20 julho, 2009
05 julho, 2009
O rouxinol de Bernardim
O rouxinol de Bernardim
era teu ou era meu
quando veio de madrugada
tecer seu canto no muro do jardim?
E após breve pousada
levou os séculos voando
quando perto já de ti ,
vim abrir para dentro as portadas.
Ouviam-se carros nas estradas
o rouxinol desaparecia , voava.
À procura de uma árvore
destroçada sobre a terra exangue
na paisagem, vidros partidos , papéis ,
galhos , jornais, a tinta a sangue
No jardim de minha casa
há sempre uma rima de Bernardim
que canta aflita de madrugada ,
como se houvesse uma levada
e essa fosse, a do teu amor por mim!
José Ribeiro Marto , Pastoreio , pag. 36, Edições Temas Originais
era teu ou era meu
quando veio de madrugada
tecer seu canto no muro do jardim?
E após breve pousada
levou os séculos voando
quando perto já de ti ,
vim abrir para dentro as portadas.
Ouviam-se carros nas estradas
o rouxinol desaparecia , voava.
À procura de uma árvore
destroçada sobre a terra exangue
na paisagem, vidros partidos , papéis ,
galhos , jornais, a tinta a sangue
No jardim de minha casa
há sempre uma rima de Bernardim
que canta aflita de madrugada ,
como se houvesse uma levada
e essa fosse, a do teu amor por mim!
José Ribeiro Marto , Pastoreio , pag. 36, Edições Temas Originais
04 julho, 2009
Pássaros de Silêncio - Xerófilas
*
Xerófilas - desenho de Augusto Mota (1960), 32x38,5 cm.
Café e tinta-da-china
*
1.
Entre as folhas e o tempo
despertam pássaros de silêncio
única fronteira de ventos
a cobrir de olhos salgados
restos de divisão
lábios fechados
depois acendo a boca e o adeus perfeito
onde nascem laranjas do peito .... aves inquietas
GRAÇA MAGALHÃES, in «Na memória dos pássaros»,
"Palimage Editores", Viseu, 2006, 2ª edição, p.4.
Entre as folhas e o tempo
despertam pássaros de silêncio
única fronteira de ventos
a cobrir de olhos salgados
restos de divisão
lábios fechados
depois acendo a boca e o adeus perfeito
onde nascem laranjas do peito .... aves inquietas
GRAÇA MAGALHÃES, in «Na memória dos pássaros»,
"Palimage Editores", Viseu, 2006, 2ª edição, p.4.
03 julho, 2009
MINHA MÃE BORDOU SEU NOME
*
*
Lenço bordado por uma aluna da Academia
*
Às talentosas bordadeiras da Academia Sénior de Estremoz
*
*
1.
Com linhas de várias cores
E com pontos variados,
Nascem pássaros e flores
Na tarefa dos bordados.
2.
Minha mãe bordou seu nome
No lençol da minha alma –
E quando a alma não dorme,
À noite o nome me acalma.
3.
Não tens pano pró bordado
E o resto voou no vento?
Qu’isso não te dê cuidado,
Borda o ar, se tens talento.
4.
Bordo o lume do poente,
O nascer branco do dia –
Só a linha é diferente:
Uma é quente, a outra fria.
5.
Mas quando bordo a meu gosto
Num paninho de cetim,
Bordo a forma de teu rosto
Para ter-te junto a mim.
6.
Bordaste os dois namorados
À beira de dar um beijo.
Ali ficam separados,
Sem cumprir o seu desejo.
António Simões, Junho de 2009
Com linhas de várias cores
E com pontos variados,
Nascem pássaros e flores
Na tarefa dos bordados.
2.
Minha mãe bordou seu nome
No lençol da minha alma –
E quando a alma não dorme,
À noite o nome me acalma.
3.
Não tens pano pró bordado
E o resto voou no vento?
Qu’isso não te dê cuidado,
Borda o ar, se tens talento.
4.
Bordo o lume do poente,
O nascer branco do dia –
Só a linha é diferente:
Uma é quente, a outra fria.
5.
Mas quando bordo a meu gosto
Num paninho de cetim,
Bordo a forma de teu rosto
Para ter-te junto a mim.
6.
Bordaste os dois namorados
À beira de dar um beijo.
Ali ficam separados,
Sem cumprir o seu desejo.
António Simões, Junho de 2009
*
02 julho, 2009
usina de sonhos (com o meu abraço, agora, que voltei mais inteira)
.
