21 agosto, 2009

20 agosto, 2009

MORADAS DO SILÊNCIO

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Moradas do silêncio
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Silves / foto de Torquato da Luz / Agosto de 2009

O silêncio tem muitas moradas,
todas elas
com várias portas e janelas,
saídas e entradas.
São moradas que o tempo
ergue em qualquer lugar
sem recear que o vento
as venha habitar.
Mas nenhuma tão cheia
de perfume do mar
como a que tenho ideia
de ler no seu olhar.

Torquato da Luz

NÃO É PRECISO

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Janela / Sines

Janela / Sines - foto de Carlos A. Silva

Não é preciso a torrente
para explicar uma ponte,
basta um bago de suor
deslizando pela fronte.

Não é preciso o luzeiro
de uma estrela cadente,
basta apenas duas casas,
com as portas frente a frente.

Não é preciso um rugido
arrancado à multidão,
basta um fio de voz
entoando uma canção.

Não é preciso juncar
a rua toda de flores,
basta o vento que traz
o som cavo dos tambores.

Não é preciso correr mundo
à procura da verdade,
basta acalentar no peito
esse sonho sem idade.

Não é preciso bandeira,
nem emblema ou sinal,
bastam duas almas simples
irmanadas num ideal.

Não é preciso que o sol brilhe
para que o dia valha a pena,
basta abrir o coração
e colher uma açucena.

Carlos Alberto Silva, 19 de Agosto, 2009

17 agosto, 2009

12 agosto, 2009

No teu deserto*




"escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais ,já não escreves ,porque não te resta nada para dizer"

-*Miguel Sousa Tavares.

se te disser - tenho saudades - acreditas? sei que não
mas sim .hoje tenho saudades das tuas asas e do teu desalinho que te transformavam de ave em fonte .de vida .do deserto onde pintavas caravanas de amor .das dunas onde dentro escondias os poemas .havia um lirismo que te incendiava os dedos e a minha boca fechada tentava captar os sons do universo .eram asas os teus braços e linhas as tuas mãos .guiavas - 4X4 - naquele silêncio sereno que me habituou a ver .a sentir .a ser .o nada .o absoluto .tu gritavas .eu sorria e as pistas cobriam.se daquele frio de incêndio que só nós sabíamos traduzir .uma noite apontei.te o ruído das estrelas onde te reservei um espaço cativo .lembras.te? amanhã voltarei ao mesmo lugar .contarei de novo as estrelas e cuidarei de atirar pássaros de luz contra a escuridão do teu não estar .em comum manterei a solidão a memória a tenda e o livro aberto ao teu corpo .a tua fragilidade a minha força .o meu medo o teu arbítrio .doem.me as mãos ao desmontar.te .acaso descobrirei o trilho que os deuses nos reservaram

ou descerei a num novo poço de [in]significantes?



10 agosto, 2009

Regresso me


fotos e composição do vídeo de fernanda s.m. - http://estrela-da-madrugada.blogspot.com/

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Regresso me
como se o silêncio
coberto a norte
e agitando as mãos
pudesse trazer outra vez
a brisa acrílica das ondas

e pudesse emergir do inferno
regando temporais de fogo
na combustão das saudades
nos molhos de lilases castanhos

Ainda acredito nos insectos
que não mordem intervalos de pele.
e adormeço o silêncio
das tardes alagadas

Nos meus olhos escorregavas a boca
pela nuca de salsa
e eu corria a imensidão do planeta entre as
mãos.

***** Graça Magalhães -

http://www.namemoriadospassaros.blogspot.com/

03 agosto, 2009

29 julho, 2009

Ocupo-me de perguntar...

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Muito grande plano de pétalas de rosa orvalhada
Foto de Augusto Mota

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Canso-me de acordar o princípio da demência
de voltar e perguntar sem responder

Ocupo-me de velar pelo som do tempo
de procurar a chuva certa o minuto a dobrar
de abraçar o coração do boi dentro do silêncio
de saber a pedra encontrar o rio nos pés

Ocupo-me de perguntar
e gostaria que o meu coração pudesse amanhecer
nas amêndoas vermelhas de uma árvore cheia de mãos.

Graça Magalhães, Julho 2009

25 julho, 2009

05 julho, 2009

O rouxinol de Bernardim

O rouxinol de Bernardim
era teu ou era meu
quando veio de madrugada
tecer seu canto no muro do jardim?
E após breve pousada
levou os séculos voando
quando perto já de ti ,
vim abrir para dentro as portadas.
Ouviam-se carros nas estradas
o rouxinol desaparecia , voava.
À procura de uma árvore
destroçada sobre a terra exangue
na paisagem, vidros partidos , papéis ,
galhos , jornais, a tinta a sangue

No jardim de minha casa
há sempre uma rima de Bernardim
que canta aflita de madrugada ,
como se houvesse uma levada
e essa fosse, a do teu amor por mim!

José Ribeiro Marto , Pastoreio , pag. 36, Edições Temas Originais

04 julho, 2009

Pássaros de Silêncio - Xerófilas

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Photobucket

Xerófilas - desenho de Augusto Mota (1960), 32x38,5 cm.
Café e tinta-da-china
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1.

Entre as folhas e o tempo
despertam pássaros de silêncio
única fronteira de ventos
a cobrir de olhos salgados
restos de divisão
lábios fechados

depois acendo a boca e o adeus perfeito
onde nascem laranjas do peito .... aves inquietas

GRAÇA MAGALHÃES, in «Na memória dos pássaros»,
"Palimage Editores", Viseu, 2006, 2ª edição, p.4.

