10 abril, 2009

poços de luz



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pintura de mário botas


fui à procura da palavra
que sonhei esta noite

há um espelho nas paredes da rua
um espelho gigante

as letras chegam-me por poços rodeados
de diamantes
crescem dos braços para a lua

o silêncio
uma ciência que se prolonga
no sangue


há praças onde esculpir o sol


maria azenha

09 abril, 2009

UMA PALAVRA

anda aqui formigando uma palavra,
voa, ajeita–se num sopro,
fulge de repente, é quase tudo;
uma migalha sonora primeiro,
diminutivo de coração eleito,
a palavra,
formiga e mordica na minha cabeça,
bate intensa no meu peito,
aponta-me a mão requer tempo,
diz-se,
a maturação de um fruto
só folha verde na sombria árvore


um som calmo, ouço
eu quero-o assim, que luza
avance em verso, amadureça
e subtraia-se ao ruído à pressa
configure uma espera,
e traga o fruto, o veio, o sol,
descerre uma janela


vejo-a como uma joaninha,
insecto maravilhoso aos olhos de uma criança,
pousada no seu pulso, abrindo asas voando,
encontrei–te agora minha filha,
num puro abraço te apertando

José Ribeiro Marto

28 março, 2009

a noite Ser


tiro as mãos dentro de mim e deixo as memórias sobre a mesa desalinhada do tempo .desarticulo o rumor da rua que se reproduz .pouso a cabeça sobre a mão direita antes de deixá.la avançar lentamente .a pulseira cai em direcção aos dedos embriagados .os lábios estendem.se .o olhar perde.se liquefeito em eco .apago as imagens vívidas e brinco com os dedos abertos antes de a dorme ser .sonho.me debruçada sobre a chuva de cabelo branco a escavar o tempo e caio na margem de um sono afogada na distância do a noite Ser .sou um animal de rugas desfeitas que se encosta à dor .e sei .sei que adjectivo mal e escrevo ainda pior .não me importo .pouco me importa a palavra e o espaço que se multiplicam entre mim as imagens os dedos os olhos o tempo e o sono .as pálpebras fecham.se ao ritmo lento da voz .não me obedecem .ainda bem .antevejo uma mulher debruçada sobre um balcão de bar e grito.lhe - "hoje faço 30 anos!" - .desfaço.os e desenho.me de ombros/asas abertos .acordo .abro os olhos e vejo.me suspensa em ternura .abraço o vento e aquieto.me na [in]tranquilidade de escrever .hoje faço 30 anos .sou um barco-mulher-vento que navega a noite respirando amor e esqueço .esqueço.me que faço 30 anos

e devagar deito.me sobre as lágrimas onde se amoram as palavras



-gustav klimt.

gabriela rocha martins

27 março, 2009

Só o vazio das mãos...

A roupa cerca-nos mãe
agora que deixámos
o bater do coração.

Deixámos de cantar
sobre as asas do corpo
a verdade possível do tempo
que a mágoa extensa alastra.

A estranheza é a de haver cinza
sem ter corrido o fogo
e neste incêndio não haver perda.

Só o vazio das mãos.

Graça Magalhães.

20 março, 2009

RUA DIREITA

Foto de Nuno Verdasca

*
rua direita

é bom sentir o coração destas pedras
dentro do peito em abraço sentido
seguindo as pisadas esquecidas
das vielas esconsas e doloridas
veias do labor antigo

abro os sentidos por entre as casas
velhas da cidade companheiras
exaustas dos caminhos suaves
onde se entretece a memória


orlando cardoso


( Lido durante as comemorações, em Leiria, do Dia Mundial da Poesia, numa parceria da Livraria Arquivo, do Te-Ato e da Câmara Municipal. Foram lidos poemas de vários autores, por elementos daquele Grupo de Teatro de Leiria, em diversos locais da cidade ).


Foto de Augusto Mota

CROCODILOS NO DOURO

Metamorfose - desenho de Augusto Mota, 1961
Flo-master e marcador, 31 x 49 cm.
*
Crocodilos no Douro
É pior do que Camões ferido em Ceuta.
O instante, a fotografia,
O efémero para fins comerciais
Atira para os olhos um fumo de cozinha
Jornalístico, garrido, fotogénico.

O Douro não nasceu mouro,
De um canteiro fazem uma pipa
Vinho no rosto dos socalcos
A vender-se, a vender-nos, a beber-se e beber-nos,
Nesta terra além, não dos mares
Mas dos tempos, entre dois lugares.