Caros Marginais da Poesia:
partilho com Alegria a minha estada em dois Córregos e a possibilidade de aí apresentar o meu trabalho poético.
Constou de uma Parábola em três partes:
Um breve discurso livre (2.º momento)
que tomou como ponto de partida a leitura
(1.º momento) do documento que abaixo se transcreve.
.
E o ritual poético propriamente dito,
que foi desenrolado num 3.º momento
em torno de fragmentos do meu inédito (2003)
"resguardo das Esfinges. declinações do branco".
.
.
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"O pacto a firmar com este texto será sempre «de inconforto« (não de desconforto, mas de inquietação, no que o termo tem de mais estimulante): não estamos aqui para ler coisas de esquecer; não estamos aqui para falar de histórias de uma história que todos conhecemos, porque elas não se alteraram muito nos últimos duzentos e cinquenta anos e continuamos a vivê-las e a observá-las no nosso dia a dia. São as histórias de um género que se impôs como narrativa realista, se transformou no paradigma máximo daquilo a que se chama «literatura«, e se ocupa quase sem excepção de destinos individuais, de sujeitos que não ultrapassam uma dimensão psicológica e emocional, e não se movimentam para além de uma espécie de redil, a que se chama sociedade, e onde um um número limitado de «tipos« lutam para se anularem uns aos outros, psíquica ou economicamente — a essa «arte narrativa« chamou Maurice Blanchot «a eterna literatura das amas (Blanchot: 1984, 150). Em certos casos, projectam-se esses conflitos num fundo avermelhado que os faz cair na História, que é sempre a história do poder de uns quantos sobre outros, nunca a da pujança latente em todos e no Ser em geral, que está aí e nos olha (é deste olhar das coisas e dos Vivos, que nós nem sempre dominamos, que vem o inconforto e o medo que alimentam uma escrita-outra, como é a de Maria Gabriela Llansol). Por vezes, já mais próximo de nós, alguns, poucos, souberam afinar a atenção para aquilo que o mundo (dos mundos) nos olha, transformá-la numa espécie de «oração natural da alma«, e produzir com isso textos em que outras dimensões afloram, outras figuras dominam — a do oxímoro, a da ironia ou do paradoxo —, perturbantes também eles, mas quase nunca jubilosos, antes trágicos (a isso chamou-se Modernidade ou Modernismo, e alguns dos seus grandes nomes foram, por exemplo, Kafka, Musil ou Pessoa (...) ".
.
Barrento, João. 2008. "A Chave de Ler. Caminhos do Texto de Maria Gabriela Llansol". Na Dobra do Mundo - Escritos Llansolianos. 1.ª ed. Lisboa: Mariposa Azul, 32-33.
.
Referência: Blanchot, Maurice. 1984. O Livro por Vir. Lisboa: Relógio d´Água.
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para aceder a fragmentos de "resguardo das Esfinges. declinações do branco." clicar aqui.
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O meu Abraço de Parabéns a Maria do Sameiro!
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(...)Pelos campos do Lis... Pobre cidade, a minha !


«Cai, sobre a cidade do Liz, o silêncio e a calma de um dia quente de setembro: é este, sempre, momento íntimo e forte que convida, instiga mesmo, à meditação sobre os valores e a pureza dos elementos cósmicos, olhando o sombreado que o poderoso astro solar sacode mansamente sobre os pobres humanos, antes que se aproxime a estrela da madrugada. Mas em lugar nenhum do mundo essa magia é tão pura como nesta cidade! Porque leves Zéfiros inspiradores trazem no ar, não já as brisas do Liz, (sopram de outros quadrantes) mas sim o aroma inspirador das pocilgas e/ou das "etars". É como se o campo viesse dar um beijo de boas noites oloroso e romântico à cidade! E nesta terra de amores reais cantados, e tantos outros amores sussurrados, os leirienses, contagiados e enfeitiçados por estes aromáticos fins de tarde, sonham, inebriados, com Isabel. A amantíssima esposa e rainha do rei do “verde pinho”; a que conseguia transformar o encardido pão em rosas aromáticas. Pudesse ela sentir estes odores porcinos da sua cidade que embriagam todos os fins de tarde ; os quentes, os ventosos, os húmidos, os frios... Pudesse a Santa Isabel, a das rosas, fazer outra vez o milagre, mas não com o pão ...
Ai, como eu gosto dos fins de tarde na minha cidade, onde chega o aroma forte e acre..., das estevas, quando o vento se engana e sopra de leste!»
