02 novembro, 2009

Hibisco
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Hibisco (Hibiscus rosa-sinensis)
foto: Augusto Mota
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Infante
anjo menino
ao ouvido da memória
traço oblíquo de
silêncio
um sulco de púrpura
também fascínio
quero zarpar um rio
a aveleira azul
e um ramo de lâminas.

Morrer devagar
Coagular devagarinho
O sangue em brasa.

Graça Magalhães, Novembro, 2009

20 outubro, 2009

Planto as algas de Novembro

E então as palavras de néon
um candeeiro de cobre
na latitude do vento

também noites sem vértices
faróis tremendo água
e formigas encarnadas
degustando planetas
descendo as órbitas da carne.

Nunca medi o prazer do céu.

As medusas na pele adormecem o frio.

Graça Magalhães, Outubro 2009

18 outubro, 2009

13 outubro, 2009

TEXTO INVERSO

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foto: Pedro Carvalho

09 outubro, 2009

06 outubro, 2009

Korean Songs - O meu coração

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O MEU CORAÇÃO
(poema musical que descreve um amor não correspondido)


O meu coração é um lago, meu amor,
vem remar sobre ele.
Despedaçar-me-ei contra o teu barco como uma
pedra de jade contra a tua sombra branca.


O meu coração é uma vela, meu amor;
fecha a porta, por favor.
Arderei tranquilamente até ao fim
sem que uma única lágrima trema e caia
sobre a tua saia de seda.


O meu coração é um vagabundo, meu amor;
por favor, toca flauta.
Ficarei tranquilamente toda a noite
a ouvir-te tocá-la sob a lua.


O meu coração é uma folha caída, meu amor,
permite-me que fique um pouco no teu jardim.
Quando o vento soprar, deixar-te-ei,
e serei de novo um vagabundo solitário.


"Versão livre a partir do texto em francês de: Dong-Myung Kim, musicado por Dong-Jin Kim".


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28 setembro, 2009

Sobr'Arte - Da Literatura

Mesa Redonda - Sobr'Arte





Da Criação à Edição
"O Poeta só o será quando a sua imaginação for além da imaginação do Universo" - António Maria Lisboa


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Maria Azenha
( umas "luvas de aprendizes" abraçam.na )


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Maria Azenha ,Inês Ramos e Fernando Esteves Pinto.



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Inês Ramos ,Fernando Esteves Pinto ,Gabriela Rocha Martins ,Daniel Vieira e Lisete Martins.


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Lisete Martins e Daniel Vieira.


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Adão Contreiras.






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Fernando Esteves Pinto.








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Inês Ramos e Fernando Esteves Pinto.


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À esquerda de Inês Ramos , o poeta Fernando Esteves Pinto.




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Maria Azenha e Inês Ramos




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No passado sábado ,a Casa Museu João de Deus levou a efeito uma Mesa Redonda sobre "A Literatura - Da Criação à Edição" que contou com a presença dos seguintes Poetas/Intervenientes - Maria Azenha e Fernando Esteves Pinto .Inês Ramos moderou e desafiou os artistas plásticos Adão Contreiras e Daniel Vieira ,no outro lado da mesa ,assim como a directora do Grupo de Teatro "Penedo Grande", Lisete Martins.

[ para que as memórias não se percam ,sigam ainda o rasto de "Sobr'Arte - Da Literatura" em Bosque Azul e Casa Museu João de Deus ]

FRASEADOR

A FRASEOLOGIA DA PEDRA
Mosteiro da Batalha - Capelas Incompletas / foto de Augusto Mota

Hoje eu completei oitenta e cinco anos. O poeta nasceu de treze. Naquela ocasião escrevi uma carta aos meus pais, que moravam na fazenda, contando que eu já decidira o que queria ser no meu futuro. Que eu não queria ser doutor. Nem doutor de curar nem doutor de fazer casa nem doutor de medir terras. Que eu queria era ser fraseador. Meu pai ficou meio vago depois de ler a carta. Minha mãe inclinou a cabeça. Eu queria ser fraseador e não doutor. Então, o meu irmão mais velho perguntou: Mas esse tal de fraseador bota mantimento em casa? Eu não queria ser doutor, eu só queria ser fraseador. Meu irmão insistiu: Mas se fraseador não bota mantimento em casa, nós temos que botar uma enxada na mão desse menino pra ele deixar de variar. A mãe baixou a cabeça um pouco mais. O pai continuou meio vago. Mas não botou enxada.

