04 março, 2009

Versículo 1

Prendam-me que não sei quem amo. Prendam-me. Virei a página mas o livro é o mesmo. Mudei o amor mas não o lugar do coração. Prendam-me cá fora. Não quero acabar dentro sem engolir por fora a revelação do que fui. Tranquiliza-te mesmo que não compreendas por que razão deixei as minhas impressões digitais na tua língua. Ninguém vai bater à porta. Ninguém vai perguntar a data de nascimento da tua solidão. O número de identificação dos teus sonhos. A matrícula do teu passado. O nome completo do teu coração. O estado civil dos tendões do teu pensamento. Ninguém vai. Enquanto me entreter a fazer festinhas ao tempo à paulada. Porque o tempo que engoliste sem saborear as horas e os minutos e os segundos mais ninguém vai usá-lo. Nem para pano de limpar o chão.
Pacheco Eduardo

01 março, 2009

...a palavra querer

Narciso ( Narcissus 'Oraglow' ) - foto de Augusto Mota


*
Semeio palavras.

Com elas procuro na luz
esse silêncio violeta intenso
que chega com a palavra nuvem.
Posso acordar o tempo
com a palavra miopia
lembrar-me das areias cetim
da minha infância.
Com a palavra árvore
a fragância dos pomares
num campo amarelo
sem-lágrimas.
O mundo voltará a ser
quente ao luar
tombando os punhais
na véspera da morte.
Com a palavra estrela
puxada por sete carrosséis
procuro a palavra amor,
a palavra respeito, a palavra esperança.
Faço agasalhos-poema com as coisas que descrevo.
Às vezes inscrevem-se nos olhos.
os cristais de algumas palavras

Por isso trago sempre comigo
A palavra querer.


Graça Magalhães

28 fevereiro, 2009

..................aventureiro

Monstro metálico, desenho de Augusto Mota, 1961,
pastel e tinta-da-china, 37 x 31 cm.
*

Sou um aventureiro de palavras
monto a primeira
e vejo.a cavalgar
rumo ao poema

torno.a alasão

galopante

entre as escarpas
das estrofes que se preferem
absolutas

invento um corcel de ritmo
aforrado entre
as sílabas
troteadas à inglesa

dispo.me de poesia e

litigo a brisa ao som
cadenciado
do silêncio


o poema acontece


Gabriela Rocha Martins, in « .delete.me. », edição “Folheto Edições & Design”, Leiria 2008, p. 16.

" não escrevo línguas, analfabeto-me em linguagens" - Pacheco Eduardo

Pacheco Eduardo





METAMORFOSES


Manda-me de volta todos os beijos que não demos na hora da despedida que nunca existiu. Manda-me um só momento que sirva para resumir todos os instantes provisoriamente eternos, devolve-me a metade de ti que me pertence, a peça do puzzle que inventei para me entreter enquanto exploro os meus excessos à flor da pele, enquanto culpado me confesso do silêncio audível no interior da tua boca.

Poema?

Devolve os sorrisos que não partilhei com os teus lábios. Reaparece, grita-me a tua ousadia, cospe-me no rosto e no resto que sobra de mim, vomita os fantasmas que coloquei nos teus sonhos, arranca de mim os filhos que não me deste, morde, trinca, beija este corpo com bofetadas. Isto é amor. E se não for, então que se lixe!!

Que se lixem as rosas que não te ofereci, que se lixem as lágrimas que bebi do teu olhar, que se lixem as recordações na reciclagem da memória, que se lixe o vazio que escrevo, que se lixem os instantes provisórios, os beijos, a despedida, o puzzle e eu. Mas, por agora... imploro-te...
Apaga no coração as mil vezes que te matei sem te avisar e as vezes mil que não te amei e escrevemos utopias eternas nos lençóis!!

Poema?


Rasga-me os sentimentos que já não sinto, as pétalas, os ramos, o pólen, as raízes, deita fora todas as emoções que já não penso e guarda os espinhos para te acariciarem a epiderme e dorme sem que a tua boca cuspa uma lágrima, enfurece-te carinhosamente, corta em fatias essa overdose de esquecimento, anestesia o meu choro com beijinhos mesmo que não sentidos.

Poema?

Engana-me na única verdade que é acabar e regressar ao pó e quando estiver deitado, grita-me que não morri!!
Poisa em mim como uma tempestade de orgasmos organizados por desordem alfabética. Empresta-me o tempo que não tive para te dizer o quanto demorei para encontrar o ponto onde começa e termina a eternidade que se encerra numa hora onde não cabem sessenta minutos de realidade. Uma hora onde não cabe nada que não seja sublime como a tua doentia solidão enterrada no solo árido deste fragmento poético quase tão ofensivo e obsceno como o dono dele.

Meu poema... meu amor...

Empresta-me um sonho que não seja meu, uma mentira pequenina para me aliviar a espera. Uma mentira, dessas que não magoa mesmo quando se tratam de verdades violentamente incuráveis como uma despedida para sempre. Para sempre e por hoje, empresta-me um alfabeto diferente. Cansei-me de dar nas vistas sempre com os mesmos disparates. Cansei-me de ti que ingenuamente apenas serves para me fazer sorrir de nervos, tão assim, mais ou menos isto ou tão míope, que só visto. Tão ausente, tão desatento, tão alheio, tão filho da mãe como a vida, às vezes. É!!