Ai, como eu gosto dos fins de tarde na minha cidade, onde chega o aroma forte e acre..., das estevas, quando o vento se engana e sopra de leste!»
23 junho, 2009
Maria do Sameiro Barroso lança novo livro

Maria do Sameiro Barroso, vencedora do Prémio de Poesia António Patrício 2008, atribuído pela SOPEAM (Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos), verá a sua mais recente criação poética, "As Vindimas da Noite", com a chancela Labirinto, ser lançada no próximo dia 26 de Junho, às 18h 30m, na Livraria Centésima Página, em Braga.
A apresentação caberá ao escritor e ensaísta Carlos Vaz. Apareça!
13 junho, 2009
são mortais

-kassandra.
deixaste sobre a minha secretária uma nota .esqueceste no entanto de assiná.la .não é que seja necessário .não tenciono responder .não quero responder à chuva .sim .há uma chuva irritante que cai dentro das palavras .encharca.as .fá.las escorrer .a nota inicial mente colorida com caracteres uniformes re toma a virgindade inicial .resta o vazio .seco .sabes que me apetece enchê.la de vagabundos dissidentes prostitutas e marginais? claro que sabes .sabes que os prefiro aos seres perfeitos e previsíveis re vestidos de tristes memórias e palavras cinzentas .aqueles pelo menos foram concebidos em liberdade .in tolerados .são os transgressores dos ritos .escrevem com os corpos textos proibidos e sangram cidades estrelas bairros e subúrbios .há uma sintonia perfeita entre eles e os ponteiros do relógio são mortais

gabriela rocha martins.
06 junho, 2009
Sem mais...
Centro de uma Papoila-das-searas (Papaver rhoeas)
foto: Augusto Mota
Sem mais arrefecer-me o sangue
que venha
o incenso descampado
de flores em movimento
de olhos fechados
oferecer-me a boca.
Há escaparates
de mãos ardentes
e uma sede feroz.
Que venha
um deus de fogo
o tempo jurado contra a noite
os pântanos que a morte tem.
Na cintura do parque,
os ossos dilatam-se,
e eu tenho a chave da noite.
Graça Magalhães.
que venha
o incenso descampado
de flores em movimento
de olhos fechados
oferecer-me a boca.
Há escaparates
de mãos ardentes
e uma sede feroz.
Que venha
um deus de fogo
o tempo jurado contra a noite
os pântanos que a morte tem.
Na cintura do parque,
os ossos dilatam-se,
e eu tenho a chave da noite.
Graça Magalhães.
05 junho, 2009
02 junho, 2009
A TRISTEZA PÚBLICA
Veios de uma velha oliveira / foto: Augusto Mota
funda-se a tristeza num só dia, despoja-se da inutilidade das coisas áridas,
permanece um sopro de vento, uma lembrança inquieta, uma espera sobressaltada no sabor de um café,
tudo se espelha aparente, mensurável, tudo padece da quietude severa de quem forjou o silêncio, tudo muito antes da nomeação do homem público
tudo se distribui, desirmana, se esbate de improvável alegria,
um nome mais forte numa língua árdua dissolve-se, não aguarda,
tudo se arrima ao baralho insolente de prendas várias, irreconciliáveis de repente,
e eu que folgo o jeito desastrado que há nas coisas,
desbravo um caminho de água só com o frémito das palavras,
quero-as sem as ter alinhadas nos vales , nas enseadas,
por distracção chovem gotas de água nos olhos de fera presa,
mancham as peúgadas , irreconciliáveis às vezes,
cobrem de mar o infinito que decresce opaco,
num relógio mal preso ao susto de um pulso indefeso,
circula o sangue de que sou feito, e é-me estranho.
ando, palmilho o distante , o secreto, a chama trémula,
o vento invariável e opresso na ausência,
vagueio pela vigília, sigo adiante,
porque não me sei nem mais perto nem mais longe;
o tempo irrompe da crisálida, a primavera e o seu sustento,
não há chave duradoura nas mãos, há o fundamento
inteiro , liso de não cobrir os dias com a velha malha,
o podre ardil que assalta as coisas inócuas e as releva,
não se sobressalta , não desafia não arrisca a cor aos dias,
distribui-se a ferramenta, o fosco olhar da aritmética,
o fundamento cruza as árvores, socorre-as do desbaste;
ergue-as no linho dos pássaros, alimenta-as,
não é vão clamar por exílio deste mundo ,
que se apura na grosseria do homem público,
no desaire de reparação ao crescendo enfado,
de se ouvir tanques, explosões de guerras várias
negócios , fraudes , alinhamentos , cegueira que não invade
lidando com a irrelevância de coisa pouca dos nossos dias.