A Gorgona canta destinos,
E do nosso, desolhados,
Seguramos o manuscrito
No mar que nos coube a Oriente,
Em dia de poesia,
Depois de termos sido país.

Crocodilos no Douro?
Quem sabe se destino
De mares de sargaços,
Estiagem de prémios vis
Na Lisboa onde o rosto
Foi para detrás do sol-posto.

António Augusto Menano, 19.03.2009

CORPOEMA

Borboleta Cauda de Andorinha (Papilio machaon)
Foto de Augusto Mota
*


quando
sinto a poesia
dentro do corpo
é que sei
que não estou morto -
Sob as pálpebras,
no rosto,
entre os dedos,
as palavras,
como crisálidas adormecidas,
esperam,
trémulas,
as asas que as desprendam -
as asas que tu lhes trazes! -
E é só quando chegas
e me beijas o corpo,
verso a verso,
e o lês como se lê um livro,
que elas se libertam
e eu sei que estou vivo -
E vou
E voo
em cada palavra
ao encontro de ti
ao encontro de mim
no corpo do poema.


António Simões, 1978

PROCURA

procura o nome mais distante para um relâmpago,
talvez exista no âmago de uma caligrafia estelar,
se a procura for brusca ou imprecisa ,
se um raio quebrado desenhar um rosto no céu ,
procura a festa no calendário dos pássaros

eles transportam o fogo, a água, o pão,
conhecem os sinais das tempestades,
decifram o ar em segundos,
batalham asas a planar,
são do mundo ,
são as sementes eternas da terra,
pousam num incidente escasso de tempo,
num só vislumbre vêm descansar

José Ribeiro Marto

SÃO VERSOS

Esperança - desenho de Augusto Mota, 1961
Guache e flo-master, 29,5 x 28 cm.
*
II
são versos............ esboços incompletos
do povo............ volátil corpo
matéria
ao longo de trinta anos
azul de anil
é cor............ espanto
grito............ negação
quem usurpou de Abril
o R
de REVOLUÇÃO ?

gabriela rocha martins, in «.delete.me.»,
edição ”Folheto Edições & Design”, Leiria, 2008, p.41

17 março, 2009

10 março, 2009

flauta silenciosa

Flores e brotos floríferos de Cerejeira (Prunus avium) - foto: Augusto Mota

*

o poema é feito de nossas próprias vértebras
disse-o Maiakowski
indicando onde começa a direcção da montanha

aguarda longas estações no decorrer do gelo
libertando a lua do orvalho branco
a meia distância da casa do silêncio
e das florestas do sândalo



os brotos mais tenros
invadem a primavera
chegando com a luz do jade

e os versos tombam em frutos dourados



maria azenha


08 março, 2009

ENCANTA-ME

Rio de Flores - Foto de Augusto Mota, 8 Março, 2009.
Colipo / Quinta de S. Sebastião do Freixo.
*

A Yvette K. Centeno

Encanta-me,
conta-me um rio que já existiu,
põe de árvore a primitiva ponte,
uma corrente bravia só no estio;
o horizonte na frescura da erva
talha-o a degraus numa só pedra

Encanta-me,
conta-me um rio que já existiu,
que eu amanheça nessa espera,
em que todos já disseram:
é dia.
E eu atenda ao silêncio,
só quando entardece


Conta-me um rio,
com um sol que já se viu,
num céu de luz e de nuvens,
tocado, manso, frio

Conta-me um rio,
onde eu fique descalço,
e os teus braços só tenham
dos meus estes abraços.

Conta-me um rio,
com uma fera que gema e ria,
tremendo da mesma espera,
uive o vento morno do dia.

Encanta-me,
conta-me desse rio que já existiu,
o longo curso fundo , manso,
e a tal fera a pedra lance,
eu descanse.

Encanta-me,
faz-me de mirto azul de chuva,
candeia alta, margem sussurro,
eu sopre o vento - descanse

Encanta-me ,
conta-me um rio,
estas casas são demasiado altas,
este silêncio vem inteiro da noite,
podre já vem o dia.

José Ribeiro Marto

07 março, 2009

08.03.2009 - parabéns ,amiga!

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Foi um tempo de deixar falar os afectos
......
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excerto e fotografias de Fernanda Sal Monteiro ( clique )
entre o corpo e o crepúsculo a terra
tão súbita tão pura
a mesma sede

deixa-me colher na vigília deste vento
a palma desta fonte
a viandante estria a dor viril
da nua madrugada

deixa-me escorrer no sol assente o baleado sonho
a sangue frio
líquida como as ondas e os anjos.

mariagomes
dez, 2008