20 junho, 2008

O silêncio despido…

Naquele tempo
os dias não eram meus
era inteira em pés de violeta
desfolhando risos ao sul dos pássaros.

corriam asteróides amarelos
sóis a enfeitar o peito
cosendo vértices de areia
planeando o vento nas dunas
os campos floridos e silvestres
era um tempo de espanta espíritos
e aspirinas doces de dormir
pequenas praias se abriam
pequenos moinhos a florescer o vento.
não escravizei o infinito das galáxias
os suspiros roxos da luz
a colher os negros anéis de Saturno

Hoje trago o silêncio despido
um acordeão atropelado
a febre tifóide dos malfeitores da alma.

Graça Magalhães, Primavera 2008
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Os pardais


aparecem na calçada como se atirados de longe
tal é o jacto de sua asa tal é a minha indagação
tal é a brisa do temor

as crianças erguem arcos pela réstia da sombra
convalecescendo na luz irada do sol abrupto
vão aos campos de futebol vão ao jardim de repuxo
vivem com o mar no peito na liberdade do farol
brilham asas como pardais pingando àgua ao sol
são o coração da luz


José Ribeiro Marto , in o longínquo privar dos dias , 2006


19 junho, 2008

Clareiras/Fronteiras


A penúltima estrela ecoa, como uma infindável
Kreisleriana,
nos pianos lunares de Robert Schumann.
Falar de ilusões sempre foi inventar a própria
nudez do coração, o amor em surdina,
quando floresce uma eternidade selvagem,
na ruína despojada, na aludida separação, ruptura,
berço, identidade,
movimento e música, harmonia imperceptível.
Nos antípodas do medo, no corpo, ecoa o perfume,
simbiose de cigarras deslumbradas, despertas
nos fios cutâneos, visíveis nas árvores brancas,
despedaçadas,
trazidas de uma floresta apodrecida de esporos
de vento.
Falar de ilusões sempre foi afastar as máscaras
corroídas, fluir com o ópio da memória,
as mandrágoras do silêncio,
quando a noite irradia a estrela, a lira,
a madrepérola,
designando o cântico da lua misteriosa ,
na nuvem aquática que flutua junto às grutas
e os lagos que serpenteiam argutos,
nas ambiguidades do ser,

amor-perfeito.
Maria do Sameiro Barroso, in "As Vindimas da Noite".

fado da terra


Ó terra, eu vou cantar-te,
Tenho as mãos cheias de ti,
E agora darei parte,
Com maior ou menor arte
Daquilo que descobri.

Estes torrões que seguro,
Fui-os no campo apanhando –
São desse barro maduro
Com que se amassa o futuro
Desta vila de Redondo.

A terra é base da vida,
Sobre ela pomos os pés,
E a gente vai decidida,
Devagar ou em corrida,
Correr mundo lés a lés.

Foi da terra-mãe que vim
E tu vieste também.
A terra criou-me a mim,
E quando chegar meu fim,
Voltarei à terra-mãe.

Deita-se à terra a semente
Num gesto lento, sem pressa –
E quase magicamente
Surge a planta de repente,
E nova vida começa.

Ó terra, ouve meu pranto,
Minha voz desesperada,
De ver os que entretanto
Destroem teu verde manto,
E te trazem maltratada.



Poema de António Simões, in "Fado de Água e Outros"
Imagens de fractais.

18 junho, 2008

Gatos, absinto e morte

Rachel amava os gatos
e a vida.
Odiava os medíocres.
Com esses era ranzinza,
impaciente e ... implacável,
por que não?
" De noite vira bruxa",
diziam os vizinhos.
Rachel ria e bebia absinto.
Absíntica, enigmática,
tão maníaca por mitos
que beirava a mitomania.
De tanto amar os gatos
acabou virando uma ...
gata.
Revirava latas de caviar
e lambia lascas de camembert.
Uma gata de gosto
fino,
sutil,
refinado.
Um dia subiu no telhado
com o violino
e o cálice de absinto.
Abriu os braços,
esticou a coluna,
arrepiou os pêlos
fechou os olhos
e parou o coração.
Num salto mortal se foi
para o outro lado do mundo.
Sem vassoura
atravessou a lua
virou uma estrela.