José Ribeiro Marto
permanece um sopro de vento, uma lembrança inquieta, uma espera sobressaltada no sabor de um café,
tudo se espelha aparente, mensurável, tudo padece da quietude severa de quem forjou o silêncio, tudo muito antes da nomeação do homem público
tudo se distribui, desirmana, se esbate de improvável alegria,
um nome mais forte numa língua árdua dissolve-se, não aguarda,
tudo se arrima ao baralho insolente de prendas várias, irreconciliáveis de repente,
e eu que folgo o jeito desastrado que há nas coisas,
desbravo um caminho de água só com o frémito das palavras,
quero-as sem as ter alinhadas nos vales , nas enseadas,
por distracção chovem gotas de água nos olhos de fera presa,
mancham as peúgadas , irreconciliáveis às vezes,
cobrem de mar o infinito que decresce opaco,
num relógio mal preso ao susto de um pulso indefeso,
circula o sangue de que sou feito, e é-me estranho.
ando, palmilho o distante , o secreto, a chama trémula,
o vento invariável e opresso na ausência,
vagueio pela vigília, sigo adiante,
porque não me sei nem mais perto nem mais longe;
o tempo irrompe da crisálida, a primavera e o seu sustento,
não há chave duradoura nas mãos, há o fundamento
inteiro , liso de não cobrir os dias com a velha malha,
o podre ardil que assalta as coisas inócuas e as releva,
não se sobressalta , não desafia não arrisca a cor aos dias,
distribui-se a ferramenta, o fosco olhar da aritmética,
o fundamento cruza as árvores, socorre-as do desbaste;
ergue-as no linho dos pássaros, alimenta-as,
não é vão clamar por exílio deste mundo ,
que se apura na grosseria do homem público,
no desaire de reparação ao crescendo enfado,
de se ouvir tanques, explosões de guerras várias
negócios , fraudes , alinhamentos , cegueira que não invade
lidando com a irrelevância de coisa pouca dos nossos dias.
José Ribeiro Marto
31 maio, 2009
30 maio, 2009
24 maio, 2009
cante quatorze* - a dor

uma dor profunda
irracional
irracional
arde no peito
da ave que repousa
na impossibilidade de guarnecer o nada
o imponderável subsiste
quando a dor volta
como se de uma velha amiga se tratasse e
trata
ninguém interfere com o esvoaçar da borboleta
ferida
um pássaro olha.a
num lento e timbrado bater de asas
fecha.se um livro sobre o corpo da borboleta
as asas projectam.se na lombada
do olhar do pássaro
impenetrável
abre as asas
negras
de contornos azuis e verdes
o negro impera
como a dor
torna.se irrespirável e
o som das asas da borboleta adorna
um corpo moribundo de mulher
a melancolia profunda
torna.se física
na insistência das horas
que não passam
o telefone que não toca
a tristeza
insistente
mente
regressa no segundo seguinte
restam duas
a melancolia e a mulher
e o pássaro
e a borboleta
e o livro
afinal são cinco
uma mão cheia de nada
ainda se o colofão ousasse!
da ave que repousa
na impossibilidade de guarnecer o nada
o imponderável subsiste
quando a dor volta
como se de uma velha amiga se tratasse e
trata
ninguém interfere com o esvoaçar da borboleta
ferida
um pássaro olha.a
num lento e timbrado bater de asas
fecha.se um livro sobre o corpo da borboleta
as asas projectam.se na lombada
do olhar do pássaro
impenetrável
abre as asas
negras
de contornos azuis e verdes
o negro impera
como a dor
torna.se irrespirável e
o som das asas da borboleta adorna
um corpo moribundo de mulher
a melancolia profunda
torna.se física
na insistência das horas
que não passam
o telefone que não toca
a tristeza
insistente
mente
regressa no segundo seguinte
restam duas
a melancolia e a mulher
e o pássaro
e a borboleta
e o livro
afinal são cinco
uma mão cheia de nada
ainda se o colofão ousasse!
-vasely curtains.
______________________
*sou ,endemicamente ,contra o acordo ortográfico - não passei procuração a ninguém para decidir por mim - razão porque continuarei a escrever o português como aprendi .não aceito que "certos" Puristas da Língua me interditem...
gabriela rocha martins.17 maio, 2009
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