A morte é a incurável certeza que nos mantém vivos!!


Se alguém duvidar, então ressuscitem-me deste sono, atirem a primeira, a segunda e a terceira pedra e deixem-me descansar na sétima noite da minha ausência para que no final possas perceber que é tarde para me proibires de sonhar...

E isto será sempre amor! Mesmo que as palavras doam, será, mesmo que não seja nada. Será, mesmo que pareça um desmaio voluntário, um recém-nascido à espera de um espancamento fraternal que lhe desperte o primeiro choro. Isto será sempre amor, uma teimosia tragicamente razoável que excede as utopias que deambulam à volta da tua imperturbável apatia. Será o que tiver que ser portanto, empresta-me uma catástrofe de miminhos, o desastre afectivo das tuas quimeras, devolve-me o alicate, o serrote, os martelos, as enxadas, a guilhotina e, já agora, os bisturis, preciso de uma cirurgia emocional, que arranquem de mim o teu suor e me deixem ficar apenas a esperança e o lapso de ser imaturo porque de real só me resta a discreta verdade da fantasia.


Pacheco Eduardo


( clique no título deste post)


mariagomes

25 fevereiro, 2009

despem de orvalho a luz e chamam vela à escuridão,
esta é a eterna manhã de meus irmãos;
com as mãos vermelhas do prazer do frio,
no lago esvoaçavam como pássaros,
dançavam,corriam, escondiam-se,
acendiam os dias com grandes lápis de cor


os olhos,
como lanternas são os peixes mais belos do mundo__
eu digo-lhes isto, eles sorriem tímidos, vaidosos
da luz que raia os meus olhos, e os espanta
de passado feita a esperar por eles,
num beiral para os proteger da chuva,
e do Inverno que ceifava os meus olhos,
para os libertar dos nós do mundo,
fiz pouco,
a surdina dava baixa aos momentos de luz,
apodrecia no vento


José Ribeiro Marto

24 fevereiro, 2009

SONETO LABIRÍNTICO

Hora Mitológica, desenho de Augusto Mota,1961,
verniz celuloso e tinta-da-china, 27 x 19,5 cm.
*
Claramente, um jardim labiríntico:
Veredas circulares, buxos dementes –
E um jardineiro que passa esfíngico
E apara as sebes com os dentes.

O canto da razão soando cínico
Desbastando os sonhos, e tu consentes
Nas áleas sem fim o desdém olímpico
De seus olhos frios e sempre ausentes.

Claramente, um jardim feito a compasso
Que em horas de emoção desfaço
E à demência circular ponho fim.

Aqui o deixo em sua geometria.
P’ra que ninguém se perca, todavia,
Fechado estará sempre este jardim.

ANTÓNIO SIMÕES, in «Soneto de Água e outros», "Manhã Nova Edições”, Estremoz, 1994, p. 23.

21 fevereiro, 2009

"para não dizer(em) que não falei de" ... Amazing Grace, digo: Il Divo

(pf, clicar no título deste "post" para fruir do video, cuja incorporação é proibida)
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Abraço, da mt





"*Existem 639 milhões de armas no mundo - uma arma para cada dez pessoas
Todos os anos morrem em média 500,000 pessoas vítimas de violência armada uma pessoa por minuto! Apoie a implementação de um Tratado Internacional que regule o Comércio de Armas. Seja um num Milhão: www.controlarms.org"fonte: dados e video, Amnistia Internacional Portugal.

mariagomes

20 fevereiro, 2009

"para não dizer(em) que não falei de" ... Olga Roriz

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(para aceder a este — e a outras video-montagens de Criações de Olga Roriz (cuja incorporação é proibida), clicar aqui )
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com abraço da mt
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16 fevereiro, 2009

13 fevereiro, 2009

cada palavra deve ser o que és

CINZAS VERDES - desenho de Augusto Mota, 1961, 31 x 31 cm.
Verniz celuloso e flo-master.

não escrevas a palavra pedra se não tens à mão
uma pedra
não digas a palavra água se nunca quiseste morrer
não penses a palavra fogo se o teu coração não arder

guarda vagarosamente cada som
silenciosamente trabalha o desenho de cada letra
porque a um poeta é reservado
o alfabeto
o fogo
uma escada de rubis


maria azenha


o vendedor de picolé

12 fevereiro, 2009

EM JEITO DE HOMENAGEM

*
Marmeleiro-do-Japão (Cydonia japonica) - foto de Augusto Mota
*
Começam a aparecer as primeiras flores e a minha obsessão agora é outra, bem diferente e mais poética. Começo a ficar obcecado por este sol de Inverno a atravessar as pétalas delicadas do marmeleiro japonês, cujas tonalidades variam muito, consoante o ângulo de incidência dos raios solares. Esta foto desgarrada, tirada ontem, é dedicada a todos os poetas, homens e mulheres, que, com os seus discursos, me vão aliviando de obsessões passadas, que dificilmente esquecerei, muito embora as possa recordar quando ilustro, com trabalhos antigos, poemas que julgo enquadrarem-se na atmosfera de tais obras. Augusto Mota, 12 Fevereiro de 2009.