Manoel Barros, in Memórias inventadas: a Infância / São Paulo, Planeta, 2003.

26 setembro, 2009

De Repente

Carrego parco peso do silêncio
Ouço
É uma ave nocturna pousada no varadim
Veio com a noite fez-se escura
Cantou com dobras de sino e tábua
Festejou a lua ofereceu as asas
Quis-se inteira habitando o ar da casa

Mas eu sonho o distante e o inteiro da luz
E não consenti que viesse acender meu sangue
No rasgo de um dobrar de asas

Deixei que os pés me fossem chão
Que o corpo vogasse num barco defeso na água
Que a escuridão da noite
Fosse gesto consentido
Estreme na noite intíma só a casa

Deixei que uma gramática me assaltasse as horas
Escrevesse por ela o meu voo libertasse a minha asa
Não desiste de me chamar a ave

No varadim incendeia gutural a noite
Com os olhos de menino parto para longe
E trago uma infância aquecida a fogo posto


José Ribeiro Marto

21 setembro, 2009

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Passiflora 'Crimson Tears' / foto Augusto Mota

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Atravesso desbotados
anjos que o tempo não devolve

existências de água e vento
onde habitam sons de prata
eternidade por dentro
desassossego que mata

carne acesa a desistir
inteira o que a tristeza deseja
para que tudo cante
o lembrar a cada instante

a única solidão

Graça Magalhães, Na Memória dos Pássaros, 2ª ed., Ed. Palimage.

16 setembro, 2009

07 setembro, 2009

Sobr'Arte - "há letras e letras"



Lançamento do CD - "O Mar Atinge-nos" de Maria Azenha
Apresentação - gabriela rocha martins
Momento Musical - Paulo Pires
Leitura de Poemas - Inês Ramos, Lisete Martins, Hélia Coelho e a Autora

vj. mais in Bosque Azul e Casa Museu João de Deus

01 setembro, 2009

31 agosto, 2009

fábula da grande frase

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naquele tempo
em que os animais falavam
o lobo acomodou melhor a almofada sob os ombros
estendeu as pernas
estendendo-se, surdo enorme e esguio
e começou a ler
.
a fábula invocava figuras nítidas, puras
encantadas pela memória intacta,
encantadas figuras intactas
puras
.
a fábula tinha sons e cheiros e ruídos
do ambiente do interior
e do íntimo (que é um lugar ainda mais ao sul
do interior)
e luzes
.
a fábula gemia nos gonzos da língua doce do lobo
(doce lobo, ele também, sem que o soubesse)
descia em vapores suaves
erguia-se por entre o ar
morno
e planava
intacta,
febril mas intacta
ao ritmo cadenciado do passo da figura mais pura:
a da avó.
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a avó
mais do que uma avó
era a chave de tudo
do enigma e do desencanto
do espanto e da descrença
da força e das franjas ralas
do vácuo e
do verbo
intacto
puro
nascido entre abraços doces
da avó.
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o lobo falava, surdo. surdo, o lobo lia, lia-se
à medida que as figuras, exaustas, se aconchegavam
rente ao ventre da que mereceu o arco do silêncio e do verbo.

intactos
puros
rente aos seios da que mereceu
lamber o doce lábio do lobo ardente.
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no fim?
no fim da fábula o fim não se deixa ouvir.
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naquele tempo os animais falavam.
.
o lobo
enorme e esguio
começou a soletrar-se, surdo, na grande frase.
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desde então
até hoje
a grande frase pôs-se ao caminho
ao encontro do verbo doce.

desde então
a grande frase cumpre o caminho
de fazer falar a doce língua do intacto
surdo
lobo.
.
maria toscano
Coimbra, 24 Julho/2009

28 agosto, 2009

Ao corpo azul das pedras

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Centro de uma Passiflora manicata / foto Augusto Mota
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Iremos

onde os dedos são manhãs

onde os astros rebentam às flores

onde a geada
estende nêsperas de orvalho

e os peixes vestem escamas de nata

onde há rodas e carrosséis
e crianças de açúcar no regaço
dobando árvores de algodão

iremos

ao corpo azul das pedras
devassar o sossego
das algibeiras

à brancura luminosa
da pele molhada

iremos.
*
*
Graça Magalhães
*
in «Saudade», revista de poesia, Junho 2009, nº 11, Amarante, Edições do Tâmega.