21 março, 2009
20 março, 2009
RUA DIREITA
é bom sentir o coração destas pedras
dentro do peito em abraço sentido
seguindo as pisadas esquecidas
das vielas esconsas e doloridas
veias do labor antigo
abro os sentidos por entre as casas
velhas da cidade companheiras
exaustas dos caminhos suaves
onde se entretece a memória
orlando cardoso
( Lido durante as comemorações, em Leiria, do Dia Mundial da Poesia, numa parceria da Livraria Arquivo, do Te-Ato e da Câmara Municipal. Foram lidos poemas de vários autores, por elementos daquele Grupo de Teatro de Leiria, em diversos locais da cidade ).
CROCODILOS NO DOURO
Flo-master e marcador, 31 x 49 cm.
*
Crocodilos no Douro
É pior do que Camões ferido em Ceuta.
O instante, a fotografia,
O efémero para fins comerciais
Atira para os olhos um fumo de cozinha
Jornalístico, garrido, fotogénico.
O Douro não nasceu mouro,
De um canteiro fazem uma pipa
Vinho no rosto dos socalcos
A vender-se, a vender-nos, a beber-se e beber-nos,
Nesta terra além, não dos mares
Mas dos tempos, entre dois lugares.
A Gorgona canta destinos,
E do nosso, desolhados,
Seguramos o manuscrito
No mar que nos coube a Oriente,
Em dia de poesia,
Depois de termos sido país.
Crocodilos no Douro?
Quem sabe se destino
De mares de sargaços,
Estiagem de prémios vis
Na Lisboa onde o rosto
Foi para detrás do sol-posto.
António Augusto Menano, 19.03.2009
É pior do que Camões ferido em Ceuta.
O instante, a fotografia,
O efémero para fins comerciais
Atira para os olhos um fumo de cozinha
Jornalístico, garrido, fotogénico.
O Douro não nasceu mouro,
De um canteiro fazem uma pipa
Vinho no rosto dos socalcos
A vender-se, a vender-nos, a beber-se e beber-nos,
Nesta terra além, não dos mares
Mas dos tempos, entre dois lugares.
A Gorgona canta destinos,
E do nosso, desolhados,
Seguramos o manuscrito
No mar que nos coube a Oriente,
Em dia de poesia,
Depois de termos sido país.
Crocodilos no Douro?
Quem sabe se destino
De mares de sargaços,
Estiagem de prémios vis
Na Lisboa onde o rosto
Foi para detrás do sol-posto.
António Augusto Menano, 19.03.2009
CORPOEMA
Foto de Augusto Mota
*
Só
quando
sinto a poesia
dentro do corpo
é que sei
que não estou morto -
Sob as pálpebras,
no rosto,
entre os dedos,
as palavras,
como crisálidas adormecidas,
esperam,
trémulas,
as asas que as desprendam -
as asas que tu lhes trazes! -
E é só quando chegas
e me beijas o corpo,
verso a verso,
e o lês como se lê um livro,
que elas se libertam
e eu sei que estou vivo -
E vou
E voo
em cada palavra
ao encontro de ti
ao encontro de mim
no corpo do poema.
António Simões, 1978
PROCURA
procura o nome mais distante para um relâmpago,
talvez exista no âmago de uma caligrafia estelar,
se a procura for brusca ou imprecisa ,
se um raio quebrado desenhar um rosto no céu ,
procura a festa no calendário dos pássaros
eles transportam o fogo, a água, o pão,
conhecem os sinais das tempestades,
decifram o ar em segundos,
batalham asas a planar,
são do mundo ,
são as sementes eternas da terra,
pousam num incidente escasso de tempo,
num só vislumbre vêm descansar
José Ribeiro Marto
talvez exista no âmago de uma caligrafia estelar,
se a procura for brusca ou imprecisa ,
se um raio quebrado desenhar um rosto no céu ,
procura a festa no calendário dos pássaros
eles transportam o fogo, a água, o pão,
conhecem os sinais das tempestades,
decifram o ar em segundos,
batalham asas a planar,
são do mundo ,
são as sementes eternas da terra,
pousam num incidente escasso de tempo,
num só vislumbre vêm descansar
José Ribeiro Marto
SÃO VERSOS
Guache e flo-master, 29,5 x 28 cm.
