intenções

a cabeça reserva.me a dúvida
o cansaço das estórias recriadas
repisadas
ninguém tem o direito de ser
míseros ímpios feitos em deuses

senhora
o vinho corre!
deixá.lo correr
alguém pergunta
porquê?

o bêbado bebe
na solidão de si
se for o caso
ou talvez não e
porque não?

o vagabundo olha.me
estendo a mão a que a cigana revestiu de cacos
deixo.lhe um sorriso
preso à imensidão de um olhar
profundo
que não ouso

não sei colar os cacos que a cigana
forjou

o não é a palavra proscrita
no sim de uma vida
sem desígnio de viver
perseguem.me os fantasmas da escrita
a maledicência transfere o golpe mortal
choro o animal ferido
rio.me do pontapé dado a um irmão
de raça
alimento.me de ossos e
peles
como uma predadora imersa
em ladaínhas de bem querer

não ouso

prefiro o salto do vagabundo que
me estende a mão para segui.lo
ao encontro oculto da cigana
sou
sapato
gato
rato

a ínfima parcela de um choro
que não choro
de uma gargalhada
que não dou

coloco a cabeça entre as mãos
aperto.a
não me detenho em nada
não ouço nada

prefiro a algazarra do demónio
onde encontro o absurdo do não ser
em perfeição

não magoa nem dói

matei a alegria
matei a cigana
matei o vagabundo
não percebi que ao fazê.lo
me matava a mim
fiquei reduzida ao nada
in feliz
no espaço que circunda
o estar no meio do conflito

deixem.me entregue às minhas loucas
fantasias onde bebo
( e porque não? )
os néctares que me aprouver
deixem.me
ser
a ausência
a verdade
falsa do trio que desenhei
o vagabundo
a cigana e eu
três marginais no destino

estou tão cansada de ser

valorizo hoje
amanhã destruo
a sobreposição de valores
de comportamentos
de atitudes

como manda a santa madre igreja
os anjos
os arcanjos
os santos
os demónios
el.rei e
senhor

sou muito bem comportada
respeito a cor
o grito
o silêncio

o absurdo
a redundância
tudo começa a fazer sentido

ausento.me em cansaço

olho o outro lado da rua
não vejo o vagabundo
terei sonhado?
a cigana sumiu
terei enfabulado?
não me revejo
estarei acordada?

é necessário que alguém vigie

os extra.terrestres acabam de ocupar
o centro da avenida
têm olhos redondos
nariz redondo
orelhas redondas
barriga redonda
a boca
é afiada
ah! têm duas línguas
bífidas
como as serpentes que procuram a estrada
cabeça erguida na morte
as cadeiras
aprumadas
continuam à espera que o espectáculo comece
os actores não comparecem

[ alguém inverteu os papéis ]

apagam.se os projectores

deliberada
.................mente



-gabriela rocha martins.

08 fevereiro, 2009

DEIXEI A SEDE NA PLANÍCIE

Deixei a sede na planície,
Dormi sob o véu dos pássaros,
Tão rés às estrelas,
Tão diminuta era a tarde,
Muito longe das estradas.

Meu coração vibrou de ouro,
Sementes dos dias,
O tempo as guarde.

Brota agora um chão
de passos,
Seja o que fui irmão dos pássaros.

Deixei a sede na planície
Um pulso ou mão de água;
Uma água fértil,
Ao cuidado de uma lágrima,
de olhos vazos
Escrevi-me no horizonte.

Hoje quando me dizem antes _
Eu sopro o esplendor de um dia aceso
ao uivo dos lobos fico preso_
num canto misterioso de nascer.

José Ribeiro Marto

05 fevereiro, 2009

Ontem e hoje, Mãe!

Photobucket

Torre Mecânica - desenho de Augusto Mota, 1961, 31x49 cm, anilinas e caneta flo-master.


Mãe,
ainda que na Árvore da Vida habites,
sinto a ausência dos teus beijos.
O nosso amor é um vaso de leite derramando branco
nas nuvens.
As células do nosso corpo,
pequeníssimas estrelas,
comungam todas da mesma revolução.
Mãe,
a comunhão é um estado de autoconhecimento.
e a matéria veste-se para o Inconsciente:
primeiro, sono.
depois, sonho.
por fim,
rendição.

Tu és Deus, e eu também.
Quando te chamo, avanças
quatro,
cinco,
seis mil anos.
Quando entramos em sintonia com os astros
sentimos a alegria do comunismo
das árvores em tuas mãos.

A Vida é um hiper-estado de consciências.
Os crimes são anti-humanos.
As formigas, radiogaláxias que estabelecem comunicações
através das suas pequenas antenas.
Os poetas fazem parte desta sociedade de partículas.

Mãe,
as últimas ondas de luz do universo
transformaram-se em humildes campos terrestres.


Mãe,
não consigo dividir-me por zero.
Tudo está em expansão, quero dizer:
cada vez mais próximo dum ponto central.
Cada centro do espaço
é um novo projecto.
E a luz, a harpa de Thales,
que um dia disse: " Tudo está cheio de Deus".

Eu digo, deus ou deuses
porque as nossas almas são partículas enraizadas nos céus.
Sabes como os asteróides representam a mesma dança – são eles isotrópicos.
Cantam a Incriação.
E eu entro no câmbio,
- colho as sementes do espaço que não mais
existem no zero.

Ontem,
tornei-me photograficamente um quantum.

Alguém disse: " Vieste do Improvável e vais para o Improvável".
Movimentamo-nos em campos de energia. Dançamos.
Deles brota a sagrada estrela da Harmonia.

Mãe,
dizem os índios:
"Se temos um coração bom quando dançamos,
então chove."


maria azenha
do CD "O mar atinge-nos" , 2009, Janeiro