03 julho, 2009

MINHA MÃE BORDOU SEU NOME

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Lenço bordado por uma aluna da Academia

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Às talentosas bordadeiras da Academia Sénior de Estremoz
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1.
Com linhas de várias cores
E com pontos variados,
Nascem pássaros e flores
Na tarefa dos bordados.

2.
Minha mãe bordou seu nome
No lençol da minha alma –
E quando a alma não dorme,
À noite o nome me acalma.

3.
Não tens pano pró bordado
E o resto voou no vento?
Qu’isso não te dê cuidado,
Borda o ar, se tens talento.

4.
Bordo o lume do poente,
O nascer branco do dia –
Só a linha é diferente:
Uma é quente, a outra fria.

5.
Mas quando bordo a meu gosto
Num paninho de cetim,
Bordo a forma de teu rosto
Para ter-te junto a mim.

6.
Bordaste os dois namorados
À beira de dar um beijo.
Ali ficam separados,
Sem cumprir o seu desejo.

António Simões, Junho de 2009
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Lenço bordado por uma aluna da Academia

02 julho, 2009

usina de sonhos (com o meu abraço, agora, que voltei mais inteira)

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Caros Marginais da Poesia
partilho com Alegria a minha estada em dois Córregos e a possibilidade de aí apresentar o meu trabalho poético.
Constou de uma Parábola em três partes:
Um breve discurso livre (2.º momento)
que tomou como ponto de partida a leitura
(1.º momento) do documento que abaixo se transcreve.
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E o ritual poético propriamente dito,
que foi desenrolado num 3.º momento
em torno de fragmentos do meu inédito (2003)
"resguardo das Esfinges. declinações do branco".
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"O pacto a firmar com este texto será sempre «de inconforto« (não de desconforto, mas de inquietação, no que o termo tem de mais estimulante): não estamos aqui para ler coisas de esquecer; não estamos aqui para falar de histórias de uma história que todos conhecemos, porque elas não se alteraram muito nos últimos duzentos e cinquenta anos e continuamos a vivê-las e a observá-las no nosso dia a dia. São as histórias de um género que se impôs como narrativa realista, se transformou no paradigma máximo daquilo a que se chama «literatura«, e se ocupa quase sem excepção de destinos individuais, de sujeitos que não ultrapassam uma dimensão psicológica e emocional, e não se movimentam para além de uma espécie de redil, a que se chama sociedade, e onde um um número limitado de «tipos« lutam para se anularem uns aos outros, psíquica ou economicamente — a essa «arte narrativa« chamou Maurice Blanchot «a eterna literatura das amas (Blanchot: 1984, 150). Em certos casos, projectam-se esses conflitos num fundo avermelhado que os faz cair na História, que é sempre a história do poder de uns quantos sobre outros, nunca a da pujança latente em todos e no Ser em geral, que está aí e nos olha (é deste olhar das coisas e dos Vivos, que nós nem sempre dominamos, que vem o inconforto e o medo que alimentam uma escrita-outra, como é a de Maria Gabriela Llansol). Por vezes, já mais próximo de nós, alguns, poucos, souberam afinar a atenção para aquilo que o mundo (dos mundos) nos olha, transformá-la numa espécie de «oração natural da alma«, e produzir com isso textos em que outras dimensões afloram, outras figuras dominam — a do oxímoro, a da ironia ou do paradoxo —, perturbantes também eles, mas quase nunca jubilosos, antes trágicos (a isso chamou-se Modernidade ou Modernismo, e alguns dos seus grandes nomes foram, por exemplo, Kafka, Musil ou Pessoa (...) ".
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Barrento, João. 2008. "A Chave de Ler. Caminhos do Texto de Maria Gabriela Llansol". Na Dobra do Mundo - Escritos Llansolianos. 1.ª ed. Lisboa: Mariposa Azul, 32-33.
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Referência: Blanchot, Maurice. 1984. O Livro por Vir. Lisboa: Relógio d´Água.
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para aceder a fragmentos de "resguardo das Esfinges. declinações do branco." clicar aqui.
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O meu Abraço de Parabéns a Maria do Sameiro!
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(...)Pelos campos do Lis... Pobre cidade, a minha !



«Cai, sobre a cidade do Liz, o silêncio e a calma de um dia quente de setembro: é este, sempre, momento íntimo e forte que convida, instiga mesmo, à meditação sobre os valores e a pureza dos elementos cósmicos, olhando o sombreado que o poderoso astro solar sacode mansamente sobre os pobres humanos, antes que se aproxime a estrela da madrugada. Mas em lugar nenhum do mundo essa magia é tão pura como nesta cidade! Porque leves Zéfiros inspiradores trazem no ar, não já as brisas do Liz, (sopram de outros quadrantes) mas sim o aroma inspirador das pocilgas e/ou das "etars". É como se o campo viesse dar um beijo de boas noites oloroso e romântico à cidade! E nesta terra de amores reais cantados, e tantos outros amores sussurrados, os leirienses, contagiados e enfeitiçados por estes aromáticos fins de tarde, sonham, inebriados, com Isabel. A amantíssima esposa e rainha do rei do “verde pinho”; a que conseguia transformar o encardido pão em rosas aromáticas. Pudesse ela sentir estes odores porcinos da sua cidade que embriagam todos os fins de tarde ; os quentes, os ventosos, os húmidos, os frios... Pudesse a Santa Isabel, a das rosas, fazer outra vez o milagre, mas não com o pão ...

Ai, como eu gosto dos fins de tarde na minha cidade, onde chega o aroma forte e acre..., das estevas, quando o vento se engana e sopra de leste!»


Texto e fotografias de Fernanda Sal Monteiro.