17 março, 2009
10 março, 2009
flauta silenciosa
Flores e brotos floríferos de Cerejeira (Prunus avium) - foto: Augusto Mota
*
o poema é feito de nossas próprias vértebras
disse-o Maiakowski
indicando onde começa a direcção da montanha
aguarda longas estações no decorrer do gelo
libertando a lua do orvalho branco
a meia distância da casa do silêncio
e das florestas do sândalo
os brotos mais tenros
invadem a primavera
chegando com a luz do jade
e os versos tombam em frutos dourados
maria azenha
08 março, 2009
ENCANTA-ME
A Yvette K. Centeno
Encanta-me,
conta-me um rio que já existiu,
põe de árvore a primitiva ponte,
uma corrente bravia só no estio;
o horizonte na frescura da erva
talha-o a degraus numa só pedra
Encanta-me,
conta-me um rio que já existiu,
que eu amanheça nessa espera,
em que todos já disseram:
é dia.
E eu atenda ao silêncio,
só quando entardece
Conta-me um rio,
com um sol que já se viu,
num céu de luz e de nuvens,
tocado, manso, frio
Conta-me um rio,
onde eu fique descalço,
e os teus braços só tenham
dos meus estes abraços.
Conta-me um rio,
com uma fera que gema e ria,
tremendo da mesma espera,
uive o vento morno do dia.
Encanta-me,
conta-me desse rio que já existiu,
o longo curso fundo , manso,
e a tal fera a pedra lance,
eu descanse.
Encanta-me,
faz-me de mirto azul de chuva,
candeia alta, margem sussurro,
eu sopre o vento - descanse
Encanta-me ,
conta-me um rio,
estas casas são demasiado altas,
este silêncio vem inteiro da noite,
podre já vem o dia.
José Ribeiro Marto
07 março, 2009
08.03.2009 - parabéns ,amiga!
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Foi um tempo de deixar falar os afectos
06 março, 2009
gerês
Ninho de Pedras - desenho de Augusto Mota, 1961. as nuvens estão juntando o céu aos bocados
nas montanhas está escondido o puro ouro
o ar completamente limpo
faz cair do alto
flores
no púlpito das árvores
mais tarde
quando entrar a noite
as pérolas vão-se unir aos troncos
como as pedras lembram um caminho
sem paredes
no percurso do jade
maria azenha
04 março, 2009
Versículo 1
01 março, 2009
...a palavra querer
Com elas procuro na luz
esse silêncio violeta intenso
que chega com a palavra nuvem.
Posso acordar o tempo
com a palavra miopia
lembrar-me das areias cetim
da minha infância.
Com a palavra árvore
a fragância dos pomares
num campo amarelo
sem-lágrimas.
O mundo voltará a ser
quente ao luar
tombando os punhais
na véspera da morte.
Com a palavra estrela
puxada por sete carrosséis
procuro a palavra amor,
a palavra respeito, a palavra esperança.
Faço agasalhos-poema com as coisas que descrevo.
Às vezes inscrevem-se nos olhos.
os cristais de algumas palavras
Por isso trago sempre comigo
A palavra querer.
Graça Magalhães
28 fevereiro, 2009
..................aventureiro
Sou um aventureiro de palavras
monto a primeira
e vejo.a cavalgar
rumo ao poema
torno.a alasão
galopante
entre as escarpas
das estrofes que se preferem
absolutas
invento um corcel de ritmo
aforrado entre
as sílabas
troteadas à inglesa
dispo.me de poesia e
litigo a brisa ao som
cadenciado
do silêncio
o poema acontece
Gabriela Rocha Martins, in « .delete.me. », edição “Folheto Edições & Design”, Leiria 2008, p. 16.
" não escrevo línguas, analfabeto-me em linguagens" - Pacheco Eduardo

METAMORFOSES
Manda-me de volta todos os beijos que não demos na hora da despedida que nunca existiu. Manda-me um só momento que sirva para resumir todos os instantes provisoriamente eternos, devolve-me a metade de ti que me pertence, a peça do puzzle que inventei para me entreter enquanto exploro os meus excessos à flor da pele, enquanto culpado me confesso do silêncio audível no interior da tua boca.
Poema?
Devolve os sorrisos que não partilhei com os teus lábios. Reaparece, grita-me a tua ousadia, cospe-me no rosto e no resto que sobra de mim, vomita os fantasmas que coloquei nos teus sonhos, arranca de mim os filhos que não me deste, morde, trinca, beija este corpo com bofetadas. Isto é amor. E se não for, então que se lixe!!