*
II
são versos............ esboços incompletos
do povo............ volátil corpo
matéria
ao longo de trinta anos
azul de anil
é cor............ espanto
grito............ negação
quem usurpou de Abril
o R
de REVOLUÇÃO ?
gabriela rocha martins, in «.delete.me.»,
edição ”Folheto Edições & Design”, Leiria, 2008, p.41
17 março, 2009
10 março, 2009
flauta silenciosa
Flores e brotos floríferos de Cerejeira (Prunus avium) - foto: Augusto Mota
*
o poema é feito de nossas próprias vértebras
disse-o Maiakowski
indicando onde começa a direcção da montanha
aguarda longas estações no decorrer do gelo
libertando a lua do orvalho branco
a meia distância da casa do silêncio
e das florestas do sândalo
os brotos mais tenros
invadem a primavera
chegando com a luz do jade
e os versos tombam em frutos dourados
maria azenha
08 março, 2009
ENCANTA-ME
Colipo / Quinta de S. Sebastião do Freixo.
*
A Yvette K. Centeno
Encanta-me,
conta-me um rio que já existiu,
põe de árvore a primitiva ponte,
uma corrente bravia só no estio;
o horizonte na frescura da erva
talha-o a degraus numa só pedra
Encanta-me,
conta-me um rio que já existiu,
que eu amanheça nessa espera,
em que todos já disseram:
é dia.
E eu atenda ao silêncio,
só quando entardece
Conta-me um rio,
com um sol que já se viu,
num céu de luz e de nuvens,
tocado, manso, frio
Conta-me um rio,
onde eu fique descalço,
e os teus braços só tenham
dos meus estes abraços.
Conta-me um rio,
com uma fera que gema e ria,
tremendo da mesma espera,
uive o vento morno do dia.
Encanta-me,
conta-me desse rio que já existiu,
o longo curso fundo , manso,
e a tal fera a pedra lance,
eu descanse.
Encanta-me,
faz-me de mirto azul de chuva,
candeia alta, margem sussurro,
eu sopre o vento - descanse
Encanta-me ,
conta-me um rio,
estas casas são demasiado altas,
este silêncio vem inteiro da noite,
podre já vem o dia.
José Ribeiro Marto
07 março, 2009
08.03.2009 - parabéns ,amiga!
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Foi um tempo de deixar falar os afectos
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Foi um tempo de deixar falar os afectos
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06 março, 2009
gerês
Ninho de Pedras - desenho de Augusto Mota, 1961. Verniz celuloso e flo-master, 27 x 19,5 cm.
*
as nuvens estão juntando o céu aos bocados
nas montanhas está escondido o puro ouro
o ar completamente limpo
faz cair do alto
flores
no púlpito das árvores
mais tarde
quando entrar a noite
as pérolas vão-se unir aos troncos
como as pedras lembram um caminho
sem paredes
no percurso do jade
maria azenha
04 março, 2009
Versículo 1
Prendam-me que não sei quem amo. Prendam-me. Virei a página mas o livro é o mesmo. Mudei o amor mas não o lugar do coração. Prendam-me cá fora. Não quero acabar dentro sem engolir por fora a revelação do que fui. Tranquiliza-te mesmo que não compreendas por que razão deixei as minhas impressões digitais na tua língua. Ninguém vai bater à porta. Ninguém vai perguntar a data de nascimento da tua solidão. O número de identificação dos teus sonhos. A matrícula do teu passado. O nome completo do teu coração. O estado civil dos tendões do teu pensamento. Ninguém vai. Enquanto me entreter a fazer festinhas ao tempo à paulada. Porque o tempo que engoliste sem saborear as horas e os minutos e os segundos mais ninguém vai usá-lo. Nem para pano de limpar o chão. Pacheco Eduardo
01 março, 2009
...a palavra querer
Semeio palavras.
Com elas procuro na luz
esse silêncio violeta intenso
que chega com a palavra nuvem.
Posso acordar o tempo
com a palavra miopia
lembrar-me das areias cetim
da minha infância.
Com a palavra árvore
a fragância dos pomares
num campo amarelo
sem-lágrimas.
O mundo voltará a ser
quente ao luar
tombando os punhais
na véspera da morte.
Com a palavra estrela
puxada por sete carrosséis
procuro a palavra amor,
a palavra respeito, a palavra esperança.
Faço agasalhos-poema com as coisas que descrevo.
Às vezes inscrevem-se nos olhos.
os cristais de algumas palavras
Por isso trago sempre comigo
A palavra querer.
Graça Magalhães
Com elas procuro na luz
esse silêncio violeta intenso
que chega com a palavra nuvem.
Posso acordar o tempo
com a palavra miopia
lembrar-me das areias cetim
da minha infância.
Com a palavra árvore
a fragância dos pomares
num campo amarelo
sem-lágrimas.
O mundo voltará a ser
quente ao luar
tombando os punhais
na véspera da morte.
Com a palavra estrela
puxada por sete carrosséis
procuro a palavra amor,
a palavra respeito, a palavra esperança.
Faço agasalhos-poema com as coisas que descrevo.
Às vezes inscrevem-se nos olhos.
os cristais de algumas palavras
Por isso trago sempre comigo
A palavra querer.
Graça Magalhães
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