Rachel Melamet era uma gata. Uma amiga gata que deixou de miar nos telhados daqui da Terra porque Deus (sempre Ele) a chamou ... no cio.
poema de Márcia Frazão, Brasil / ilustração digital de Augusto Mota

és tu o incêndio e a rosa





és tu o incêndio e a rosa
nos meus olhos. sei que ainda moras
nas ruas e lembro mesmo algumas
mulheres que apontavam ao longe
a cidade e a noite. não se vê daqui
a ponte e não tenho como saber
a hora exacta em que tocaste os meus
cabelos e o vento subiu a beijar-te
os olhos.



Aida Monteiro

Fotografia de Tatjana Savvateeva

Cantiga de espera ( bailada )

dava o amarelo ao lancil
a pimenteira
dava
a tarde no céu azul
voava !

procurado sem aviso
o telemóvel cantando
encontrado!

amanhecia na hora
na tarde inteira
a vinda
muito esperada!

o telemóvel tocando
sem aviso encontrado
àquela hora do dia !

o jeito ágil do corpo
por vir tão certo
assustava !

àquela hora do dia
o telemóvel tocava
encontrado!

o autocarro primeiro
àquela hora do dia
chegava!

um beijo tocado
solto
aquela hora do dia
no telemóvel revolto
no telemóvel encontrado!

sem o som muito dançado
um cavalo verde corria
na rua por outro lado
àquela hora do dia !

à pressa via-se horário
o tempo crescia lento
áquela hora do dia
o telemóvel tocado!

um autocarro chegava
muita pressa trazia
àquela hora do dia!

ali um abraço sem fim
aquela hora do dia!

faltava-se à dança
bailava-se ali
àquela hora do dia!


José Ribeiro Marto

Já não sei - Graça Magalhães

Já não sei ouvir só pelos caminhos.
porque já não sei existir acordada
percorro os lugares da memória
condensando desejos de claridade matinal
a primavera morreu no olhar dos frutos
a madrugada acende os gritos na ausência
das palavras de riso
de amoras em campos de milho
palavras de água e de cio
se não as vejo imagino-as
e já não sou eu a colher a polpa das sílabas
as letras desenhando limos no fundo dos anéis

Trouxeste a Primavera num cesto vermelho.
Abriste-a de aromas para me escolheres.Para me amares devagar porque sou o que não ficou

17 junho, 2008

fui tempo de poesia


poema de Gabriela Rocha Martins / foto e composição de Augusto Mota

elegia para Eugénio de Andrade


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voz de Sónia Pereira-grupo experimentarte
poema de Luis Serrano

16 junho, 2008


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estou só
tão só que me esqueço de que estou
sou


vacilante entre o antes o depois
naquela recordação doce de coisa alguma
naquela solidão redonda
sinónimo de algumas ausências
tecidas na serenidade violenta
dos adeuses ditos há anos


agora
lembro.me de os sentir fortes
a agonia do cansaço vivido
em cada madrugada
descalça
com frio dentro da cabeça
os pés a palpitar face à sabedoria
transparente verdadeira
que transpiro em cada poro
inscrita neste corpo frágil que
oscila na espontaneidade constitutiva
de todas as existências
existentes para além da filosofia
humanista de Sartre
e Hegel
na antecâmara
das correntes filosóficas
conducentes a nenhures


prefiro outras correntes
as dos rios
desde que não corram
para a evidência do mar
quedada na falácia do existir
como única permanência do ser
a pessoalidade
na inter face do verosímil

na fragilidade do corpo




gabriela rocha martins
fotografia de Aykan ÖZENER

as minhas pedrinhas

as minhas pedrinhas

A meio de um rio

Falo do sol que me habita
do olhar verde de árvore
que aquece o peito e abriga
da água que rebenta nos olhos
do rosto dormindo sobre o clarão vermelho
de subtilezas no microscópio da pele
de uma galáxia com fios de estrelas
docemente alucinados
a meio de um rio.



Graça Magalhães