Que se lixem as rosas que não te ofereci, que se lixem as lágrimas que bebi do teu olhar, que se lixem as recordações na reciclagem da memória, que se lixe o vazio que escrevo, que se lixem os instantes provisórios, os beijos, a despedida, o puzzle e eu. Mas, por agora... imploro-te...
Apaga no coração as mil vezes que te matei sem te avisar e as vezes mil que não te amei e escrevemos utopias eternas nos lençóis!!
Poema?
Rasga-me os sentimentos que já não sinto, as pétalas, os ramos, o pólen, as raízes, deita fora todas as emoções que já não penso e guarda os espinhos para te acariciarem a epiderme e dorme sem que a tua boca cuspa uma lágrima, enfurece-te carinhosamente, corta em fatias essa overdose de esquecimento, anestesia o meu choro com beijinhos mesmo que não sentidos.
Poema?
Engana-me na única verdade que é acabar e regressar ao pó e quando estiver deitado, grita-me que não morri!!
Poisa em mim como uma tempestade de orgasmos organizados por desordem alfabética. Empresta-me o tempo que não tive para te dizer o quanto demorei para encontrar o ponto onde começa e termina a eternidade que se encerra numa hora onde não cabem sessenta minutos de realidade. Uma hora onde não cabe nada que não seja sublime como a tua doentia solidão enterrada no solo árido deste fragmento poético quase tão ofensivo e obsceno como o dono dele.
Meu poema... meu amor...
Empresta-me um sonho que não seja meu, uma mentira pequenina para me aliviar a espera. Uma mentira, dessas que não magoa mesmo quando se tratam de verdades violentamente incuráveis como uma despedida para sempre. Para sempre e por hoje, empresta-me um alfabeto diferente. Cansei-me de dar nas vistas sempre com os mesmos disparates. Cansei-me de ti que ingenuamente apenas serves para me fazer sorrir de nervos, tão assim, mais ou menos isto ou tão míope, que só visto. Tão ausente, tão desatento, tão alheio, tão filho da mãe como a vida, às vezes. É!!
A morte é a incurável certeza que nos mantém vivos!!
Se alguém duvidar, então ressuscitem-me deste sono, atirem a primeira, a segunda e a terceira pedra e deixem-me descansar na sétima noite da minha ausência para que no final possas perceber que é tarde para me proibires de sonhar...
E isto será sempre amor! Mesmo que as palavras doam, será, mesmo que não seja nada. Será, mesmo que pareça um desmaio voluntário, um recém-nascido à espera de um espancamento fraternal que lhe desperte o primeiro choro. Isto será sempre amor, uma teimosia tragicamente razoável que excede as utopias que deambulam à volta da tua imperturbável apatia. Será o que tiver que ser portanto, empresta-me uma catástrofe de miminhos, o desastre afectivo das tuas quimeras, devolve-me o alicate, o serrote, os martelos, as enxadas, a guilhotina e, já agora, os bisturis, preciso de uma cirurgia emocional, que arranquem de mim o teu suor e me deixem ficar apenas a esperança e o lapso de ser imaturo porque de real só me resta a discreta verdade da fantasia.
Pacheco Eduardo
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mariagomes
25 fevereiro, 2009
esta é a eterna manhã de meus irmãos;
com as mãos vermelhas do prazer do frio,
no lago esvoaçavam como pássaros,
dançavam,corriam, escondiam-se,
acendiam os dias com grandes lápis de cor
os olhos,
como lanternas são os peixes mais belos do mundo__
eu digo-lhes isto, eles sorriem tímidos, vaidosos
da luz que raia os meus olhos, e os espanta
de passado feita a esperar por eles,
num beiral para os proteger da chuva,
e do Inverno que ceifava os meus olhos,
para os libertar dos nós do mundo,
fiz pouco,
a surdina dava baixa aos momentos de luz,
apodrecia no vento
José Ribeiro Marto
24 fevereiro, 2009
SONETO LABIRÍNTICO
Veredas circulares, buxos dementes –
E um jardineiro que passa esfíngico
E apara as sebes com os dentes.
O canto da razão soando cínico
Desbastando os sonhos, e tu consentes
Nas áleas sem fim o desdém olímpico
De seus olhos frios e sempre ausentes.
Claramente, um jardim feito a compasso
Que em horas de emoção desfaço
E à demência circular ponho fim.
Aqui o deixo em sua geometria.
P’ra que ninguém se perca, todavia,
Fechado estará sempre este jardim.
ANTÓNIO SIMÕES, in «Soneto de Água e outros», "Manhã Nova Edições”, Estremoz, 1994, p. 23.





